Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Laurent Cantet e o cinema de apelo social em “A Trama”

Alysson Oliveira

CantetEm 2008, com Entre os muros da escola, o francês fez história no Festival de Cannes, ao conquistar a Palma de Ouro para o seu país, que não ganhava o prêmio desde 1987, com Sob o Sol de Satã, de Maurice Piallat. Com seu novo A Trama, que será exibido no encerramento da Mostra, o cineasta retoma o mesmo terreno social de seu trabalho mais famoso.
Um grupo de adolescentes, das mais diversas origens, participa de uma oficina de escrita criativa ministrada por uma escritora famosa, Olivia (Marina Foïs), em La Ciotat, no sul da França. Antes conhecido pelo seu estaleiro, agora o local não traz muitas oportunidades de trabalho para jovens e adultos. O filme, escrito por Cantet e Robin Campillo, porém, toma caminhos inesperados. Ao falar do desemprego e da espiral de sufocamento social atinge temas políticos mais complexos, como a ascensão da extrema direita na França.
 “No filme tento observar dois mundos. Aquele refinado da escritora parisiense e o dos jovens sem perspectivas de futuro. Coloco-os frente a frente, e são dois mundos que não conseguem se comunicar. É preciso o enfrentamento. Acredito que a forma eficaz de se conviver atualmente é pela comunicação e o enfrentamento pacífico”, disse em entrevista ao Cineweb, em São Paulo.
Cantet, para quem o cinema com tom social não é novidade, acredita que esse seja seu filme mais feliz. “Os personagens tentam se encontrar, compreender seu lugar no mundo, compreender ao próximo. Não é fácil, mas tento trazer uma nota de esperança em meio ao caos do presente”.
 Para ele, se não houver um trabalho de reflexão, proposto por exemplo pelo cinema, a vida no Ocidente estará fadada ao fracasso. A Trama se une ao time de filmes da Mostra que lidam com temas sociais correntes na Europa, como a questão dos refugiados e a ascensão da extrema direita – como Lutando através da noite e Essa é a nossa terra. “A dificuldade de vivermos juntos é uma questão importante no presente. É preciso aceitar o modo de vida do outro.”
Cantet trabalha nesse filme há algumas décadas, mas, apenas três anos atrás, começou a escrever o roteiro. Ele conta que faz um texto com diálogos muito precisos e detalhados, mas durante os ensaios dá oportunidade para que o elenco os transforme. “É preciso que interpretem da maneira deles, que encontrem suas próprias palavras, suas próprias energias, e assim se crie a interação.” No filme, o diretor trabalha com elenco experiente, como Marina Föis, e jovens iniciantes – destacando-se Matthieu Lucci, que interpreta um rapaz especialmente problemático. “No set trato todos da mesma forma, faço as mesmas exigências, até para que haja uma unidade nas interpretações”.
A seleção do elenco foi um processo longo e envolveu três cidades diferentes. “Era necessário encontrar jovens não apenas talentosos, mas que também fossem capazes de manter uma interação uns com os outro. Se tivesse algum erro ali, o filme não existiria.” Com eles, foi capaz de ampliar o olhar sobre a juventude contemporânea, quando busca compreender questões como a sedução dos mais jovens pelos extremos e a falta de referência que eles têm para se encontrar no mundo.
O filme estreou na França há três semanas, onde recebeu críticas bem positivas e levantou diversos debates. “Fiz questão de participar de várias sessões, e em todas surgiram questões pertinentes sobre o estado do mundo.” No Brasil, o filme está previsto para estrear no próximo dia 16.
 
CINEARTE 1 - 01/11/17 - 20:00
 
Outros destaques na programação de encerramento da Mostra:
 
 Pororoca
Pororoca não é um filme sobre o fenômeno natural que acontece especialmente na região do Amazonas. O longa romeno, escrito e dirigido por Constantin Popescu, traz, no entanto, uma torrente de emoções fortes e sentimentos conflitantes a partir do desaparecimento de uma criança.
Tudor (Bogdan Dumitrache, premiado no Festival de San Sebastian por esse trabalho) e Cristina (Iulia Lumânare) são um casal de classe média numa metrópole romena que tem dois filhos, Ilie (Stefan Raus) e Maria (Adela Marghidan). Um domingo no parque, a menina desaparece, quando está sob os cuidados do pai. É algo inexplicável, ninguém viu nada, ninguém sabe de nada.
A partir daí, a vida da família desmorona em poucas horas. Sentimentos de culpa emergem, a separação é inevitável, e Tudor passa a se consumir pelo seu descuido. A polícia até é esforçada, mas não tem elementos com que trabalhar, por mais que o pai da menina aponte para suspeitos a partir de sua investigação própria.
Tudor continua a frequentar o parque onde a menina desapareceu, e a cada visita ele parece mais destruído. Sua obsessão o cega, e fotos do dia do desaparecimento o levam a conclusões que podem ser precipitadas.
Popescu constrói um filme com planos longos. O do desaparecimento no parque, por exemplo, chega a ser agonizante pois está ali na tela a iminência de uma tragédia, mas custa até que ela aconteça. Mas esse não é o único. Seu clímax é forte e surpreendente podendo ferir algumas sensibilidades até. O diretor cria, num mesmo plano, diversas linhas de tensão que se convergem a uma explosão – especialmente de sentimentos.
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 01/11/17 - 19:15
 
The Square
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2017, o drama do diretor sueco Ruben Östlund (Força Maior) é um primor de composição, ritmo e acuidade na exposição de alguns dos mais dramáticos temas contemporâneos.
Seu protagonista é Christian (Claes Bang), um poderoso curador de um grande museu cuja vida gravita num ambiente privilegiado. Christian tem poder e gosta de usá-lo neste universo controlado, governado por tendências abstratas e grandes patrocinadores. A partir de um incidente comum, este controle começa a rachar. O curador é assaltado, de maneira engenhosa, na rua. Rastreando a localização de seu celular num prédio, ele segue um plano mirabolante de um jovem subordinado, Michael (Christopher Laesse), para recuperar os itens roubados, inclusive sua carteira e abotoaduras.
Esta sua incursão fora do figurino do bom senso e do politicamente correto que o envolvem serve para que a história comece a expor as rachaduras de um mundo insensível e comprometido apenas com sua própria lógica excludente – e não serão por acaso os diversos encontros do curador com mendigos pelas ruas elegantes de Estocolmo.
O título – The Square (O quadrado) – refere-se a uma obra, cujo conceito guiará a nova exposição pretendida pelo museu, para a qual se planeja uma campanha midiática capaz de viralizar na internet. A confluência dos efeitos desta campanha com a atitude de Christian para recuperar seus objetos sustenta um roteiro hábil em extrair as contradições de alguns dos setores mais influentes do mundo moderno, como os colecionadores de arte e os ricos patrocinadores dos museus. Melhor ainda é que a história encontra, cada vez mais, o humano por trás destas grandes aparências e de rituais engomados.
No elenco, Elisabeth Moss como uma jornalista que entra na vida de Christian. (Neusa Barbosa) 
CINESESC -  01/11/17 - 19:10 
 
 Cadeiras Brancas
Mat (Matthew Joils) e Emily (Emily Hurley) são dois jovens de Christchurch, Nova Zelândia, que divagam sobre seu isolamento social e perda de perspectivas, nesta produção do cineasta iraniano Reza Dormishian (de Eu Não Estou Com Raiva e Lanturi). Usando um encadeamento linear de fotos com vozes em off, em vez de uma filmagem padrão, o diretor e roteirista faz um filme experimental bastante sensível a partir de ficção, mas não muito longe do real. 
A vida de seus personagens entraram em pausa, traumatizados pelos terremotos de 2011 em Canterbury, que deixaram 186 mortos na Chistchurch e metade da cidade em ruínas. Cinco anos depois, Mat, que perdeu os pais, e Emily, que perdeu a mãe (e o pai, obrigado a migrar para França), acabam se conhecendo no memorial às vítimas, as 186 cadeiras brancas, nas quais sentam-se para sentirem-se próximos aos seus familiares perdidos.
Mesmo com um início de relacionamento, ambos são incapazes de se comunicar com o outro. O espectador sabe apenas o que pensam, graças às falas em off. E nesse sentido, Dormishian amplia sua mensagem sobre conexão humana e, desta, com a natureza. Nesse sentido, chega até mesmo a incluir críticas a atentados terroristas, atacando o Estado Islâmico, ao mostrar o final trágico do pai de Emily em Paris.
Produto de uma bolsa de estudos da Universidade de Canterbury, que recebeu pelo prêmio Vincent Ward para diretores visionários, durante o Festival Internacional de Cinema de Xangai, quando projetou Eu Não Estou com Raiva, a produção faz sua estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. (Rodrigo Zavala
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -  1/11 - 13:30
 
