CANNES 2016

Na reta final, Sean Penn e Winding Refn decepcionam, mas romeno Mungiu se salva

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Faltando apenas a exibição de dois candidatos à Palma de Ouro (Forushande, do iraniano Asghar Farhadi, e Elle, do holandês Paul Verhoeven), não houve muita mudança nas apostas de premiações, que continuam no rumo do alemão Toni Erdmann, de Maren Ade, e do norte-americano Paterson, de Jim Jarmusch – com o brasileiro Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, correndo por fora, bem cotado, na esteira da estrela Sonia Braga, cuja atuação impressionou, num ano em que, contrário à tradição, o festival assistiu a vários bons papeis femininos.
 
Nesse quesito das interpretações femininas, filmes como o filipino Ma’Rosa, de Brillante Mendoza, e o elegante drama de época sul-coreano Mademoiselle, de Park Chan-wook, oferecem concorrência. Mas é bom manter as esperanças. A interpretação de Sonia, como uma mulher madura, independente e ciosa de seu espaço e sexualidade repercutiram favoravelmente, numa história de especulação imobiliária que tem ressonância universal.
 
 Concorrência pálida
Esse panorama não mudou com a exibição de outros concorrentes, como o decepcionante The Last Face (fotos ao lado e acima), do norte-americano Sean Penn. Ótimo e premiado ator, Penn é também um bom diretor (como se viu em Unidos pelo Sangue e Na Natureza Selvagem) mas, desta vez, não acertou.
 
Ao encaixar um romance (impossível) entre dois médicos em cenário de guerras na África (Charlize Theron e Javier Bardem), visivelmente há uma tentativa de trazer essas histórias de guerra – no caso, no Sudão do Sul e na Libéria – mais para perto de um grande público. Isso pode até funcionar em parte, mas, na verdade, o conjunto do filme é muito desequilibrado. Charlize e Javier são ótimos atores, mas a história vacila muito, talvez por uma preocupação excessiva do diretor, altamente engajado na vida real, de transmitir um recado político em favor desses países instáveis, que produzem as levas de refugiados que invadem a Europa.
 
Houve várias risadas durante a sessão matinal de imprensa (há diálogos românticos cafonas, é verdade), além de sonoras vaias ao final (como aconteceu com o francês Personal Shopper, de Olivier Assayas, e o dinamarquês The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn). São reações que podem até ser idiotas, ou vir de alguns idiotas, mas é inegável que faltou muita filtragem e estruturação a este roteiro, de autoria de Erin Dignam.
ASSISTA AO TRAILER
 
 Jeitinho romeno
Houve muito com que um brasileiro se identificar no segundo concorrente romeno à Palma, Bacalaureat, de Cristian Mungiu (Palma de Ouro 2007 com 4 meses, 3 semanas e 2 dias). A história descreve uma espiral de problemas na vida de um médico, Romeu Aldea (Adrian Titieni), obcecado pela formatura de sua única filha, Eliza (Maria Dragus) no ensino médio com notas altas para não perder uma bolsa de estudos em universidade inglesa.
Romeu é o retrato de uma certa geração romena (hoje na faixa dos 50 anos), que vivia fora do país, na era comunista, e voltou nos anos 1990, com a queda do regime de Nicolae Ceausescu, acreditando sinceramente numa mudança no pais. No entanto, não foi isso o que aconteceu. Ele e a mulher (Lia Bugnar) vivem uma vida modesta e sem perspectivas, em que todo e qualquer problema, dos pequenos aos grandes, depende de uma complicada rede de relações pessoais, contatos e jeitinhos nada honestos.
 
 Romeu é um homem correto, que nunca recorreu a nada disso – e também por isso, provavelmente, não prosperou. Mas agora trata-se do futuro de sua filha, que é ameaçado quando ela sofre uma tentativa de estupro e fica emocionalmente abalada bem na véspera dos exames decisivos.
Como é característico do bom cinema romeno, a construção da história nos mínimos detalhes e uma direção atenta e minuciosa são os pontos fortes. É um filme nada desprezível, assim como o outro romeno da competição, SieraNevada, de Cristi Puiu – que, na comparação, no entanto, parece mais consistente e até digno de uma consideração para prêmios, com seu huis clos, seu retrato claustrofóbico da classe média e da sociedade romenas.
ASSISTA AO TRAILER
 
 Antropofagia fashion
Se, desde Only God Forgives (desastroso concorrente à Palma em 2013), uma certa desconfiança esperava a passagem do novo filme de Nicolas Winding Refn, The Neon Demon, esta sensação, infelizmente, se confirmou.
Mais uma vez, o exagero visual estiloso se sobrepõe a tudo o mais, compondo uma crônica artificiosa e superficial de quase horror sobre a trajetória de uma aspirante a modelo adolescente (Elle Fanning), que desembarca em Los Angeles e é literalmente devorada pelas engrenagens de um mundo da moda, em que a competição e a inveja são levadas às últimas consequências.
 
 O filme, especialmente em suas sequências finais, é para estômagos fortes, já que não há nenhuma contenção em mostrar violência, com sugestão de massacre e antropofagia (isto depois de escorregar em todo tipo de clichê possível de filme B de terror numa perseguição dentro de uma casa elegante e, antes, num motel decadente, um sub-Bates Motel em que Keanu Reeves faz as vezes de gerente maluco). E o tormento dura praticamente duas intermináveis horas....
ASSISTA AO TRAILER

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança