CANNES 2016

Na coletiva de "Aquarius", discute-se a polarização política no Brasil

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Um dia depois de suas sessões, tanto a oficial quanto para a imprensa, o filme brasileiro Aquarius continuou repercutindo em Cannes. Na tarde desta quarta (18), aconteceu a coletiva de imprensa, em que o protesto contra o golpe, com faixas e pequenos cartazes, por parte da equipe do filme, voltou à discussão – depois de uma foto dele ter ganhado a primeira página do diário inglês The Guardian, por exemplo.
 
Falando do protesto, o diretor Kleber Mendonça Filho destacou que não queria “nada barulhento ou inadequado”. Assim, produziu-se pequenos cartazes, com frases muito curtas, sobre o que está ocorrendo no Brasil. Quanto à reação, dentro e fora da sala Lumière, onde foi exibido o filme, disse ter ficado”comovido”. E completou: “A narrativa da mídia brasileira em geral é muito comprometida. Nossa manifestação é um gesto simples, uma tomada de posição contra o golpe”. A atriz Sonia Braga, por sua vez, comentou que “o Brasil está extremamente dividido agora. Isto não acontecia desde a redemocratização. Nas Diretas-Já, estávamos todos juntos. Neste momento, por causa da mídia preconceituosa do país, o Brasil está dividido”.
 
 O diretor acentuou que esta divisão no Brasil “é muito dramática e está trazendo à tona o pior dos dois lados. Do lado da direita, está trazendo o fascismo. Há políticos que defendem que as mulheres não devem trabalhar fora, porque têm filhos. Além disso, houve a extinção do ministério da Cultura (que foi fundido com o da Educação)”. Sonia completou dizendo que neste novo governo “há muitos corruptos e isto é muito danoso à nossa democracia, que foi tão dura de conseguir”.
 
Respondendo a uma pergunta, o ator Humberto Carrão (que interpreta um dos vilões, um dos jovens empreendedores imobiliários) disse que se identificou muito com o tema do filme, já que o Rio, neste momento, transformou-se numa “cidade-galpão”, por conta das obras das Olimpíadas. Também destacou a realidade de uma fala – quando ele discute com a personagem de Sonia -, ressaltando que “o problema no Brasil hoje é a falta de educação dos ricos, o que está por trás inclusive do que está acontecendo no Brasil hoje”.
 
 Sonia apoiou o colega: “Concordo totalmente com o Carrão. Não há nada de errado com os pobres, o problema está com os ricos, que tentam tirar o que eles têm e tornam as cidades feias. Os construtores empurram a população para fora de seus lugares, onde eles têm amigos’. Neste ponto, a atriz permitiu-se um pequeno desabafo pessoal: “É muito importante de onde você vem. Saí da escola aos 13 anos. Minha mãe era costureira e lutou para criar sete filhos. Nós viemos de lugares diferentes, no entanto, estamos todos aqui. É importante estarmos juntos e fazermos uma democracia para todos”. Respondendo à pergunta de uma jornalista, sobre as diferenças entre a elite cultural e política no Brasil hoje, Kleber afirmou: “Mais do que nunca, elite cultural e elite política pensam diferente no país hoje”.
 
 Revelando semelhanças na vida real com sua personagem no filme, Sonia Braga também comentou, após ser perguntada sobre trabalhar novamente na TV: “Não tenho nenhum problema com a TV. Mas entrei com um processo contra a TV Globo, pela falta de pagamentos de direitos conexos, como direitos de imagem, quando novelas em que trabalhamos são reexibidas. Me disseram para não fazer isso, porque ia perder. E perdi. Mas fiz o que achava e continuo acreditando que estou certa, embora o juiz tenha achado que eu estava errada”. Sonia declarou também que “gosta de fazer TV e que a Globo pode até me chamar”, mas ela mesmo acabou se afastando. Ainda mais, continua morando nos EUA. Mas ela manifestou o desejo de vir a trabalhar com novos diretores brasileiros no cinema no futuro.
 
“Aquarius” no ranking
Nas críticas internacionais, Aquarius e sua estrela, Sonia Braga, ganharam elogios. No ranking de críticos da revista inglesa Screen, o filme brasileiro apareceu em terceiro lugar como favorito à Palma, abaixo apenas do concorrente alemão Toni Erdmann, de Maren Ade, e do norte-americano Paterson, de Jim Jarmusch. Na edição diária da mesma revista, a crítica Wendy Ide destacou a “performance magnética de Sonia Braga”, considerando-a uma das melhores da carreira da atriz.  “O prazer nesta performance é que ela surpreende constantemente”, afirma.
 
A crítica elogia também a obstinada recusa da personagem em abandonar seu apartamento como um “espaço para um comentário sobre as divisões sociais no Brasil”, além de um “estudo afetuoso e perceptivo da dinâmica dentro de uma família estendida”. Além disso, destaca que “o tema dos empreendedores imobiliários inescrupulosos é oportuno, tanto no Brasil quanto em qualquer outra parte do mundo”.
 
