CANNES 2016

Filme brasileiro compete à Palma e país participa de várias seções

Neusa Barbosa, de Cannes

 Num ano de turbulência política no Brasil, pelo menos de Cannes vieram muito boas notícias. Depois de oito anos ausente da competição principal, o país volta a concorrer com Aquarius, segundo longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho (O Som  ao Redor). O último concorrente brasileirohavia sido Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008, que conquistou o prêmio de melhor atriz para Sandra Corveloni.
 
Protagonista de Aquarius, a estrela Sonia Braga também faz uma volta triunfal a Cannes. Ela havia estado no festival há exatos 35 anos, no elenco de Eu te amo, de Arnaldo Jabor, selecionado então na seção paralela Un Certain Regard.
 
O Brasil também está representado na seção Cannes Classics (com o documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha); Quinzena dos Realizadores (com o curta Abigail, das diretoras Isabel Penoni e Valentina Homem); e na Semana da Crítica (em que compete com outro curta, O delírio é a redenção dos aflitos, de Fellipe Fernandes. 
 
 Aquarius
 
A estrela Sonia Braga interpreta a protagonista, Clara, uma escritora e jornalista aposentada, viúva, mãe de três filhos adultos. Ela mora no edifício Aquarius, o último de estilo antigo à beira-mar do bairro de Boa Viagem, no Recife. Dona de um apartamento repleto de discos e livros, ela enfrenta as investidas de uma construtora que pretende demolir o Aquarius – mais uma vez, como no filme anterior de Kleber Mendonça, O som ao redor, tematiza-se a implacável especulação imobiliária que assola a capital pernambucana (assim como outras cidades brasileiras). O conflito dá a Clara uma energia nova. 
 
“Rodamos Aquarius em agosto e setembro do ano passado, e a montagem começou logo depois. Foram seis meses de excelente trabalho com o montador Eduardo Serrano. Poder estreá-lo em Cannes é um momento muito feliz desse processo, que teve início há três anos, com a primeira versão do roteiro, escrito por mim. Fico ainda mais feliz por toda a nossa equipe formada por gente de todo o Brasil, e especialmente por artistas e técnicos pernambucanos. Fico feliz também por Sonia Braga. Quero que esse filme seja muito bom para essa artista maravilhosa e para a pessoa incrível que ela é. Antes, eu era apenas um fã, agora ganhei ainda uma amiga”, afirma o diretor Kleber Mendonça Filho.
 
Sonia Braga também comentou a seleção. “Nossa! Estou super-feliz de estar de volta à Croisette com Aquarius, vivendo uma personagem que qualquer atriz se sentiria honrada em fazer. Uma pérola, um tesouro! Kleber me devolvendo a alegria de pertencer à língua portuguesa. A primeira vez que fui a Cannes foi com o filme Eu te Amo, selecionado para a Mostra Un certain Regard... e agora 35 anos depois… Aquarius na competição oficial! Estou com o coração apertado de tanta alegria. Brindaremos em Cannes essa amizade com Kleber e Emilie que começou em Nova York e seguiu por Recife”.
 
 O pernambucano Irandhir Santos (O Som ao Redor), a brasiliense Maeve Jinkings (O Som ao Redor), os cariocas Carla Ribas (A Casa de Alice) e Humberto Carrão, Julia Bernat (Aspirantese o paraibano Fernando Teixeira (Baixio das Bestas) são alguns destaques do elenco. Barbara Colen, Zoraide Coleto, Pedro Queiroz, Daniel Porpino, Germano Melo, Buda Lira, Paula de Renor, Allan Souza Lima, Arly Arnaud, Lula Terra, Clarissa Pinheiro, Valdeci Junior, Rubens Santos, Mariquinha Santos, Léo Wainer, Fabio Leal e Bruno Goya completam o elenco.
 
 As filmagens de Aquarius tiveram duração de sete semanas, com locações em bairros diferentes do Recife. Aconteceram nos meses de agosto e setembro de 2015. A produtora Emilie Lesclaux reuniu boa parte da equipe técnica e de produção de O Som ao Redor, como os fotógrafos Pedro Sotero e Fabrício Tadeu, os diretores de arte Juliano Dornelles e Thales Junqueira, Daniel Bandeira como consultor artístico, Nicolas Hallet na gravação de som, Amanda Gabriel e Leonardo Lacca como preparadores de um elenco com mais de 50 atores.  
 
 Cinema Novo nos Clássicos
 
Cinema Novo, novo documentário de Eryk Rocha (Rocha que Voa, Campo de Jogo e Transeunte), foi selecionado para a Mostra Oficial Cannes Classics, do Festival de Cannes 2016, seção voltada para filmes clássicos e do patrimônio do cinema mundial em cópias restauradas, além de filmes como este, que homenageiam o cinema. 
 
O diretor Eryk Rocha comemora a seleção: "Em 2004, apresentei em Cannes o curta Quimera, que participou da Competição Oficial. É uma grande alegria voltar a Cannes 12 anos depois para apresentar o documentárioCinema Novo. Acredito que esse é um momento pertinente para o nascimento desse filme, que traz a força, a poesia e a política desse movimento que fecundou e inventou uma nova forma de fazer cinema no Brasil. Uma geração que imaginou o cinema inserido num projeto maior de país. O desejo do filme foi mergulhar na aventura da criação dos seus autores e suas poéticas. Lançar o Cinema Novo no presente, em pleno movimento, e perceber como esses filmes seguem ecoando e dialogando visceralmente com o Brasil contemporâneo. Uma das matrizes que o filme quer revelar é a interrupção que o movimento sofreu a partir do golpe civil-militar de 1964, e o trágico desdobramento do Ato 5, em 1968. Nesse momento, estamos vivenciando um iminente risco de golpe institucional e novamente, uma interrupção. Apesar de serem contextos históricos distintos, há graves semelhanças entre esses dois processos".
 
 Cinema Novo concorre ainda ao prêmio L´Oeil D´or (Olho de Ouro) que é entregue ao Melhor documentário do Festival de Cannes, escolhido a partir de todos os documentários selecionados em todas as mostras, oficiais e paralelas. O júri deste ano é presidido pelo italiano Gianfranco Rosi, diretor de Fogo no Mar, grande vencedor do Festival de Berlim 2016, e composto pelo jornalista brasileiro Amir Labaki, diretor do Festival É Tudo verdade; pela cineasta francesa Annie Aghion; pela atriz belga Natascha Regnier e pelo produtor francês Thierry Garrel.
 
Sobre o documentário Cinema Novo, Eryk complementa: "O embrião do projeto nasceu de uma conversa que tive com o Canal Brasil. O produtor do filme é o Diogo Dahl, que tem uma ligação afetiva com o tema e tem sido um grande parceiro nessa caminhada. Cinema Novoé um filme-ensaio composto de múltiplos fragmentos de filmes e arquivos, e é fruto de um longo e denso processo de nove meses de montagem que contou com o magnífico trabalho do montador Renato Vallone. Nesse sentido, foi essencial a participação das diversas famílias dos autores que nos ajudaram a construir esse filme”.
 
Quinzena
Na Quinzena dos Realizadores, uma das mais importantes seções paralelas do Festival de Cannes, o Brasil estará representado por um curta, Abigail, das diretoras Isabel Penoni e Valentina Homem. O filme apresenta a impressionante trajetória de Abigail Lopes, mulher nascida em Rondônia que escapou de uma infância pobre e marcada pela violência, tornando-se, mais tarde, companheira do indigenista Francisco Meireles e mãe de três filhos dele, nascidos entre os índios Xavantes da serra do Roncador (GO).
 
Mulher sem educação formal, ela tornou-se também ativista dos direitos indígenas. Mudou-se, então, para o Rio de Janeiro, para permitir que seus filhos tivessem acesso a escolas. Descobriu, então, que Meireles tinha outra família. Hoje, Abigail é mãe de santo no bairro de Campo Grande (RJ).
 
Semana da crítica
Em outra importante seção paralela, a Semana da Crítica, compete o curta brasileiro O delírio é a redenção dos aflitos, de outro diretor pernambucano, Fellipe Fernandes. O enredo acompanha a sina de Raquel (Nash Laila), última moradora a permanecer num prédio condenado, que está prestes a desabar. O filme foi ambientado no bairro Jardim Atlântico, em Olinda, onde o diretor nasceu.
 
Ainda nesta seção, será exibido, em sessão especial, o novo trabalho do colombiano César Augusto Acevedo, Los pasos del água. Acevedo foi o vencedor do prêmio Caméra d’or em Cannes no ano passado, com o drama A Terra e a Sombra, coproduzido pelo Brasil. 

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