Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Dia de apostas em trabalhos de novos diretores

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

 A terça-feira traz bons documentários, como Soldados do Araguaia e Callado e também trabalhos promissores de diretores estreantes, como a comédia dramática japonesa Oh Lucy! Confira:
 
Soldados do Araguaia
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O novo documentário assinado por Belisário Franca (Menino 23) denuncia tema forte e pouco divulgado – a situação de algumas dezenas de ex-soldados, jovens recrutados pelo exército nos anos 1970, para combater a guerrilha do Araguaia (1972-1975) e eles mesmos submetidos a treinamentos abusivos, torturas e intimidações.
Todos eram jovens moradores da região ao sul do Pará onde cerca de 70 guerrilheiros se instalaram. Foram recrutados à força, levados para a selva, porque o exército na época entendeu que seu conhecimento do território poderia ser-lhes útil. Mas, como eles revelam hoje, nada lhes foi dito sobre a verdadeira natureza de sua missão. Pessoas simples, na maioria na época sem escolaridade – apenas dois tinham o ginasial -, foram tratados com dureza e submetidos a tratamento cruel – alguns contam ter sido obrigados a beber sangue de animais e amarrados nus, cobertos de açúcar e deixados expostos às picadas de insetos, apesar de seus gritos de dor. Tudo para lhes induzir medo e obrigá-los a obedecer sem protestos.
 
 Nenhum deles tinha ideia do que viria a seguir. Estes soldados sustentam ter sido obrigados a limpar locais de tortura aos guerrilheiros capturados – especialmente na chamada “Casa Azul”, residência dos oficiais, cujas paredes, segundo contam, não raro eram cobertas de sangue. Alguns contam ter sido encarregados de deslocar sacos contendo cabeças ou mãos cortadas destes prisioneiros. Eram encarregados de vigiá-los, não raro presenciando as torturas, sem nada poder fazer para impedi-las. Vários contam saber do chamado “voo para Brasília”, ou seja, quando os prisioneiros eram embarcados em helicópteros e dali lançados à cachoeira de Xambioá.
Anos depois destes episódios, eles ainda sofrem com traumas psicológicos e tiveram negados seus direitos no exército, por terem sido, na época, obrigados a assinar papeis de baixa cujo conteúdo não compreenderam – como uma tentativa de apagamento daquilo que se passou no Araguaia naqueles dias, até hoje à espera de esclarecimento. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 24/10/17 - 19:15
CINEARTE 2                              26/10/17 - 17:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   30/10/17 - 13:30
 
 Callado
Jornalista e escritor de primeira linha, o niteroiense Antônio Callado (1917-1997) pautou sua vida e sua obra por uma marca de talento e coerência. Autor de ficções densas sobre a realidade brasileira, como QuarupBar Don Juan e Reflexos do Baile, além de obras jornalísticas como O Esqueleto da Lagoa Verde  e Vietnã do Norte, ele foi um intérprete raro dos sonhos e vícios do país, além de um observador arguto de realidades além da nossa, tudo isso através de um texto burilado pela precisão e a beleza do estilo.
Ouvindo amigos como Carlos Heitor Cony, sua filha, Tessy Callado, a viúva, Ana Arruda Callado, o crítico literário Davi Arrugucci e vários outros, somando-se a um material de arquivo que inclui diversas entrevistas do próprio personagem, o filme de Emília Silveira não só resgata uma porção significativa de sua vida como delineia a importância de sua passagem – e a absoluta ressonância de sua obra hoje, lembrada numa roda de escritores, muitos deles jovens, que rediscutem passagens de seus livros fundamentais, como Quarup. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   24/10/17 – 22:00
CINE CAIXA BELAS ARTES SALA 3          25/10/17 - 15:30
RESERVA CULTURAL - SALA 2               01/11/17 - 14:00
 
Oh Lucy!
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Instigante estreia de uma nova diretora japonesa, Atsuko Hirayanagi, esta comédia dramática tem pique e surpreende em algumas de suas reviravoltas, girando em torno de Setsuko (Shinobo Terajima). Mulher de meia-idade, ela sente sua vida um tédio, até que decide, a conselho da sobrinha, Mika (Shioli Kutsuna), inscrever-se num curso de inglês.
Criando uma curiosa piada em torno dos choques culturais, o inusitado curso exige que Setsuko adote, nas aulas, um nome americano – Lucy – e use uma peruca loira, para mergulhar melhor nessa nova realidade em que ela pretende penetrar pela língua. Mas o curso é interrompido de repente quando o professor, John (Josh Hartnett), vai para os EUA, levando consigo Mika, que o namorava sem que a tia soubesse.
Aí começa um road movie na Califórnia, em que Setsuko, levando consigo a irmã (Kaho Minami), mãe de Mika, com quem não falava há tempos – tudo porque Setsuko também se apaixonou pelo professor. As aventuras da trupe japonesa na América são desvairadas e surpreendentes – e o roteiro tem fôlego para segurar o interesse numa série de incidentes rocambolescos, até porque a protagonista é genial e não há como o coração do público deixar de torcer por ela, em sua mistura de ousadia e falta de noção que a tornam tão humana. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 1                              24/10/17 - 20:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   25/10/17 - 13:30
CINESESC                                26/10/17 - 17:20
CINE CAIXA BELAS ARTES SALA 3          27/10/17 - 15:50
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   29/10/17 - 15:20
 
 Daphne
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Daphne (Emily Beecham) tem 31 anos, pouco amor próprio, uma armadura emocional que usa para esconder seus problemas sentimentais, com a mãe (Geraldine James) e também com as antigas amigas de faculdade. É aspirante a chef num restaurante, e, no fundo, é incapaz de manter sua vida nos trilhos. O melhor de tudo, no filme de Peter Mackie Burns, é que a personagem-título não está nem aí para nada disso.
Daphne vive a vida que ela quer e como quer. Sexo, apenas com estranhos, sem qualquer laço afetivo que possa vir junto. O trabalho, ela pode largar a qualquer momento. A mãe vive dando CDs de músicas de meditação para ela, e ela odeia isso. Daphne lê Slavoj Žižek antes de dormir, mas também tem consciência de que ele não é lá grande coisa. Parece que lê para passar o tempo. A personagem poderia ser um grande mistério, mas o filme não a trata assim. Burns, mais do que investiga-la, a coloca sob uma lupa: a observa, a acompanha e, assim, compartilhamos seu cotidiano, com erros e acertos.
O filme flerta com o realismo social típico do cinema britânico, mas personagem é classe média o suficiente para tirar o longa dessa classificação. O diretor também não está interessado na poesia que pode vir da miséria emocional e afetiva da personagem. A vida dela tem um momento de mudança quando presencia um assalto numa loja de conveniências, e o balconista (Amra Mallassi) é esfaqueado.
Transformações profundas podem estar ocorrendo no âmago de Daphne, mas na superfície é como se uma pedrinha atingisse um lago e criasse apenas ondinhas. Ainda assim, ondinhas já são alguma coisa. E ela se questiona de atitudes e ações. Não que a personagem passe por uma grande modificação, e venha alguma catarse transformadora. O filme, escrito por Nico Mensinga, não trata disso.
Daphne talvez seja um estudo de personagem presa na bifurcação entre a essência e a aparência. Há um hora em que ela constata que as pessoas não a veem como ela mesma se vê. A interpretação de Emily Beecham (que, em alguns momentos, lembra a jovem Natassja Kinski) é delicada e profunda na sua percepção dos dilemas, dores e amores de sua personagem compreendendo o sofrimento e delícias de Daphne ser exatamente como é. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 -24/10/17 - 15:15
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP - 25/10/17 - 20:00

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