 Satã disse dance
O filme polonês talvez seja melhor compreendido se lido como um Christiane F. do século XXI. Escrito e dirigido por  Katarzyna Roslaniec, traz em si alguns elementos do cult alemão dos anos de 1980, agora filtrados pelas sensibilidades do presente. Usando um formato de tela quadrado (1:1) bastante peculiar – não é 3:4 como dos antigos televisores, nem o retângulo horizontal mais comum, como a tela do cinema –, o longa se alinha, nesse quesito, às molduras de redes sociais como Instagram.
A protagonista é Karolina (Magdalena Berus), uma jovem que escreveu um romance juvenil de relativo sucesso sobre as mazelas da juventude de seu país. O longa abre com um aviso, dizendo que o que se verá são fragmentos da vida de uma personagem, que poderiam ser contados em qualquer ordem. Nesse sentido, o esforço do montador Stefan Stabenow está em orquestrar o caos.
O caos imaginado por Katarzyna não é lá muito original, mas diz muito sobre a juventude da Polônia do presente. Vemos Karolina com sua família – um tanto estranha – com seu amante (Tygo Gernandt), um fotógrafo que faz fotos ousadas dela, e um outro amante mais velho (Lukasz Simlat), com quem tem uma relação bem intensa, que beira o doentio. Depois a vemos com a irmã (Lieke Scholman), com quem tem uma relação de amor e ódio pautada por uma constante rivalidade. 
O maior problema de Satã disse dance é exatamente esse: contenta-se em apenas mostrar, sem nunca ir a fundo em sua personagem. O resultado fica aquém da proposta, que não deixa de ter potencial como raio-X da Geração Z da Polônia pós-soviética. Talvez esse monte de rótulos tenha ficado na frente da câmera e atrapalhado olhar da diretora, assim, Katarzyna não conseguiu um distanciamento mais crítico. (Alysson Oliveira)
CINESALA - 01/11/17 - 15:45
 Lutando através da noite
É claro que logo de cara, Lutando através da noite assusta com suas quase 5 horas de duração, mas o diretor canadense Sylvain L’Espérance justifica a existência de cada um dos 285 minutos do seu documentário. Filmado durante dois anos, o longa capta um momento de crise e transição na Grécia.
Dividido em três partes, sua dinâmica transita entre o pessoal e o momento histórico. L’Espérance entrevista gregos e também refugiados que não paravam de chegar ao país. Escolhe alguns deles e acompanha seus dramas, e o que os levou até a Grécia. Entrecortando com isso, o filme retrata manifestantes lutando contra a política de austeridade imposta ao país.
Sem narração em off, o diretor dá voz exatamente àqueles que melhor podem falar sobre o assunto: as pessoas afetadas, que, de outra forma, não seriam ouvidas. As falas são longas, dando-lhes a oportunidade de construir suas narrativas pessoais. 
Um dos estrevistados, possivelmente o mais forte dentro do filme, conta que em seu país (que ele diz não poder nomear) era um professor, e, agora, está ciente de que sua vida jamais poderá ser como antes. Os movimentos sociais gregos, por sua vez, são vistos em ação, em protestos, manifestações e embates com a polícia.
Um dos slogans usado em um protesto, realizado pelas faxineiras do Ministério da Economia contra cortes, é: “A história é uma questão de desobediência”. E é diante dos embates e resistência que o povo grego, conforme mostra o filme, lutou (e ainda luta) por melhores condições de vida. Mostra-se também as eleições em que Aléxis Tsípras foi eleito primeiro-ministro, em janeiro de 2015, mas não se chega à sua renúncia, em agosto do mesmo ano, embora um dos últimos depoimentos, de uma militante, deixa claro que esse caminho era inevitável.
Ainda assim, L’Espérance, fazendo justiça ao seu sobrenome, termina seu documentário com uma nota positiva, com a saudação a refugiados em busca de uma vida melhor – mesmo que esta seja num país atravessando uma severa crise econômico-política. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 - 1/11/17 - 15:20
A Hollywood de Hitler
Neste documentário substancial, extremamente bem-pesquisado, o diretor Rüdiger Suchsland realiza uma radiografia do cinema alemão no período entre 1933 e 1945 – uma época em que a indústria local produziu mais de 1000 filmes, em sua grande maioria comédias e melodramas, e compondo seu próprio “star system”.
A influência de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, era direta em roteiros e castings, num cinema caracterizado pela celebração ao auto-sacrifício e ao culto à morte, com encenações grandiosas e grandiloquentes – e a ausência quase completa de filmes de fantasia ou horror.
O documentário apresenta diversos filmes e artistas pouco conhecidos, já que sua circulação era pouca fora da Alemanha nesse período, permitindo conhecer o funcionamento um dos aspectos da máquina de dominação de mentalidade e pensamento através da sétima arte. Nem por isso deixou de haver obras de qualidade ou mesmo diretores que conseguiram, até certo ponto, criar alguma diversidade dentro das poucas brechas permitidas. (Neusa Barbosa)
CINESESC                                01/11/17 - 15:00
Callado
Jornalista e escritor de primeira linha, o niteroiense Antônio Callado (1917-1997) pautou sua vida e sua obra por uma marca de talento e coerência. Autor de ficções densas sobre a realidade brasileira, como QuarupBar Don Juan e Reflexos do Baile, além de obras jornalísticas como O Esqueleto da Lagoa Verde  e Vietnã do Norte, ele foi um intérprete raro dos sonhos e vícios do país, além de um observador arguto de realidades além da nossa, tudo isso através de um texto burilado pela precisão e a beleza do estilo.
Ouvindo amigos como Carlos Heitor Cony, sua filha, Tessy Callado, a viúva, Ana Arruda Callado, o crítico literário Davi Arrugucci e vários outros, somando-se a um material de arquivo que inclui diversas entrevistas do próprio personagem, o filme de Emília Silveira não só resgata uma porção significativa de sua vida como delineia a importância de sua passagem – e a absoluta ressonância de sua obra hoje, lembrada numa roda de escritores, muitos deles jovens, que rediscutem passagens de seus livros fundamentais, como Quarup. (Neusa Barbosa)
RESERVA CULTURAL - SALA 2               01/11/17 - 14:00
 Hippies soviéticos
O documentário da estônia Terje Toomistu resgata histórias de antigos hippies do outro lado da Cortina de Ferro. Crianças solidamente educadas para o comunismo, vários deles procuravam em fragmentos da cultura do Ocidente que penetravam o fechado bloco soviético – como alguns raros discos contrabandeados dos Beatles e Rolling Stones – inspiração para sua dissidência jovem.
Cultivando cabelos longos e um tipo possível de contra-cultura, chegavam a roubar fios de cabines telefônicas para poder trocar cordas de suas guitarras. Por sua atitude rebelde, muitos foram submetidos a prisão ou tratamentos forçados, por exemplo, com insulina, o que provocava choque cerebral e convulsões.
Décadas depois, os sobreviventes dessa onda compartilham memórias desses tempos. Alguns deles continuam rebeldes, agora protestando contra Vladimir Putin e o neo-fascismo. (Neusa Barbosa)
 ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1  -  01/11/17 - 17:30
 A telenovela errante
 No começo dos anos de 1990, quando o Chile estava saindo de uma ditadura militar que durou 17 anos, Raoul Ruiz (chileno radicado na França) rodou um filme chamado A telenovela errante, mas apenas agora, seis anos após sua morte, sua viúva, a diretora e montadora Valeria Sarmiento, conseguiu concluir o trabalho. E mesmo com esse intervalo entre as filmagens e a finalização, o longa é atual e preciso em seu retrato do país e da América Latina.
As cenas foram filmadas em 16 mm durante 6 dias numa oficina de interpretação. O que se vê na tela transita entre o cômico – especialmente aquele que advém do absurdo de um país em transição. Dividido em sete “dias”, cada um representa cenas de um capítulo qualquer de uma telenovela. Por isso, não há uma unidade narrativa ou mesmo estética, mas os temas certamente representam cada um dos segmentos.
Há, como é de se esperar numa telenovela clássica latina, exageros e excentricidades o que traz um humor, às vezes, involuntário. A primeira parte é a melhor de todas, com um homem e uma mulher comentando seu caso extraconjugal. O que começa num registo realista vai adquirindo tintas cada vez mais absurdas.
Os diálogos são propositadamente exagerados, mas as atuações primam pelo realismo, criando um estranhamento brechtiano que combina com a questão política encerrada nas entrelinhas do filme. Ruiz (e Valéria, na montagem) é capaz de tomar para si a linguagem tão peculiar da telenovela e transformá-la em algo seu num filme, ao mesmo tempo, engraçado e politicamente certeiro na investigação das mazelas deixadas por um regime ditatorial. (Alysson Oliveira)
RESERVA CULTURAL - SALA 2 - 01/11/17 - 15:50
Custódia
Premiado como diretor no Festival de Veneza deste ano, o estreante Xavier Legrand parte de um curta seu sobre abuso doméstico para expandir a trama com um casal divorciado disputando a custodia do filho menor de idade. O amor entre Miriam (Léa Drucker) e Denis (Denis Ménochet) acabou faz tempo, e esse é o menor dos problemas – o motivo das brigas entre eles é a guarda de Julien (Thomas Gioria).
O filme começa num tribunal no qual advogadas e pais discutem os termos do acordo sobre a custodia do menino – a filha mais velha (Mathilde Auneveux) já é maior de idade. E tudo se dá de maneira dura e fria, como as negociações de um contrato. O menino se tornou uma mercadoria pela qual se disputa a presença, seus sentimentos pouco são levados em conta.
Legrand, que também assina o roteiro, constrói a trama de maneira meticulosa e em seu tempo próprio. No começo não temos certeza nenhuma. São duas pessoas dando versões de uma mesma história. Miriam diz que Antoine é abusivo e já machucou os filhos; ele nega, e alega que ela diz isso apenas para manipular o tribunal. Logo veremos quem está com a razão.
Custódia é um filme duro, despido de sentimentalismo barato, num realismo social que faz par com os filmes dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, por exemplo. É muito seco e com uma câmera discreta que parece observar a desintegração dos laços de um grupo de pessoas. O personagem mais forte aqui é também a pessoa mais frágil dentro dessa dinâmica: o adolescente Julien, interpretado de forma impressionante por um estreante.
Mais do que um filme de denúncia ou de mensagem, Custódia é uma investigação sobre relações abusivas com elos que não conseguem ser facilmente rompidos. É nesse sentido que Legrand é capaz de expor a opressão da mulher com muita eficiência. Ele sabe que não há saídas fáceis – ou, o que é pior, às vezes não há saídas. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 -  01/11/17 - 15:30

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