CANNES 2016

Dramas de época e comédia alemã entusiasmam Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – Duas vezes consagrado em Cannes – Grande Prêmio do Júri por Oldboy (2003) e Prêmio do Júri por Sede de Sangue (2009), o sul-coreano Park Chan-Wook entrou com força visual e narrativa novamente na corrida pela Palma de Ouro, com o requintado e muito sensual drama de época Mademoiselle (The Handmaiden, ou Agassi, no original). 
 Curiosamente, o ponto de partida é um romance inglês, Fingersmith, de Sarah Waters, ambientado na Inglaterra vitoriana. Co-autor do roteiro, Chan-wook transporta a história para a Coreia dos anos 1930, dominada pelos japoneses, recriando um intoxicante jogo de perversões e mentiras em torno de uma rica mansão.
Ali vive uma rica jovem órfã, Hideko (Kim Min-hee), uma virtual prisioneira de um tio (Cho Jin-woong). Obcecado por relatos eróticos, ele mantém uma imensa biblioteca no tema e treina Hideko, desde menina, na leitura destas histórias, às quais nunca falta um tempero de perversão, para privilegiados ouvintes, participantes de um fechado clube aristocrático de senhores maduros.
Ali chega a camareira Sookee (Kim Tae-ri), uma ladra e vigarista com cara de anjo, para colocar em prática uma tramoia, que visa à sedução da rica Hideko por um falso conde (Ha Jung-woo). Consumada a fuga e o casamento de Hideko com o rapaz, Sooke deve receber dinheiro e ficar com as roupas e jóias da vítima.
Dividido em três partes, ao longo de enérgicas 2h25, o filme sobrepõe pontos de vista, deixando claro que ninguém falou a verdade desde o começo. Com essa gradativa revelação de planos, crescem o suspense e o erotismo, em cenas requintadamente filmadas, especialmente entre as duas garotas. O habitual gosto do diretor por violência e cenas de sangue é reservado para uma pequena parte final, em que o humor negro se infiltra poderosamente. Em todas as partes, transparece o alto quilate da produção técnica (a fotografia, figurinos, iluminação e montagem são primorosos) e a mão firme do diretor de 52 anos.
 
 Alemães na Romênia
Sob um acento contemporâneo, outro concorrente à Palma, a produção alemã Toni Erdmann, da diretora Maren Ade, também vibrou com uma personagem feminina forte e uma discussão bastante séria sobre o desenraizado modelo capitalista de nossos dias.
Neste que é o terceiro longa da diretora (o segundo, Todos os Outros, ganhou dois prêmios em Berlim 2009, Grande Prêmio do Júri e melhor atriz), o núcleo está igualmente numa difícil relação entre pai, Winfried (Peter Simonischek), e filha, Ines (Sandra Hüller). Os dois vivem distantes, até fisicamente. Ela mora em Bucareste, onde se tornou uma executiva durona, especializada em operações de enxugamento de custos, pessoal, empresas, outsourcing.
Ela mora sozinha, não tem realmente amigos, somente relações profissionais. Suas companhias mais frequentes são duas outras mulheres, como ela, estrangeiras. Ines é o próprio símbolo do capitalismo sem raízes, que viaja de país a país, seguindo conveniências alheias aos moradores de cada local, que devem, assim como seus governos, lidar com a terra arrasada e o desemprego que sobram após a passagem dessas multinacionais, como aquela em que trabalha Ines.
 Só que o pai dela, Winfried, está decidido a encarnar tudo o que ela suprimiu em sua vida, ou seja, o afeto, a diversão, a contradição. Ele a visita de surpresa em Bucareste e torna-se um fator de irritação a cada passo que ela dá – como seus encontros profissionais e mesmo pessoais.
No habilidoso roteiro, também da diretora, criam-se situações surpreendentes a cada passo desta dupla em conflito – especialmente a partir de um certo ponto em que o pai decide assumir um alter ego meio palhaço, Toni Erdmann, fazendo um contraponto ao comportamento frio da filha com sua peruca ridícula, dentes falsos e observações inesperadas.
Há situações absolutamente impagáveis – a festa de aniversário nudista é o melhor exemplo -, que permitem à diretora explorar alguns caminhos do absurdo mundo contemporâneo com uma ironia ferina, à qual não falta algum calor por baixo do rigor germânico.
 O perseguidor de Neruda
Poeta maior, o chileno Pablo Neruda tem inspirado diversos filmes (vem logo à mente o doce O Carteiro e o Poeta). Recentemente, um episódio real de sua vida, sua fuga do Chile, no final dos anos 1940, quando foi perseguido por motivos políticos, foi objeto de um filme um tanto careta, Neruda – Fugitivo (2014), de Manuel Basoalto.
 Evidentemente, tratando com imensa liberdade e nenhum compromisso documental do mesmo episódio, o talentoso e premiado diretor chileno Pablo Larraín (de No e Tony Manero) foi muitíssimo mais longe, criando um filme com alta temperatura literária e também dimensionando com mais complexidade as nuances contraditórias da personalidade do famoso poeta em seu Neruda, que foi atração concorridíssima ontem (13) na Quinzena dos Realizadores.
Partindo de um roteiro de Guillermo Calderón (roteirista do O Clube), desenvolve-se a fascinante jornada de Neruda (Luis Gnecco), um ativo senador comunista no Chile de 1948, cujo partido é traído, depois de apoiar a eleição de Rafael Videla (o esplêndido Alfredo Castro, ator habitual nos filmes do diretor). O partido é posto na ilegalidade, Neruda perde o cargo e é alvo de um mandado de prisão, colocando-se em fuga com sua mulher, Delia del Carril (Mercedes Morán).
 A parte mais fascinante do roteiro é a invenção de um personagem, o policial Oscar Peluchonneau (Gael García Bernal), encarregado da perseguição ao poeta e também obcecado por ele. São de Oscar as instigantes observações de uma onipresente narração, deflagrando um jogo que instaura um clima semimágico no coração do filme.
Neruda, por sua vez, aparece mais nítido, de carne e osso, tanto no confronto com seus protetores quanto diante de sua mulher, assim como em suas repetidas visitas a bordeis. Nada se escamoteia na definição de seu retrato, que não se torna menor por isso, já que a força de sua poesia, maior do que a vida e do que ele mesmo, não é subtraída.
Explorando numa obra já consistente os mitos e pesadelos chilenos (há uma pequena nota em Neruda lembrando o início de Augusto Pinochet como carrasco), Larraín acerta de novo.

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