CANNES 2016

Drama romeno "SieraNevada" abre competição em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Romeno que abriu a competição à Palma de Ouro, Cristi Puiu revelou-se um mestre do controle e da construção no drama SieraNevada – título que remete a um faroeste, como o próprio diretor menciona no material de imprensa, mas é mais um sintoma da estranheza que o filme procura investigar do que outra coisa. Nada que chegue a ser o “rosebud” de Cidadão Kane, de Orson Welles, portanto, mas ainda assim revelador das intenções do cineasta, conhecido por A morte do sr. Lazarescu.
 
É mais uma vez em torno de um morto, como naquele filme, que se forma a história, concentrada claustrofobicamente num tempo e lugar. Praticamente toda ela passa-se dentro de um apartamento, onde se prepara a cerimônia que marca os 40 dias da morte de um homem, uma tradição na religião ortodoxa romena, no espaço de poucas horas – espera-se apenas a chegada de um sacerdote, cujo atraso alonga as tensões e expectativas e permite que os dramas se desenrolem, carregados de uma tensão sempre a um passo de explodir.
Inevitável lembrar de Luis Buñuel, já que as pessoas da família do morto, ali amontoadas e tropeçando o tempo todo umas nas outras, não saem do mesmo lugar por um bom tempo, como presas por uma força invisível (como em O Anjo Exterminador). E, mesmo preparando comida todo o tempo, não conseguem comer, por mais que várias vezes sentem-se à mesa posta (como em O Discreto Charme da Burguesia).
 
 Mas, ainda que haja esta referência no horizonte, o fato é que Puiu atualizou o registro e firmou as raízes muito claramente em seu próprio país, identificando em cada um dos membros da família alguma vertente que permite discutir seu lugar no mundo. Ou seja, é uma Romênia encaixada na Europa e na contemporaneidade, povoada por uma classe média em busca de ascensão econômica e consumismo, ainda que debatendo-se com a herança de um passado comunista – sobre a qual alguns dos que o construíram, como a impagável tia Evelina (Tatiana Iekel), têm muito a dizer. A discussão entre a velha senhora militante, ainda comunista, e uma de suas sobrinhas, Sandra (Judith State), aliás, é um dos momentos mais vívidos do filme, por remeter a uma polarização política que, neste momento, varre o mundo. O Brasil que o diga.
 
Ao contemplar também discussões entre outros membros da família sobre o estado do mundo, o 11 de setembro, George W. Bush e a onipresente vigilância eletrônica, o filme embarca também em outras direções. Uma delas, a exposição implacável dos mecanismos de funcionamento da família – de todas as famílias do mundo, aliás -, num constante esgarçamento das verdades e mentiras que colidem naquele pequeno espaço.
 
É evidente que há uma construção muito rígida, quase teatral, destas entradas e saídas de atores de quartos e salas – há alguns deles onde nunca se entra, nem se vê a pessoa ali dentro. E o olhar solto sobre tudo isso evoca o do morto, como um invisível observador do caos que se instalou após sua passagem. Ou até o olhar do diretor, simplesmente, que está perto demais de tudo que aborda para ter distanciamento, assim como cada um de seus personagens. Ou seja, está imerso no cotidiano, na vida, como qualquer um, dentro e fora do filme.
 
Há, nesse caos, algo de exasperante – até porque SieraNevada dura praticamente três horas. E nessa contradição está a força do que se vê. Do público, no entanto, se exige imersão para aproveitar esta pequena temporada no inferno.
 
 Bellocchio na Quinzena
 
Importante seção paralela do festival – e que, não raro, tem conquistado para si filmes impactantes da seleção principal -, a Quinzena dos Realizadores abriu sua programação com ninguém menos do que o veterano italiano Marco Bellocchio, pilotando o drama familiar Fai Bei Sogni.
 
Adaptando o romance homônimo de Massimo Gramellini, o filme dialoga sobremaneira com a obra do próprio Bellocchio, especialmente com alguns pontos de seu filme de estreia, De Punhos Cerrados (65). Mesmo não sendo um roteiro original seu, portanto, a história é povoada de pontos que são caros ao diretor, que lida magnificamente com este mergulho na psique e também na época de um jornalista, Massimo (adulto, interpretado por Valerio Mastandrea), traumatizado afetivamente pela morte precoce de sua mãe (Barbara Ronchi), quando ele tinha 9 anos.
 
 Há um equilíbrio enorme na caracterização do personagem desde a infância, especialmente por conta dos dois ótimos atores que o interpretam em duas fases, Nicolò Cabras, quando menino, e Dario Dal Pero na adolescência. Um resultado, certamente, da intervenção de um diretor super-qualificado, capaz de extrair as diversas camadas do melodrama, ao qual não subtrai seu potencial emotivo, mas sem sucumbir a ele – como fazem os chorosos melodramas hollywoodianos.
 
Bellocchio compõe com nuances e realismo as diversas fases na vida de Massimo, tirando um ótimo proveito de imagens da televisão da época (anos 1950/1960) não só para situar a história temporalmente como para definir o papel que ela representa no imaginário do menino. Este se apega a um herói televisivo feiticeiro, Belfagor – de quem sua mãe gostava -, para construir uma fantasia, um refúgio que lhe permite defender-se, não só da perda materna, como da frieza emocional do pai (Guido Caprino).
 
 Além das inevitáveis passagens pelo catolicismo e o futebol (a história passa-se em Turim), um outro tema nada desprezível relaciona-se com a profissão do protagonista. Há diversas situações em que Bellocchio injeta uma crítica tremenda ao componente de manipulação das notícias – como quando o fotógrafo que acompanha Massimo na cobertura do conflito em Sarajevo, nos anos 1990, Desperado (Pier Giorgio Bellocchio), coloca dentro do quadro da foto de uma mulher morta também seu filho, que estava no quarto ao lado. É uma cena impactante, que expõe o sensacionalismo em seu mais alto grau.
 
Trata-se de um universo evidentemente muito masculino, em que o papel das mulheres é mais marginal – ainda que o centro da precariedade emocional do protagonista seja esta traumática morte precoce da mãe. Ainda assim, há pequenas participações femininas marcantes, como da francesa Emmanuele Devos, como a mãe de um amiguinho de Massimo, e Berenice Béjo, como uma médica que se torna seu interesse amoroso.

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