Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Homenagem de Varda ao cinema e documentários são atrações na segunda

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

 A segunda-feira apresenta como algumas das principais atrações uma rara e divertida homenagem da diretora Agnès Varda ao centenário do cinema, As cento e uma noites, os documentários A Hollywood de Hitler e Construindo Pontes, a ficção chilena A Ilha dos Pinguins, sobre o movimento secundarista de 2006 no Chile e o docudrama brasileiro Gabriel e a Montanha, premiado em Cannes.
 
As cento e uma noites
Nesta deliciosa comédia autoral de 1995, a diretora Agnès Varda faz uma homenagem ao centenário do cinema com a liberdade e a sofisticação de uma realizadora que sabe garimpar cenas, músicas e referências deliciosas, onde é agradável o espectador se entregar e se perder.
Muito ágil e vertiginosa, a história não dá tempo de se recuperar – mal se absorve uma fala, lá vem outra e mais outra, num carrossel alegre e anárquico. Os guias nesta viagem são Simon Cinema (Michel Piccoli), o próprio centenário, misturando suas memórias, seu amigo italiano (Marcello Mastroianni), se comprazendo em fazer piada de sua imagem de amante latino, e Camille (Julie Gayet), jovem cinéfila que é contratada por Simon para fazer-lhe as vezes de uma Xerazade-musa, visitando-o diariamente para ordenar suas lembranças confusas.
No castelo onde mora o sr. Cinema, tudo pode acontecer e qualquer um pode chegar a qualquer momento – sejam suas ex-esposas (Jeanne Moreau e Hannah Schygulla), um mágico curandeiro (Jean-Paul Belmondo) e sua esposa (Gina Lollobrigida), Gérard Depardieu para conversar sobre as muitas maneiras de morrer no cinema, Alain Delon desembarcando de um helicóptero, Romane Bohringer vestida de fada roxa, simbolizando a morte que ronda, Robert De Niro e Catherine Deneuve confinados a uma barco num lago mínimo.
Sem descuidar da ironia às futilidades do cinemão, não faltam uma visita ao tapete vermelho de Cannes – onde se veem Catherine Deneuve, Clint Eastwood, Isabelle Adjani e Jean-Hugues Anglade – e a Hollywood, embora a trupe do sr. Cinema não deixe de ir nesta viagem a bordo do francesíssimo Concorde. É um caleidoscópio que não acumula meramente cenas e músicas de filmes, como lhes dá um novo sentido sem perder de vista a mística original. É uma declaração de amor ao cinema, por certo, mas sem deixar de incorporar a irreverência mesmo na homenagem. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 23/10/17 - 14:00
CINEMATECA - SALA BNDES                 29/10/17 - 21:00
 
Zama
Nove anos depois de seu A mulher sem cabeça, até hoje inédito em circuito comercial no Brasil, a argentina Lucrecia Martel finalmente conseguiu completar sua adaptação do romance modernista Zama, de seu conterrâneo Antonio Di Benedetto. Os minutos iniciais do filme são, estranhamente, uma verdadeira ode à globalização com os créditos que trazem empresas e nomes de diversas partes do planeta, passando por Pedro Almodóvar, Danny Glover, Gael García Bernal e a brasileira Vânia Catani.
 
Desde sua primeira exibição mundial no Festival de Veneza, em agosto passado,  Zama dividiu opiniões. Aqueles que esperam algo mais próximo do cinema que caracteriza a obra de Lucrecia até aqui – que também inclui O Pântano e A Menina Santa – deverão se decepcionar. É seu primeiro longa a não trazer uma personagem feminina forte – em cena, além de algumas índias, apenas uma aristocrata interpretada pela catalã Lola Dueñas e uma escrava muda e manca (a brasileira Mariana Nunes).
 
Don Diego de Zama é interpretado pelo espanhol Daniel Giménez Cacho. Ele é um oficial da coroa espanhola, estacionado na América do Sul, à espera de uma promoção que nunca vem. A cada ano que passa, sua sanidade é consumida e seus atos vão tornando-se ensandecidos.
 
No que diz respeito à narrativa, Zama faz as obras elípticas da diretora parecerem convencionais. A trama, se é que se pode chamar assim, é propositalmente caótica e lacunar. Anos e anos se passam, personagens entram e saem sem deixar uma impressão mais forte. Nada disso é gratuito. Mas tudo isso já está no romance original. Em sua primeira adaptação literária – até então os roteiros de seus longas eram ideias originais suas –, Lucrecia parece sentir o peso da importância de Di Benedetto em seus ombros. O filme não traz muito de novo em relação à obra original, a diretora parece apenas ilustrar com imagens aquilo que já está nas páginas do livro. Faltou-lhe se apropriar do romance, tomá-lo para si, jogá-lo fora e fazer o seu filme. Algo como, digamos, Francis Ford Coppola fez com o seu Apocalypse Now, originado de O coração das trevas, do polonês Joseph Conrad.
 
A menção a esse romance sobre a colonização belga no Congo não é gratuita aqui. Zama, de La Martel, toma muito emprestado desta obra em sua construção de uma atmosfera de distopia e enlouquecimento. A certa altura, tal qual o narrador de Conrad e o protagonista de Coppola que saem em busca da mítica figura de Kurtz, Zama procura um personagem cuja captura poderá ser catalisadora de seu sucesso. Ou não.
 
É louvável que a diretora leve seu filme junto com o personagem na descida do abismo da insanidade. Seu longa é insano tal qual o protagonista. A fotografia do português Ruy Poças (Tabu) contrasta um modo de vida europeu sufocante nos trópicos com a liberdade da natureza e dos nativos que se expandem pela região. Zama cresce exatamente na sua reta final quando o protagonista já não tem mais um pingo de juízo, abandona a colônia e se junta a um bando de renegados – entre eles, o personagem de Matheus Nachtergaele. É quando a diretora parece finalmente se apossar dos personagens, das tramas. Mas aí é tarde, e o filme já está dando seus últimos suspiros. (Alysson Oliveira)
 
CINEARTE 1 - 23/10/17 - 18:20
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 31/10/17 - 13:30
 
Gabriel e a Montanha
Diretor revelado pelo pujante longa Casa Grande (2014), Fellipe Barbosa voltou-se para o docudrama neste perfil revelador de um amigo de infância, Gabriel Buchmann, premiado na Semana da Crítica do Festival de Cannes. O filme foca-se em sua aventura por diversos países da África, ao longo de um ano, realizando uma imersão na realidade local, vivendo entre pessoas simples, não se comportando como um turista tradicional. João Pedro Zappa interpreta o protagonista interagindo com uma série de pessoas reais que passaram pela vida de Gabriel, no Quênia, Tanzânia, Zâmbia e Malawi – onde ele morreu, depois de uma perigosa escalada ao monte Mulanje, em 2009.  
O fato de se saber o destino do personagem, longe de tirar a graça de assistir ao filme, adiciona mais urgência de conhecer sua história, porque é indiscutível que a interpretação de Zappa consegue trazer de volta à vida esta que deve ter sido uma pessoa muito especial. Caroline Abras interpreta Cristina, a namorada de Gabriel, que percorreu com ele uma parte de suas muitas estradas. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   23/10/17 - 21:15
INSTITUTO MOREIRA SALLES - PAULISTA     24/10/17 - 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   29/10/17 - 13:30
 
Construindo Pontes
O documentário que marca a estreia na direção da premiada diretora de fotografia Heloísa Passosretrata um encontro que, de muitas maneiras, se transforma num embate, entre Heloísa e seu pai, o engenheiro Álvaro Passos. A narrativa vale-se de materiais de arquivo e conversas entre estes dois personagens, permitindo identificar as profundas diferenças pessoais e políticas que, ao longo da vida, os apartaram.
Evidentemente, o próprio ato de realizar o filme é uma opção pelo afeto e a busca do entendimento, a procura do outro – ainda que isso não signifique render-se ao que este outro diz e pensa. Em mais de um momento, soam mais alto as asperezas de uma profunda divergência política entre os dois, referentes ao modo de encarar a ditadura civil-militar de 1964 (tempo em que Álvaro acreditava haver “um projeto de País”) e também a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.
É uma filha de 50 anos que encara este homem, um melífluo manipulador, cuja voz suave e aparente calma não encobrem o jogo de poder que na verdade se trava entre um pai e uma filha, entre duas gerações diferentes, entre um homem e uma mulher que toda a vida discordaram, mas estão profundamente empenhados no bom termo de um projeto, o próprio filme.
De muitas maneiras, portanto, esse conflito espelha o de um Brasil em que portadores de posições contrárias não conseguem dialogar. Por isso, Construindo Pontes ganha uma oportunidade, um momento, exemplares, na medida em que problematiza esta cisão, contribuindo para uma reflexão até do verdadeiro sentido do que é democracia. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   23/10/17 - 17:30
CINEARTE 2                              30/10/17 - 14:00
 
Uma verdade mais inconveniente
Não há dúvidas de que Uma verdade mais inconveniente seja um filme necessário e que toca em questões urgentes e importantes. Mas também fica bem claro que é um documentário que gasta boa parte de seus 98 minutos dizendo: “Eu bem que avisei”. É como se o ex-presidente dos EUA e idealizador do filme Al Gore passasse o tempo todo lembrando que ele já falou dos problemas do aquecimento global no oscarizado Uma verdade inconveniente (2006), e pouca gente deu bola. Agora, o mundo sofre as consequências.
Dirigido por Bonni Cohen e Jon Shenk, o filme começa com cenas de telejornais da época do documentário anterior zombando de Gore. Seguem, então, catástrofes naturais ligadas ao clima que aconteceram nos dez anos que separam os dois longas. Gore, mais do que político, é um showman e eco-empreendedor. Suas palestras já formaram centenas de pessoas ao redor do mundo, todas com o objetivo de espalhar sua palavra sobre o Aquecimento Global.
Dado o estado das coisas – especialmente depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, retirou o país do Acordo de Paris, que visava conter as alterações climáticas –, o filme é extremante relevante, pois é repleto de argumentos e exemplos que o justificam. Ao mesmo tempo, exibe a ingenuidade de Gore em sua cruzada para salvar o planeta.
O ex-presidente, que também assina o roteiro, emerge como o grande paladino, pois depois de alguns poucos telefonemas, consegue que uma empresa norte-americana – a quem ele chamará de “herói corporativo” – forneça uma forma de energia alternativa à Índia, que surge como um dos grandes vilões do aquecimento, ao lado de Trump - esse, merecidamente, por motivos óbvios.
Gore, uma Cassandra iluminada sobre o apocalipse climático, não é ouvido ou compreendido. O que ele parece não perceber é que existem estruturas antigas e profundas na dinâmica de exploração global, e que os desastres naturais (causados pela humanidade) estão diretamente ligados a isso. Sua posição de vantagem, num país rico, é cômoda o suficiente para apontar dedos, gritar em prol das futuras gerações, preocupado apenas com o Aquecimento Global sem pensar neste fenômeno como consequência de algo maior.
O filme de Cohen e Shenk tem uma narrativa clara, explicitando quem é seu mocinho, seus vilões, encontrando um arco narrativo, um final emotivo e vários momentos sensacionalistas – tudo confortavelmente idealizado como uma apresentação de power point para Gore brilhar enquanto tenta salvar o mundo. (Alysson Oliveira)
 
CINEARTE 1 - 23/10/17 - 20:50
CINESESC - 24/10/17 - 20:30
PLAYARTE MARABÁ - SALA 1- 25/10/17 - 21:15
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 26/10/17 - 20:00
CINESALA -  27/10/17 - 18:00  
 
A ilha dos pinguins
Em seu segundo longa, o cineasta chileno Guille Söhrens ficcionaliza o movimento secundarista do Chile, em 2006 que, com a tomada de escolas, visava mudar as diretrizes da educação herdadas da ditadura Pinochet.
A história retrata o clima dentro das escolas, destacando personagens como Laura e Paredes, que tomam a frente da movimentação, enquanto outros, como Riquelme, um filho de militar e um tanto alienado politicamente, encontra seu papel, filmando tudo com uma câmera – o que constitui um documento das discussões internas, das divisões de tarefas, das contradições e das nascentes ambições políticas que passam a animar alguns.
O mais importante é que o filme consegue focalizar a dinâmica de um processo conduzido por adolescentes cuja importância cresceu ao longo do caminho, mesmo que eles não tivessem ainda maturidade suficiente para prever todas as consequências. Ao retratar o movimento, com suas incertezas, desgastes, temores (ainda mais depois das tentativas de invasão das escolas pela polícia), o filme capta esse sentimento vivo de uma época que foi extremamente inspiradora – e que teve repercussões em outros movimentos similares na América Latina, inclusive no Brasil. (Neusa Barbosa)
 
PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA              23/10/17 - 15:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 24/10/17 - 15:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   28/10/17 - 13:30
 
A Hollywood de Hitler
Neste documentário substancial, extremamente bem-pesquisado, o diretor Rüdiger Suchsland realiza uma radiografia do cinema alemão no período entre 1933 e 1945 – uma época em que a indústria local produziu mais de 1000 filmes, em sua grande maioria comédias e melodramas, e compondo seu próprio “star system”.
A influência de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, era direta em roteiros e castings, num cinema caracterizado pela celebração ao auto-sacrifício e ao culto à morte, com encenações grandiosas e grandiloquentes – e a ausência quase completa de filmes de fantasia ou horror.
O documentário apresenta diversos filmes e artistas pouco conhecidos, já que sua circulação era pouca fora da Alemanha nesse período, permitindo conhecer o funcionamento um dos aspectos da máquina de dominação de mentalidade e pensamento através da sétima arte. Nem por isso deixou de haver obras de qualidade ou mesmo diretores que conseguiram, até certo ponto, criar alguma diversidade dentro das poucas brechas permitidas. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 23/10/17
CINEARTE 1                              24/10/17 - 14:00
CINESALA                                27/10/17 - 20:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   30/10/17 - 17:20
CINESESC                                01/11/17 - 15:00

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