CANNES 2016

A hora, a vez e a diferença das diretoras em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Depois da passagem entusiasmante da comédia dramática alemã Toni Erdmann, de Maren Ade – que se tornou rapidamente um favorito a prêmios -, duas outras diretoras na competição apresentaram suas credenciais, com distintos resultados, é bom que se diga.
A primeira foi a britânica Andrea Arnold, com seu primeiro filme norte-americano, American Honey. Ela descreve as aventuras de uma trupe de jovens vendedores de assinaturas de revistas (por incrível que pareça, uma história real) que se tornam uma espécie de comunidade ambulante, desenvolvendo laços internos, dentro de uma estrutura precária, num mundo terceirizado e de valores fluidos.
Diretora e roteirista premiada (com dois prêmios do júri em Cannes, por Red Road e Fish Tank), Andrea retrata com energia a volatilidade deste grupo, recheado por novos atores, mas também com Shia LaBeouf, como Jake, uma espécie de recrutador e gerente da moçada, e Will Patton, como um cliente ocasional.
 
 A posição proeminente de Jake também se deve aos serviços íntimos prestados à chefe da empresa, Krystal (Riley Keough). Uma novata recrutada por Jake, Star (Sasha Lane), acentua a instabilidade emocional do grupo pela visível atração sexual que rola entre ela e Jake.
Além da duração, que se sente excessiva (2h42), American Honey aposta demais na música, a ponto de parecer um recurso preguiçoso, entregando às canções, como a que dá nome ao filme, a tarefa de criar um clima e contar quem são todas estas pessoas que se vê amontoando a tela. Roteirista refinada, Andrea, desta vez, parece ter ficado devendo justamente num quesito em que é forte, talvez por estar atuando numa realidade que não domina tão bem.
Ali dentro do grupo, há um pouco de tudo, numa tentativa de captar a enorme diversidade do mundo de hoje – gays, lésbicas, depressivos, exibicionistas, pavios soltos, gente sem nenhum limite. Esses jovens são soltos no mundo, como se não houvesse amanhã, mas, ao contrário dos anos 1960, essa soltura de amarras não parece sinalizar liberdade. Eles estão ali na estrada, mas sem opções reais. Têm reuniões diárias de desempenho, sofrem cobranças vexatórias, quando não vendem nada e podem ser expulsos a qualquer momento. Respeito? Garantias trabalhistas ? Nada disso. Eles parecem a versão moderna dos bóias-frias, dos trabalhadores da borracha que terminavam o mês devendo tudo ao patrão.
Um outro ponto interessante, que o filme começa, mas não leva adiante, é a visita dos jovens às casas dessa grande classe média branca do interior da América, que entrega os contrastes absurdos da supostamente mais rica nação do mundo. Mas isso também, como o resto, fica solto dentro da narrativa. Se acerta na temática, a diretora erra no tom e no ritmo.
 
 Novelão francês
Bem pior andou outra diretora, a francesa Nicole Garcia, que entregou um patético novelão em sua produção, Mal de Pierres. Nicole adapta um romance italiano, Mal di pietre, de Milena Agus, para contar a história de Gabrielle (Marion Cotillard). Jovem moradora de uma aldeia do sul da França, nos anos 1940, ela é sujeita a problemas nervosos e dores sem diagnóstico. Por pressão da família, casa-se num arranjo de conveniência com um trabalhador espanhol, José (Alex Brendemühl), a quem seus pais ajudam a montar um negócio de construção.
José prospera, mas este é um casamento sem amor e quase nenhum sexo. A oportunidade para Gabrielle descobrir a paixão está no episódio de sua internação numa clínica suíça, onde vai se tratar das dores que, afinal, refletiam problemas renais. Ali conhece um tenente, André (Louis Garrel), ferido na guerra da Indochina, e finalmente seus sentimentos desabrocham.
 
 Com uma batida de novelão, completamente previsível e uma música insistente, Mal de pierres peca especialmente por não aproveitar nenhuma oportunidade de instilar maior tensão num triângulo com esse potencial (a figura do marido, sobretudo, poderia ser mais bem desenvolvida). E Marion Cottillard precisa urgentemente de uma renovação de papeis. Não dá mais para ela insistir nestes dramalhões em que ela só tem que fazer uma cara triste. Ela é melhor do que isso e precisa mostrar. Louis Garrel, por sua vez, parece estar procurando papeis mais adultos, o que é saudável. Só que dessa vez, não deu certo. O tom é pomposo demais, típico de uma produção para a TV francesa (Canal +), produzido por ela e pegando carona na competição para se promover. Patriotada, de novo.
 
 Vampiros urbanos
Na seção Un Certain Regard, a atração foi o norte-americano The Transfiguration, do estreante Michael O’Shea – um homem de 43 anos que anteriormente foi motorista de táxi e reparador de computadores, entre outras coisas. No ambiente desolado do Queens nova-iorquino, um adolescente, Milo (Eric Ruffin), vive sozinho com o irmão mais velho, o ex-soldado Lewis (Aaron Moten). Negros e pobres, eles vivem num edifício mal-conservado, em que convivem com os bandidinhos do pedaço e a desolação da paisagem, literal e figurada. São os EUA atuais, despojados dos sonhos de ascensão e grandeza.
 
 Milo vai à escola – onde tem conversas com um psicólogo – e escreve em cadernos quase o tempo todo. Adora filmes de vampiro, cujos VHS ele coleciona e assiste sem parar. Ele também se crê um vampiro. Ataca pessoas com uma pequena lâmina e bebe seu sangue. Mas também o vemos vomitar esse sangue. E Milo se alimenta de outras coisas e é capaz de caminhar à luz do dia, contrariando a mitologia do vampiro.
A narrativa alimenta essa dualidade em torno de Milo, também a partir de sua convivência com uma nova vizinha, Sophie (Chloe Levine) – que é tão solitária e disfuncional quanto ele. O diretor O’Shea manda bem na condução deste relato sutil e melancólico, jogando com a ambiguidade da situação de maneira atraente. E não se furtando, claro, de ironizar a inevitável franquia Crepúsculo.

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