Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Fim de semana com apostas em premiados e inéditos

Equipe Cineweb

 O primeiro final de semana da Mostra tem novidades como o inédito Bikini Moon, do premiado diretor macedônio Milcho Manchevski (Antes da Chuva) – que tem sua première mundial aqui – e também o romeno Ana, meu amor, de Calin Peter Netzer, que teve sua montagem premiada em Berlim. Entre as apostas, o húngaro 1945, o candidato da Islândia ao Oscar de filme estrangeiro, A sombra da árvore,  e o documentário brasileiro Aqualoucos.  
Ana, meu amor
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Diretor que venceu o Urso de Ouro pelo filme Instinto Materno (2013), o romeno Calin Peter Netzer debruça-se sobre outra trama complexa tendo uma mulher ao centro – desta vez, a jovem estudante de literatura Ana (Diana Cavallioti). Com um rosto expressivo, que lembra a jovem Julie Christie, só que de cabelos pretos, a atriz domina boa parte do filme, que é uma espécie de Cenas de um Casamento à romena. Ela é filtrada, porém, pela visão de Toma (Mircea Postelnicu), seu namorado, depois marido, por cuja vida ela passa como um turbilhão, desde a faculdade, onde se conhecem e nasce sua paixão.
As respectivas famílias dos dois entram em foco, ambas disfuncionais e marcando de traumas e neuroses o jovem casal, à volta com crises depressivas de Ana, dificuldades profissionais e financeiras, desejos, lutas, frustrações.
A câmera gira nervosa em torno destes dois seres instáveis, alternando-se o tempo da história em fragmentos de várias épocas, registrando o esforço de Toma de compreender aquilo que se passou com ele – recorrendo, em algum momento, à confissão com um religioso ortodoxo, em outra, com um psicanalista.
Como no cinema romeno em geral, o foco em relações familiares deixa filtrar muitos aspectos de uma sociedade latina bastante diferente da nossa, em história e influências, mas onde se pode detetar, igualmente, vários pontos de contato. De muitas formas, é um filme intrigante, inquietante, cuja clareza de narrativa escapa a cada momento que se pensa ter apreendido todo o sentido. O que é resultado, também, da montagem caleidoscópica de Dana Bunescu, premiada como Melhor Contribuição Artística no mais recente Festival de Berlim (Neusa Barbosa)
CINESESC – 22/10/2017 – 21:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 – 29/10/2017 – 17:50
PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA – 31/10/2017 – 19:30 
 
 1945
Em 1945, o húngaro Ferenc Török cria uma espécie de fábula sombria sobre o imediato pós-guerra no seu país, investigando o legado moral e ético em uma pequena aldeia. É 12 de agosto do ano-título e toda uma comunidade se prepara para um casamento, mas a chegada de dois judeus ortodoxos causa desconfiança e ameaça o clima festivo. Eles se tornam catalisadores da assustadora necessidade daqueles moradores de revisitar o passado recente – não apenas local, mas do país, de toda a Europa.
Arpad (Bence Tasnádi) está prestes a se casar com a bela camponesa Kisrózsi (Dóra Sztarenki). Ela, por sua vez, está fazendo mais um negócio do que uma união amorosa. Há pouco tempo, abandonou outro noivo, Jancsi (Tamás Szabó Kimmel), para investir num casamento que lhe traria ascensão social, mas nem por isso esqueceu a antiga paixão. Uma tensão está no ar e coloca a cerimônia em xeque.
Os dois homens, um pai, Hermann Sámuel (Iván Angelus), e seu filho (Marcell Nagy), carregam duas caixas. Ninguém sabem quem são eles e todos ficam curiosos para saber o que trazem. Seriam amigos ou parentes dos judeus que moravam naquele vilarejo? Ou, então, vieram para expulsar as pessoas das casas e propriedades que ocuparam indevidamente quando os judeus foram levados? Os moradores entram em pânico, porque fantasmas do passado ainda os assombram.
O futuro também lhes trará mais fantasmas com os quais lidar – mas disso, é claro, ainda não sabem. O filme capta um momento de transição quando estão no local tanto as tropas nazistas residuais e soldados soviéticos libertando a cidade. O comunismo, porém, ainda está longe de chegar. Os moradores tentam retomar suas vidas.
A ordem, apesar da apreensão com a presença dos dois forasteiros, é continuar com os preparativos para o casamento. Cada personagem reage de uma forma à chegada da dupla. O bêbado local (Jozsef Szarvas), tomado por um grande sentimento de culpa, quer entregar tudo de volta. Sua mulher (Agi Szirtes), no entanto, prefere esconder as coisas – só por garantia. Não quer abrir mão dos tapetes e pratarias. “Diga que os alemães levaram, se alguém perguntar”, avisa.
O roteiro, assinado pelo diretor Török e o escritor húngaro Gábor T. Szántó, a partir de um conto deste, está mais interessado na construção de um narrador coletivo do que em especificar cada uma das figuras em seus dramas e psicologias, e, desta forma, cria mais tipos do que personagens propriamente ditos. Mas isso pouco importa, porque o filme está interessado em dinâmicas sociais, e a narrativa se constrói como um coral em que cada pequena trama contribui para um painel maior.
A esmerada fotografia em preto e branco – assinada pelo veterano Elemér Ragályi (A Ilha dos milharais, exibido na Mostra de 2014) – acrescenta um estranhamento à dimensão temporal do filme. Se por um lado a trama parece perdida no tempo (e até no espaço), o título deixa bem claro em que momento se localiza a narrativa – e é aí que mora a fratura essencial da história. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 21/10/17 - 18:00
CINESESC - 28/10/17 - 22:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 31/10/17 - 21:45 - Sessão: 1251
 
 A oeste do rio Jordão
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O cineasta israelense Amos Gitai volta a um tema que lhe é caro e percorre toda a sua obra – a (im) possibilidade de uma paz permanente entre judeus e palestinos no Oriente Médio.
Assim, intercala trechos de uma entrevista realizada em 1994 com o então primeiro- ministro Ytzhak Rabin (1922-1995) – que havia assinado, em 1993, um tratado de paz com o líder palestino Yasser Arafat (1929-2004)–, além de conversas francas com diversas entidades, autoridades, jornalistas e pessoas comuns dos dois lados, em busca de uma radiografia do impasse atual – depois do assassinato de Rabin, por um fanático judeu, e da política do governo israelense atual de aumentar os assentamentos nos territórios ocupados, entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.
Algumas das entrevistas mais interessantes vêm de entidades comprometidas com a denúncia da violência do Exército israelense, como a organização Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio), formada por ex-soldados desse próprio exército; a ONG B’tselem, que treina mulheres comuns, muitas donas-de-casa palestinas, para que filmem essas agressões (o que tem um papel decisivo em reduzi-las); a Parents’ Circle (Círculo de Pais), uma organização de pais dos dois lados que perderam seus filhos para esta guerra interminável. Mas, sem dúvida, os depoimentos mais contundentes vêm de cidadãos comuns israelenses, que Gitai vai ouvir e também questiona, atravessando o vergonhoso muro que hoje separa os dois povos e que faz com que a maioria das crianças palestinas hoje jamais tenha visto um israelense que não seja um soldado. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   21/10/17 - 22:10
CINEARTE 1                              23/10/17
CINESESC                                28/10/17
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 30/10/17 - 15:50 
 

A sombra da árvore
Candidato da Islândia para uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, A sombra da árvore começa com a promessa de um clima de estranhamento e humor negro, mas, do meio para o final, o diretor Hafsteinn Gunnar Sigurðsson muda radicalmente a condução da história e precipita um desfecho que foge completamente da escolha anterior, com resultado final muito próximo do esquizofrênico.
Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson) é expulso de casa pela mulher, Agnes (Lára Jóhanna Jónsdóttir), que o flagrou assistindo a um vídeo que comprova sua traição com outra mulher.  Atli é impedido de ver a filha e vai morar com os pais. Inconformado, força um encontro com a menina, na escola onde ela estuda, o que só contribui para que Agnes se enfureça mais ainda.
O pai de Atli tenta exercer o papel de conciliador, mas ele próprio vive outro drama em casa, com a mulher que não consegue superar a morte do outro filho, e trava uma disputa feroz com um casal de vizinhos por causa de uma árvore que faz sombra no outro quintal.
O bom senso, que poderia ser o caminho para que as duas situações extremas se resolvessem de forma civilizada, nunca prevalece e a tensão cresce à medida em que o filme avança e quase todos começam a perder o equilíbrio. (Luiz Vita)
RESERVA CULTURAL  - SALA 2 - 21/10/17 - 17:45
PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA - 22/10/17 - 21:30 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 27/10/17 - 17:00  

 Lutando através da noite
É claro que logo de cara, Lutando através da noite assusta com suas quase 5 horas de duração, mas o diretor canadense Sylvain L’Espérance justifica a existência de cada um dos 285 minutos do seu documentário. Filmado durante dois anos, o longa capta um momento de crise e transição na Grécia.
Dividido em três partes, sua dinâmica transita entre o pessoal e o momento histórico. L’Espérance entrevista gregos e também refugiados que não paravam de chegar ao país. Escolhe alguns deles e acompanha seus dramas, e o que os levou até a Grécia. Entrecortando com isso, o filme retrata manifestantes lutando contra a política de austeridade imposta ao país.
Sem narração em off, o diretor dá voz exatamente àqueles que melhor podem falar sobre o assunto: as pessoas afetadas, que, de outra forma, não seriam ouvidas. As falas são longas, dando-lhes a oportunidade de construir suas narrativas pessoais. 
Um dos estrevistados, possivelmente o mais forte dentro do filme, conta que em seu país (que ele diz não poder nomear) era um professor, e, agora, está ciente de que sua vida jamais poderá ser como antes. Os movimentos sociais gregos, por sua vez, são vistos em ação, em protestos, manifestações e embates com a polícia.
Um dos slogans usado em um protesto, realizado pelas faxineiras do Ministério da Economia contra cortes, é: “A história é uma questão de desobediência”. E é diante dos embates e resistência que o povo grego, conforme mostra o filme, lutou (e ainda luta) por melhores condições de vida. Mostra-se também as eleições em que Aléxis Tsípras foi eleito primeiro-ministro, em janeiro de 2015, mas não se chega à sua renúncia, em agosto do mesmo ano, embora um dos últimos depoimentos, de uma militante, deixa claro que esse caminho era inevitável.
Ainda assim, L’Espérance, fazendo justiça ao seu sobrenome, termina seu documentário com uma nota positiva, com a saudação a refugiados em busca de uma vida melhor – mesmo que esta seja num país atravessando uma severa crise econômico-política. (Alysson Oliveira)
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP - 22/10/17 - 16:30 ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 - 01/11/17 - 15:20
 
 Aqualoucos
O documentário, segundo longa do diretor Victor Ribeiro, resgata a crônica de uma série de esportistas aventureiros – pode-se até considerar bem malucos – que, entre as décadas de 1950 e 1980, formaram trupes que pulavam em piscinas de São Paulo de grandes alturas.
Suas performances foram se sofisticando ao longo dos anos, recorrendo ao uso de escadas, tochas, andaimes e até ao salto de um helicóptero, aumentando o risco das exibições, que combinavam comédia, números de circo e todo tipo de estrepolias que estes atletas do risco conseguiam imaginar.
Dessas maluquices, muitos colecionaram fraturas, queimaduras, luxações e muitas histórias que, finalmente, eles contam neste filme, uma memória afetuosa da cidade de São Paulo que conta com diversas imagens de arquivo, ao lado dos depoimentos dos sobreviventes desta trupe cômico-esportiva. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   21/10/17 - 19:20
CINEARTE 2                              22/10/17 - 15:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6   30/10/17 - 17:10
 
 Bikini Moon
Diretor premiado com o Leão de Ouro em Veneza 1994 com o drama Antes da Chuva, o macedônio Milcho Manchevski explora a ambiguidade dos dispositivos e recursos do próprio cinema neste filme que acompanha uma carismática sem-teto, que se autonomeia como Bikini (Condola Rashad). O título tem sua première mundial nesta Mostra.
Dona de um discurso envolvente, ela fascina um documentarista, Trevor (Will Janowitz) e sua namorada, Kate (Sarah Goldberg), que a convencem a tornar-se personagem de um filme. Não é simples ter alguma certeza sobre a moça, que diz ser uma ex-veterana do Iraque e ter uma filha pequena, que foi tirada dela. É evidente, no entanto, que ela tem traumas profundos de tudo o que viveu antes e, por isso, deve tomar medicação – o que nem sempre acontece.
Roteirizado pelo próprio Manchevski e por W. P. Rosenthal, o filme acompanha um caótico carrossel de emoções, envolvendo Bikini, o casal e outras pessoas que gravitam em torno deles – sejam membros da equipe do filme dentro do filme, sejam pessoas físicas ou instituições a quem se recorre para ajudar Bikini a ter uma moradia e procurar sua filha.
O coração deste filme inquieto, sem dúvida, é esta protagonista instável, que a história abraça e tenta compreender, sem abrir mão da sinceridade de mostrar suas contradições e inúmeras arestas. De todo modo, é um show da atriz Condola Rashad, que se expõe com uma coragem e sinceridade indiscutíveis. (Neusa Barbosa)
CINESESC - 21/10/17 - 21:45 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  22/10/17 - 20:45 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - Frei Caneca 1 - 23/10/17 - 19:10
CINEARTE 1 - 30/10/17 - 14:00 
 
 Satã disse dance
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O filme polonês talvez seja melhor compreendido se lido como um Christiane F. do século XXI. Escrito e dirigido por  Katarzyna Roslaniec, traz em si alguns elementos do cult alemão dos anos de 1980, agora filtrados pelas sensibilidades do presente. Usando um formato de tela quadrado (1:1) bastante peculiar – não é 3:4 como dos antigos televisores, nem o retângulo horizontal mais comum, como a tela do cinema –, o longa se alinha, nesse quesito, às molduras de redes sociais como Instagram.
A protagonista é Karolina (Magdalena Berus), uma jovem que escreveu um romance juvenil de relativo sucesso sobre as mazelas da juventude de seu país. O longa abre com um aviso, dizendo que o que se verá são fragmentos da vida de uma personagem, que poderiam ser contados em qualquer ordem. Nesse sentido, o esforço do montador Stefan Stabenow está em orquestrar o caos.

O caos imaginado por Katarzyna não é lá muito original, mas diz muito sobre a juventude da Polônia do presente. Vemos Karolina com sua família – um tanto estranha – com seu amante (Tygo Gernandt), um fotógrafo que faz fotos ousadas dela, e um outro amante mais velho (Lukasz Simlat), com quem tem uma relação bem intensa, que beira o doentio. Depois a vemos com a irmã (Lieke Scholman), com quem tem uma relação de amor e ódio pautada por uma constante rivalidade.
O maior problema de Satã disse dance é exatamente esse: contenta-se em apenas mostrar, sem nunca ir a fundo em sua personagem. O resultado fica aquém da proposta, que não deixa de ter potencial como raio-X da Geração Z da Polônia pós-soviética. Talvez esse monte de rótulos tenha ficado na frente da câmera e atrapalhado olhar da diretora, assim, Katarzyna não conseguiu um distanciamento mais crítico. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 4 – 22/10/17 – 20:00
CIRCUITO SPCINE LIMA BARRETO - CCSP - 28/10/17 - 16:00
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO - CCSP - 31/10/17 - 15:00
CINESALA - 01/11/17 - 15:45

 


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