Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Filmes destacam figuras de mulheres e títulos da Grécia e Coreia do Sul

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

 No primeiro dia da programação oficial, nesta quinta (19), a programação reserva filmes com personagens femininas fortes, caso do suspense dramático Três anúncios para um crime, com Frances McDormand, e Scary Mother, dirigido pela estreante georgiana Ana Urushadze. Mas há também novidades da Colômbia, Grécia e Coreia do Sul. Confira: 
 
Três anúncios para um crime
O diretor e roteirista inglês Martin McDonagh apresentou suas ótimas credenciais em 2008, quando seu longa de estreia, Na Mira do Chefe, deslumbrou o circuito internacional de festivais e conquistou um Bafta de melhor roteiro original, um Globo de Ouro para o ator Colin Farrell e uma indicação ao Oscar de roteiro original. Originalidade, ritmo e humor negro são ingredientes certos no trabalho de McDonagh, que mais uma vez aqui trabalha com um roteiro original, em seu primeiro filme norte-americano (em coprodução com a Inglaterra).
Não é só pela presença (luminosa) da atriz Frances McDormand à frente do elenco a história tem um certo tempero à la irmãos Coen. O drama é forte: Mildred Hayes (Frances) é uma mãe inconformada pelo estupro e assassinato da filha que, quase um ano depois do crime, ainda não-esclarecido, decide pressionar a polícia local de Ebbing, uma pequena cidade do Missouri. Na mesma estrada, hoje quase deserta, onde a moça foi morta – o caminho que leva à casa da família -, Mildred manda colocar três imensos outdoors vermelhos, chamando às falas o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson).
Compondo o drama sem economizar força em nenhum detalhe, McDonagh oferece um tremendo palco para Frances brilhar como esta mãe revoltada, capaz de tudo para lutar a seu modo pelo esclarecimento do crime. O filme é um primor na composição do ambiente da cidadezinha, temperada pelo racismo, a violência policial, a ignorância e o preconceito. Mas isto não impede o lugar de ser habitado por personagens impagáveis, interpretados por Sam Rockwell, Caleb Landry Jones, Peter Dinklage e Lucas Hedges. Humor é garantido nas frestas deste conto sombrio, humanizando uma história que marca quem a assiste. Não à toa, este filme também vem colecionando prêmios, como melhor roteiro em Veneza, além do troféu do público em Toronto e San Sebastián. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   19/10/17 - 21:30
CINESESC                                20/10/17 - 22:30
RESERVA CULTURAL - SALA 2               26/10/17 - 19:30 
 
Scary Mother
O filme georgiano, roteirizado e dirigido pela estreante Ana Urushadze, leva às últimas consequências a famosa frase de Virginia Woolf, escrita em 1929: “Uma mulher tem que ter dinheiro e um quarto todo seu se quiser escrever ficção”. Quase um século depois, Manana (Nato Murvanidze) luta pelas duas coisas para que possa tornar-se uma romancista num país ainda lidando com as consequências do regime soviético.
 
Ganhador dos prêmios de melhor filme no festival de Sarajevo, e de filme de diretor estreante em Locarno o longa combina drama social, manifesto de gênero e suspense psicológico. Ao mesmo tempo, a diretora estreante revela um apuro estético, assim como um controle absoluto de uma narrativa que, em mãos menos talentosas, facilmente cairia na pieguice, mas não há uma nota falsa aqui. Seu domínio fílmico lembra o cinema romeno, mas filtrado por uma nova sensibilidade.
 
Manana vive com sua família num conjunto habitacional cinzento e pós-soviético onde não tem o seu próprio quarto para escrever. E dinheiro, ela também não tem. Assim, vive sob a sombra do marido, Anri (Dimitri Tatishvili), que não apoia muito o seu projeto de tornar-se escritora. O apoio vem do dono de papelaria do outro lado da rua, Nukri (Ramaz Ioseliani), para quem o romance semipornográfico da protagonista é uma grande obra que quebrará tabus.
 
Enquanto isso, o pai de Manana, um tradutor, está vertendo a obra para o inglês, sem saber quem a escreveu. Impressionado com a obscenidade e engenhosidade do texto, ele o elogia para a filha, não imaginando que ela é a responsável. O marido dela, no entanto, não compartilha do mesmo entusiasmo quando ela lê em voz alta alguns trechos para a família: “Você escreve pornografia barata fingindo que é um gênio”.
 
Se, por um lado, Scary mother começa como quase uma fábula feminista, a diretora embrenha-se por outros caminhos, flerta com a fantasia (a protagonista começa a identificar-se com uma figura mítica filipina, Manananggal, que é uma vampira devoradora de homens), e mergulha na fratura sociocultural que engole sua protagonista, tentando superar um rígido sistema de papeis sociais. É no lado fantástico que a protagonista encontra o seu dinheiro e o seu quarto. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 19/10/17 - 17:15
PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA - 21/10/17 - 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 24/10/17 - 17:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 27/10/17 - 19:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 - 29/10/17 - 17:10
 
O motorista de táxi
O drama sul-coreano, de Jang Hun, traz à frente do elenco um dos mais conhecidos atores do país, Song Kang-ho, visto em Mr. Vingança e O Expresso do Amanhã. Neste filme, baseado em fatos reais, recriados num tom de alto melodrama, ele é Kim, um motorista de táxi viúvo, que cria sozinho uma filha de 11 anos e experimenta sérias dificuldades financeiras em 1980.
É um momento de grande instabilidade no país, depois da morte de um ditador, num regime de exceção que já dura 18 anos. Por conta disso, protestos estudantis se multiplicam, pedindo mais democracia. O centro nervoso destes protestos é a cidade de Gwangju, no interior, que foi isolada do resto do país por tropas que vigiam suas estradas de acesso, enquanto reprimem violentamente a população.
Chega à Coreia do Sul um jornalista alemão, Peter (Thomas Kretschmann), decidido a romper o bloqueio e verificar in loco os acontecimentos em Gwangju. De olho na bolada que o repórter vai pagar pela viagem, o motorista Kim entra na jogada, sem saber exatamente os riscos da jornada.
Reconstituindo com contundência a violenta repressão ao movimento de Gwangju, o filme dá seu recado libertário ao mesmo tempo que se permite infiltrar um certo humor, eventualmente rocambolesco, nas interações entre Kim e Peter – que só trocam algumas palavras no inglês precário do taxista – e diversos personagens que eles encontram pelo caminho e serão decisivos para que sua empreitada chegue ao fim. (Neusa Barbosa)
 
PLAYARTE MARABÁ - SALA 1                19/10/17 - 20:00
CINEARTE 1                              21/10/17 - 17:50
CINE CAIXA BELAS ARTES SALA 3          29/10/17 - 17:30
RESERVA CULTURAL - SALA 2               30/10/17 - 21:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 31/10/17 - 14:00
 
4 dias
 
Num verão escaldante, há não muito tempo atrás, quando a Grécia passava por uma convulsão socioeconômica, uma garota (Claire Grammatiki) tirava fotos para matar o tédio. Ela também trabalha num café e lá conhece um homem (Stergios Tzaferis), que se apaixona por ela e pede para o acompanhar ao hospital, onde passará por um procedimento.
 
Não muito depois disso, também conhece um rapaz (Yiannis Papadopoulos), mais ou menos de sua idade, que também se interessa por ela. E o filme escrito e dirigido por Michalis Giagkounidis acompanha quatro dias na vida desse trio de personagens.
 
Distanciando-se da intensidade dramática que caracteriza o cinema grego recente, Giagkounidis trabalha numa chave mais pessoal e intimista, mostrando de forma sutil os efeitos da crise na vida de seus personagens. Quando a protagonista, por exemplo, perde seu emprego – o patrão diz que só abrirá o café à tarde, porque não está dando dinheiro – seu mundo desmorona, mas o interesse pelas fotografias que tira de estranhos é o que parece mantê-la viva. (Alysson Oliveira)
 
CINESESC - 19/10/17 - 15:00
PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA - 22/10/17 - 19:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 - 26/10/17 - 19:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 = 29/10/17 - 14:00  
 
Jericó, o voo dos dias
Ganhador do principal prêmio, no gênero documentário, no Festival de Cinema Latino de Toulouse, o segundo longa da colombiana Catalina Messa tem essência e força femininas. O cenário é a pequena Jericó, no sudoeste da Colômbia, que ficou famosa em 2013 com a canonização da madre Laura Montoya Upegui, nascida lá em 1974, e é um dos atrativos turísticos da cidade que se intitula “um lugar espiritual”.
 
Em seu documentário, a diretora transita entre essa espiritualidade e religiosidade e elementos mais mundanos da região por meio de depoimentos de diversas moradoras que falam sobre sua visão do mundo. Estão lá desde a dona de uma lojinha de souvenires que coleciona terços, até uma centenária que diz estar se preparando para a morte e uma outra mulher que jamais superou a perda de seu filho sequestrado por guerrilheiros.
 
São duas dezenas de figuras femininas representativas da região, cujos depoimentos, geralmente em suas casas, formam um amplo painel não apenas sobre o lugar, mas também sobre a condição feminina na América Latina. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 19/10/17 - 19:15
CINE CAIXA BELAS ARTES SALA 3 - 20/10/17 - 17:50
PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 - 22/10/17 - 12:30

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