CANNES 2016

Farhadi e Verhoeven embolam o jogo das premiações no final de Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Como às vezes acontece, a competição principal guardou duas atrações robustas para o final: o suspense erótico-policial de Paul Verhoeven, Elle, protagonizado por uma Isabelle Huppert mais perversa do que nunca, e o drama iraniano Forushande, de Asghar Farhadi (O Passado). A premiação da Palma de Ouro será anunciada na noite deste domingo (22).
Ambos os filmes centram sua narrativa numa agressão sexual, mas com intuitos e temperatura bem diferentes, como se pode imaginar. Autor por trás de Instinto Selvagem (1992), Verhoeven, com quase 78 anos, mostrou que ainda é capaz de apertar os botões certos para provocar e divertir perversamente seu público. Mesmo a cética plateia de jornalistas credenciados do festival, afinal, mostrou ter-se divertido bastante (e houve aplausos).
 
 A polêmica sobre jogos sexuais violentos envolvendo Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) e um agressor mascarado – não revelemos ainda sua identidade, para não entregar nada antes da hora – certamente virá depois. Em todo caso, não há dúvida de que Verhoeven, como um Hitchcock moderno e bem mais explícito, explora os lados mais obscuros das pulsões de seus personagens.
A protagonista é uma executiva de sucesso, que comanda uma bem-sucedida empresa de videogames, ao lado de uma amiga (Anne Consigny) – uma chance para que o filme explore com ironia o choque de gerações, já que as duas senhoras comandam uma turma de garotos. Cabe a Michèle exercer esse controle com mão de ferro, observações duras e nenhuma concessão.
 
 O filme começa em tom alto, justamente pelo som da agressão sexual a Michèle em sua ampla casa - a princípio, nada se vê, exceto o final. Verhoeven voltará a essa cena outras vezes, para definir o caráter contraditório dessa mulher fria, calculista e que esconde um passado complicado.
Esse passado, que envolve o pai dela, justifica a reação surpreendente dela em relação à denúncia à polícia (mais uma vez, evite-se os detalhes). O que cabe dizer é que Elle é um filme de gênero que escapa de muitas armadilhas habituais justamente por pescar em águas sombrias e ser eficaz em seu suspense, humor negro e drama de gênero. A personagem foi feita à imagem e semelhança dos recursos de Isabelle, sempre crível quando é feroz. Essa consistência na composição do personagem é que impede que a história se torne misógina (embora sempre possa haver quem tenha essa interpretação). Provocativa ela é, e muito.
Isabelle junta-se à série de interpretações femininas marcantes deste ano, ao contrário do habitual nos festivais. Ela é sempre um páreo duro e deve sê-lo agora para as até agora favoritas, a alemã Sandra Huller, de Toni Erdmann, e a brasileira Sonia Braga, de Aquarius, com a filipina Jaclyn Jose, de Ma’Rosa, correndo por fora.
 
 Hora da vingança
Como em O Passado e A Separação, o iraniano Asghar Farhadi cria novamente um emaranhado emocional complexo na trama de Forushande (The Salesman). A princípio, parece que vai enveredar no mesmo universo do brasileiro Aquarius, ao retratar os dilemas de moradia de um casal de atores, Emad (Shahab Hossein) e Rana (Taraneh Alidoosti), em Teerã. O prédio onde viviam sofreu rachaduras e é interditado. Passo seguinte, eles encontram refúgio num apartamento encontrado por um amigo. E é ali, numa noite em que esperava o marido, que Rana sofre a agressão de um invasor.
A sugestão de que Rana sofreu um estupro, que nunca fica clara, pode ou não dever-se a uma tentativa de driblar a vigilante censura iraniana, que é denunciada explicitamente numa outra sequência, a da montagem da peça em que trabalha o casal de atores, uma adaptação de A morte de um caixeiro viajante, de Arthur Miller. Na cena em questão, torna-se evidente que a personagem, Miss Francis, estaria nua, ou quase isso, mas ela é vista em cena usando um casaco impermeável (o que é motivo de uma brincadeira posterior do elenco).
 
 A agressão muda completamente a vida do casal, com Rana tornando-se atemorizada e insegura, e Emad, cada vez mais tenso. O foco desloca-se dela, na primeira parte, para ele, cada vez mais obcecado para identificar o agressor.
Como sempre nas histórias de Farhadi, há um eixo moral, ético, que se amplia numa discussão dos limites da vingança. É um roteiro bastante matizado e envolvente – que bem poderia ser lembrado para este prêmio, assim como o ótimo ator Shahab Hossein, destacando-se num ano em que houve menos papeis masculinos marcantes. Quem sabe até a Palma de Ouro ?
 
 Argentino na UCR
Já na reta final de uma edição que foi considerada fraca em relação a anos anteriores, na seção Un Certain Regard, o drama argentino La Larga Noche de Francisco Sanctis não entusiasmou. O trabalho de estreia na ficção da dupla de diretores Francisco Márquez e Andrea Testa (que antes realizaram o documentário Después de Sarmiento) parte de uma inspiração literária para reproduzir as horas de angústia de um funcionário modesto, Francisco Sanctis (Diego Velásquez).
 
 A época é 1977, um ano depois da instalação da mais recente ditadura argentina. Francisco é procurado por uma amiga da faculdade (Valeria Lois), que não via há anos, e encarregado por ela de avisar dois desconhecidos de sua iminente prisão. O filme retrata as reações de Francisco a partir desse incidente, recriando numa única noite a atmosfera angustiante do país naqueles dias. Mas os diretores parecem ter exagerado na sutileza e o resultado é um pouco frustrante.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança