CANNES 2016

Competição em Cannes 2016 oscila entre realismo, farsa e fantasia

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Com quatro concorrentes já exibidos, a competição cannoise começa a tomar forma. A melhor reflexão sobre o mundo conturbado em que vivemos veio do inglês Ken Loach, com a joia humanista I, Daniel Blake.
 
Não é uma temática nova a que ele visita, como o desemprego – como ele fez no magnífico Meu nome é Joe. Mais uma vez, o título é uma afirmação de identidade de um homem comum, no caso, o carpinteiro Daniel Blake (Dave Johns). Aos 59 anos, ele sofreu um AVC e foi posto de licença médica. Meses depois, os médicos não o liberam para volta ao trabalho, ao mesmo tempo em que um outro lado da burocracia estatal, a que lhe garante a pensão do afastamento, insiste que ele pode voltar e deve também procurar trabalho.
 
 Preso num verdadeiro labirinto kafkiano, Daniel afirma sua sabedoria de homem simples, compondo um dos mais extraordinários heróis populares de que Loach, associado ao seu impecável roteirista, Paul Laverty, foi capaz de produzir. Mesmo num cotidiano de privações, Daniel encontra tempo para ajudar seus jovens vizinhos e também uma mãe solteira, Katie (Haley Squires), outra vítima da formidável teia da burocracia britânica, que multiplica obstáculos no caminho de quem requer benefícios sociais.
 
Felizmente, Ken Loach não cumpriu a promessa apressada de aposentadoria, que anunciou após Jimmy’s Hall.
 
Registros bizarros
Outros concorrentes à Palma viajaram em registros bem menos realistas. Foi o caso dos franceses Bruno Dumont (com uma nova comédia grotesca, Ma Loute) e Alain Guiraudie (Rester Vertical).
 
Em Ma Loute, Dumont revisita a região onde nasceu e filma suas histórias, o gelado litoral norte francês, no caso, a baía de Slack, ambientando ali uma crônica de famílias, diferença de classe e trama policial, lembrando detalhes de sua obra anterior, a deliciosa minissérie O Pequeno Quinquin.
O ano é 1910, o que dá um molho nostálgico aos figurinos e à casa do rico clã Van Petteghen – mas não é mera decoração e sim um lembrete do quanto as relações entre as classes são atávicas e resistentes a mudanças. Anualmente, o casal André (Fabrice Luchini) e Isabelle (Valeria Bruni Tedeschi), bem como a irmã dele, Auden (Juliette Binoche), e os filhos de ambos, passam férias naquele litoral. Ali bem perto, outro clã, os Brufort, vivem arduamente da coleta de mariscos e também de um hábito macabro: o canibalismo.
 
 O desaparecimento de alguns turistas atrai a visita de um inspetor, o obeso Machin (Didier Desprès), e seu fiel associado, Malfoy (Cyril Rigaux) – que lembra muito um personagem do gibi francês Tintin. A atuação da dupla reforça um elemento humorístico que existia também na investigação por trás de O Pequeno Quinquin, numa outra chave.
André, Isabelle e Auden são os próprios ricos alienados, olhando a realidade à sua volta como uma coisa pitoresca. Os pescadores, por sua vez, são rudes, raivosos e, embora a incompetência policial não esclareça, canibais. Acentuando o choque de classes, o adolescente Ma Loute (Brandon Lavieville) se apaixona pela burguesinha Billie (Raph), uma menina que se veste de menino. Ou é o contrário?
Jogando com estes elementos de maneira burlesca, com um elenco que mescla estrelas do cinema francês (o que, até recentemente, o diretor recusava) e atores amadores (como o protagonista Brandon Lavieville), o filme explora fantasias que expõem o jogo de aparências da sociedade, sem nunca apostar no maniqueísmo. Não há bons contra maus aqui. No geral, são todos bem loucos e há um ar de Jacques Tati num registro sinistro no ar.
Dumont se arriscou como nunca aqui, assim como seu elenco. Juliette Binoche, por exemplo, nunca interpretou uma personagem tão sem noção e afetada, assim como Valeria Bruni-Tedeschi. Normalmente chegado a um overacting, Fabrice Luchini consegue colocar este seu vício a serviço do personagem e da história – que não é para todos. Muitos vão sentir que, desta vez, Dumont exagerou.
 
 Sexo e paternidade
Em Rester Vertical, o diretor Alain Guiraudie (Um estranho no lago) novamente aposta em comportamentos não convencionais e numa sexualidade exacerbada para compor a vida de um grupo de personagens à procura de um destino, em que oi subtexto é também a composição de um roteiro.
O protagonista (Damien Bonnard) é um roteirista em bloqueio criativo. Cai na estrada e encontra uma mulher (India Hair) pastoreando um bando de ovelhas, numa região assolada pelos ataques de lobos. Ela é mãe de dois filhos e vive com o pai (Raphael Thierry ) num sítio, em que o viajante acaba ficando por um tempo.
 
O romance não dura muito tempo, mas nasce um bebê, que acaba ficando com o pai. Este vive sendo cobrado pelo telefone para entregar este roteiro que ele nunca termina. Ao mesmo tempo, ele não esconde sua atração por alguns homens, como um jovem que vive com um homem velho. O próprio sogro sente atração por ele.
Sexo, a luta pela sobrevivência e um discurso metalinguístico – há uma cena impagável da fuga do protagonista num rio – conduzem Rester Vertical, que é um tanto fragmentário e confuso. Em compensação, tem uma bela cena final envolvendo os lobos, que quase compensa fragilidades anteriores da história toda. Quase.
 
 Impasses egípcios
A importante seção paralela Un Certain Regard deu a largada com o drama egípcio Eshtebak (Clash), de Mohamed Diab (de Cairo 678), outro título vincado no realismo e na política. Embora se trate de uma ficção, mantém um clima documental, ao concentrar-se num dia de manifestações públicas, em julho de 2013, quando foi derrubado o presidente eleito, Mohammed Morsi, da Irmandade Islâmica.
A ação concentra-se quase inteiramente dentro de um caminhão-camburão, onde militares amontoam os presos na manifestação. Ali dentro, acotovelam-se perigosamente adeptos e inimigos da Irmandade Islâmica, homens, mulheres e até uma criança. De seus conflitos entre si e com os soldados, seus guardiães, emerge um retrato que dá a dimensão do enorme impasse do Egito hoje. Embora o diretor, ao apresentar do filme, tenha manifestado a esperança de mostrá-lo em seu país, difícil acreditar que a ditadura militar que hoje domina o Egito com mão de ferro vá permitir isso. Cannes deve ser sua tribuna diante do mundo.

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