Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Dia de dramas existenciais e um passeio pela realidade do Senegal

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

 O segundo dia da Mostra reúne premiados em Berlim, como o senegalês Felicité, o uruguaio El Pampero, o premiado drama brasileiro Arábia, grande vencedor do último Festival de Brasília, e uma aposta canadense, o drama Tadoussac. Confira: 
 
Félicité
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Há um coração que pulsa do início ao fim no filme senegalês Félicité, e esse coração, dono de um vozeirão, atende pelo nome de Véro Tshanda Beya Mputu, cantora e atriz congolesa estreante que interpreta a personagem-título. Logo na primeira cena fica claro: o filme é dela. Cantando num pequeno barzinho em Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, sua performance enche a tela, em algo que parece mais um documentário sobre a música do país.
 Mas logo vem à tona a realidade difícil da personagem, com problemas financeiros e morando numa região miserável. Do mesmo modo que Véro se joga na música, a personagem Félicité se joga na vida para conseguir dinheiro para cuidar do filho adolescente, Samo (Gaetan Claudia), que sofreu um acidente grave de moto e está hospitalizado. A jornada dessa mãe adquire tons universais sem que se percam de vista as dificuldades de uma mulher no Congo do presente.
O pai do garoto, com quem mal tem contato, acaba esnobando-a: “ Você não queria ser uma mulher forte?!”. E, em busca de ajuda, ela chega a recorrer a um mafioso local, num encontro que não é dos melhores. Félicité acha consolo apenas em um vizinho e mecânico que é apaixonado por ela, Tabu (Papi Mpaki).
Escrito e dirigido pelo franco-senegalês Alaim Gomis, e ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim deste ano, Félicité coloca sua protagonista na mesma tradição de grandes matriarcas do cinema, como, por exemplo, a personagem de Anna Magnani, em Mama Roma, de Pier Paolo Pasolini. Transitando entre o drama do filho doente e a paixão da personagem pela música (o que inclui algumas apresentações), o longa compõe um estudo vívido de uma personagem forte.
Não há soluções fáceis – e, em alguns casos, nem soluções há – na vida de Félicité, assim como na de diversos seus conhecidos. O filme não romantiza as dificuldades, não faz delas uma oportunidade para personagens se tornarem pessoas melhores. Eles precisam enfrentar e seguir em frente, independentemente do resultado do embate.
A câmera, assinada pela francesa Céline Bozon, também é capaz de transitar entre o pessoal, com closes do rosto expressivo de Véro, e discretos planos mais abertos que dão conta da condição socioeconômica da cidade. E, dessa forma, é capaz de captar um colorido vibrante de um lugar em meio ao caos, cores e sons. (Alysson Oliveira)
 
CINESESC - 20/10/17 - 16:40
PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 21/10/17 - 16:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 25/10/17 - 15:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 29/10/17 - 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 30/10/17 - 19:15
 
 El Pampero
Assista ao trailer
Fernando (Julio Chávez) sofre de uma doença terminal que o obriga a consumir remédios quase constantemente. Resolveu, por conta disso, abandonar a vida na cidade – o que inclui o contato com um filho adulto – e morar num barco. Não muito depois, leva um susto ao encontrar em seu barco uma mulher. Ela é Carla (Pilar Gamboa), e está toda suja de sangue.
Logo ela trata de explicar que o sangue não é seu, e que ela está sendo procurada por um crime que não cometeu, numa outra embarcação, onde houve uma festa. Ela quer que ele a leve até a fronteira com o Uruguai, onde poderá se esconder. Se, num primeiro momento, Fernando resiste, depois começa a jornada desses dois personagens nesse filme contido em seu estilo e diálogos, dirigido por Matías Lucchesi.
A relação de Fernando com Pilar pode ser o último vinculo emocional que construirá em sua vida – ele está cada vez mais debilitado. Mas os dois não passarão muito tempo juntos, é preciso chegar logo à fronteira. Alguns percalços, no entanto, os atrapalham, como um policial (César Troncoso) que vigia a costa do rio, que vez por outra insiste em aparecer no barco do protagonista.
Lucchesi, que assina o roteiro com Gonzalo Salaya, tira o máximo das situações por meio de um realismo contido, compondo um filme de silêncios que reverberam tanto quanto diálogos. (Alysson Oliveira)
 
CINESESC - 20/10/17 - 15:00
CINESALA - 22/10/17 - 19:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 24/10/17 - 19:20
PLAYARTE MARABÁ - SALA 3 - 26/10/17 - 14:15
 
 Arábia
Grande vencedor do mais recente Festival de Brasília – com os prêmios de melhor filme, montagem, ator (o magnético Aristides de Sousa), trilha sonora e também melhor longa para o júri da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema), este segundo longa de Affonso Uchoa (A vizinhança do tigre), em parceria com João Dumans (roteirista de A cidade onde envelheço), focaliza, mais uma vez na obra deste primeiro diretor, a realidade operária do interior mineiro.
Seu protagonista é Cristiano (Aristides de Sousa), um trabalhador de vida nômade, pulando de trabalho em trabalho em diversas localidades de Minas Gerais, incapaz de conseguir estabilidade, fixar raízes, exercer plenamente sua existência como ser humano.
A intimidade de Cristiano é desvendada através de uma terceira pessoa, o menino André, que encontra, na casa do operário vitimado por um acidente, um caderno recheado de anotações, um verdadeiro diário que dá conta de cerca de 10 anos de sua vida.
A escrita emotiva do diário, que percorre o filme numa voz em off, sustenta uma exploração de raiz neorrealista deste cotidiano de trabalhadores como Cristiano, errando de lugar em lugar, esgueirando-se de acidentes como um que o levou à prisão, a solidariedade de amigos seus iguais e também um encontro amoroso com Ana, colega de fábrica.
No subtexto destas confissões singelas, projeta-se um mal-estar existencial profundo, de alguém que, sem ser intelectual, enxerga claramente as contradições da própria precariedade econômica e da opressão de trabalhos exaustivos, exasperantes. É nessa apresentação que o filme sustenta um humanismo densamente impregnado de um pensar político, que se torna ainda mais urgente diante da iminência da entrada em vigor de uma ainda mais precarizadora reforma trabalhista – detalhe que foi mencionado explicitamente pelos diretores na apresentação do filme, no Cine Brasília. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   20/10/17 - 21:00
RESERVA CULTURAL - SALA 2               21/10/17 - 15:50
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6   26/10/17 - 17:40
 
 Tadoussac
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Este delicado longa canadense, do diretor Martin Laroche, acompanha o drama de uma jovem, Chloé (Camille Mongeau). Ela foge de Montreal, onde mora, deixando para trás namorado e amigos, indo de carona até uma pequena cidade turística do Quebec, Tadoussac. Não está claro do que ela está fugindo, nem o que está procurando ali e esse é um ponto forte do filme, que leva o espectador a descobrir aos poucos a jornada existencial da protagonista, de 18 anos.
Em Tadoussac, um lugar coberto de neve, ela diz chamar-se Fanny e encontra logo um emprego num hostel, em troca de moradia. Mas fica claro que está em busca de alguém e de algo bem específico, relativo à sua história familiar.
Enquanto isso, ela faz amizade com Myriam (Isabelle Blais), uma mulher mais velha e extrovertida, que funciona como uma espécie de guia do lugar. Paralelamente, Chloé/Fanny sofre de um sangramento, mas parece não querer tratar do problema. A chegada de uma amiga, Laurie (Juliette Gosselin), permite que se descubra um pouco mais dessa jornada – que não tem, na verdade, nenhum segredo excepcional, mas encontra sua força na forma como este drama familiar é estruturado. (Neusa Barbosa)
 
CINESALA    - 20/10/17 - 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   - 21/10/17 - 17:30
CINE CAIXA BELAS ARTES SALA 3 - 28/10/17 - 19:50

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