Na edição diária de outra revista, a norte-americana Hollywood Reporter, o crítico Jordan Mintzer lembrou do filme de estreia de Kleber, O Som ao Redor – que classificou como “um début memorável” -, considerando este novo filme, em comparação, como “mais classicamente composto e narrado”. Mais adiante, descreve Aquarius como “um drama encantador sobre a idade madura que funciona melhor como um estudo honesto e nuançado de personagem, mesmo sem quebrar nenhum padrão cinematográfico”.
 
Da mesma maneira, sobram elogios para Sonia Braga, considerada uma “escolha perfeita”, considerando sua atuação “mais incisiva” aqui do que em trabalhos anteriores memoráveis, caso de O Beijo da Mulher-Aranha e Dona Flor e seus Dois Maridos, e até do seriado Sex in the City (onde Sonia interpretou brevemente uma lésbica).
 

 

 Humanismo urgente
 
Em Ma’Rosa, o filipino Brillante Mendoza mais uma vez compôs uma personagem feminina fortíssima. Interpretada por Jaclyn Jose, a personagem-título é uma enérgica e desesperada mãe de família, espremida entre as pungências de uma sobrevivência duríssima, que a obriga, ao lado do marido, Nestor (Julian Diaz), a envolver-se com o tráfico de drogas.
Certamente, ela é peixe pequeno, a ponta de uma complexa rede de tráfico, onde os chefões nunca estão expostos. Assim, ela e o marido tornam-se alvo de policiais – aparentemente secretos, já que ocupam os fundos de uma delegacia oficial. Estes invadem a pequena venda da família, onde encontram, entre os doces, os envelopes de droga.
A partir da prisão do casal, que acontece numa noite em que chove torrencialmente sem parar em Manila, a vida dos três filhos mais velhos entra também numa espiral de aflições. Cada um deles parte em busca do dinheiro que falta para completar a extorsão exigida pelos policiais (50.000 da moeda local), depois que estes se apoderaram de todo o dinheiro, das drogas e até do celular da filha universitária, Raquel (Andi Engenman).
 
 Com uma câmera solta, na mão, colada nos personagens em transe, o filme descreve o que parece um fenômeno habitual (um dos fornecedores do casal é preso, espancado e sua mulher chantageada para obter mais dinheiro para soltá-lo), baseado em delações constantes. Cinematograficamente falando, há um parentesco com o universo de Kinatay (pela denúncia das autoridades corruptas, embora sem a mesma violência explícita aqui) e Lola (pela forte presença de uma protagonista feminina). A sequência final, em que o rosto dela ocupa quase todo o plano, é inesquecível. Um grande Mendoza, que dialoga com o humanismo urgente de I, Daniel Blake, de Ken Loach, exibido há dias, e também com La Fille Inconue, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne.
ASSISTA AO TRAILER
 
 Médica em conflito
A ética, mais uma vez, ocupa o centro de La Fille Inconue, a nova história dos irmãos Dardenne, conduzida por uma médica, Jenny Danvin (a atriz francesa Adèle Haenel). O incidente desencadeador da trama é aparentemente banal e poderia ter acontecido em qualquer lugar. É noite quando toca a campainha do consultório de Jenny. Ela e seu assistente, Julien (Olivier Bonnaud), ainda estão ali dentro. Ele quer abrir, ela o impede. Passou da hora. No dia seguinte, eles descobrem que uma garota, jovem imigrante africana, apareceu morta ali perto.
 
Pode ter sido um acidente ou um assassinato. Mas Jenny, que é uma médica dedicada, passa a ser atormentada pela culpa. Sabe que, se tivesse aberto a porta, poderia ter salvo a vida dessa moça, cujo nome os policiais não conseguem descobrir. É uma das muitas imigrantes ilegais que se escondem nos submundos das cidades europeias (aqui, Liège), exploradas em atividades como a prostituição.
 
 Obcecada por descobrir o nome dessa moça, cuja imagem foi gravada pela câmera de segurança do consultório, Jenny passa a investigar seus passos. Anda com a foto do rosto dela no próprio celular, mostrando a clientes, conhecidos. Nessa jornada, seu caminho se cruza com o de outras pessoas (interpretadas por dois atores-fetiche dos Dardenne, Olivier Gourmet e Jérémie Rénier), que também têm seu próprio quinhão de responsabilidade na trajetória da garota anônima, cuja história pode ser completamente apagada se não se encontrar ao menos um indício do que se passou em seus momentos finais. Como sempre, os Dardenne estão afinados com o momento político da Europa, sem afastar-se de sua permanente ligação com o que faz a essência da condição humana. Faz bem assistir a um filme assim.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança