Repescagem traz alguns destaques da Mostra

"Custódia", premiado em Veneza, aborda violência doméstica

Equipe Cineweb

 Acompanhe os destaques desta segunda-feira (30), na programação da Mostra:
Temporada de caça
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Depois de dirigir três curtas, a diretora argentina Natalia Garagiola faz sua estreia em longas com um drama maduro sobre o difícil relacionamento entre pai e filho, tendo como cenário o ambiente primitivo de uma Patagônia nem um pouco acolhedora, mais próxima de estimular uma catarse agressiva em personagens obrigados a conviver nesse ambiente inóspito e gelado.
 E Natalia se sai bem ao colocar sua câmara no ambiente masculino de um território de caça, no qual sobrevivência e busca de afeto parecem disputar um rarefeito espaço de convivência. O registro supernaturalista, com a câmara na mão, permite, segundo a diretora, que os detalhes para a compreensão do drama vivido pelo adolescente se imponham de forma gradual.
O protagonista é o jovem Nahuel (Lautaro Bettoni), que se envolve em uma briga violenta durante uma partida de rugby e acaba abandonando a escola e o padrasto, em Buenos Aires, para passar uma temporada com o pai, Ernesto (Germán Palacios) que trabalha em um parque onde é permitida, mas controlada, a caça de cervos. Ernesto é um homem rude, talhado pelo ambiente em que vive, e procura acolher o filho, que repele de forma agressiva qualquer forma de aproximação. No clima inóspito da Patagônia, as razões do ressentimento estão próximas de vir à tona, rompendo a incomunicabilidade de Nahuel .
Como observa a diretora, a luta e o abraço nesse ambiente exclusivamente masculino funcionam como uma dança, e é preciso entender esse movimento para se chegar ao fundo da dor de Nahuel, e indagar se poderá haver a reconciliação entre esses dois homens. Exibido no festival de Veneza de 2017, o drama argentino recebeu o prêmio de público. (Luiz Vita)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 30/10/2017 - 21:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 31/10/2017 - 15:50
 
 Custódia
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Premiado como diretor no Festival de Veneza deste ano, o estreante Xavier Legrand parte de um curta seu sobre abuso doméstico para expandir a trama com um casal divorciado disputando a custodia do filho menor de idade. O amor entre Miriam (Léa Drucker) e Denis (Denis Ménochet) acabou faz tempo, e esse é o menor dos problemas – o motivo das brigas entre eles é a guarda de Julien (Thomas Gioria).
O filme começa num tribunal no qual advogadas e pais discutem os termos do acordo sobre a custodia do menino – a filha mais velha (Mathilde Auneveux) já é maior de idade. E tudo se dá de maneira dura e fria, como as negociações de um contrato. O menino se tornou uma mercadoria pela qual se disputa a presença, seus sentimentos pouco são levados em conta.
Legrand, que também assina o roteiro, constrói a trama de maneira meticulosa e em seu tempo próprio. No começo não temos certeza nenhuma. São duas pessoas dando versões de uma mesma história. Miriam diz que Antoine é abusivo e já machucou os filhos; ele nega, e alega que ela diz isso apenas para manipular o tribunal. Logo veremos quem está com a razão.
Custódia é um filme duro, despido de sentimentalismo barato, num realismo social que faz par com os filmes dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, por exemplo. É muito seco e com uma câmera discreta que parece observar a desintegração dos laços de um grupo de pessoas. O personagem mais forte aqui é também a pessoa mais frágil dentro dessa dinâmica: o adolescente Julien, interpretado de forma impressionante por um estreante.
Mais do que um filme de denúncia ou de mensagem, Custódia é uma investigação sobre relações abusivas com elos que não conseguem ser facilmente rompidos. É nesse sentido que Legrand é capaz de expor a opressão da mulher com muita eficiência. Ele sabe que não há saídas fáceis – ou, o que é pior, às vezes não há saídas. (Alysson Oliveira)
 
CINESALA  - 30/10/17 - 17:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 -  01/11/17 - 15:30
 
O amante de um dia
Em O amante de um dia, Philippe Garrel, como não poderia deixar de ser, volta ao tema que lhe é caro: o amor com suas alegrias, dores e dificuldades de superação quando acaba. Por mais que seja o tema que ecoa em toda a obra do cineasta, inesperadamente, há um frescor aqui que há muito faltava aos seus filmes. Novamente em preto e branco, o filme acompanha os encontros e desencontros amorosos de duas jovens que se tornam amigas por força das circunstâncias.
Jeanne (Esther Garrel) é uma universitária que briga com o namorado e volta para a casa do pai, Gilles (Éric Caravaca), e a grande surpresa é encontrar Ariane (Louise Chevillotte), uma garota mais ou menos de sua idade, morando com ele. Se, de início, há um estranhamento por parte da filha, com o tempo as duas se tornam amigas.
A dinâmica que se instala com o trio sob o mesmo teto tem toques cômicos. As garotas se tornam confidentes, e escondem de Gilles segredos mútuos. É com muito esforço que Ariane trará o prazer de viver de volta a Jeanne, que acha que sua vida acabou com o fim do romance.
Erros e acertos, quase que Rohmerianos, unem e separam personagens, o ciúme tem um peso nisso tudo – o que não é novidade em Garrel – e o roteiro, assinado pelo diretor, sua mulher Caroline Deruas-Garrel, Jean-Claude Carrière e Arlette Langmann, transita entre a inocência e a perversidade, com personagens marcantes. (Alysson Oliveira)
 
CINESESC -  30/10/17 - 16:50
 
 Essa é nossa terra
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O cinema do belga Lucas Belvaux nunca teve tanta urgência e relevância como seu drama Essa é nossa terra, que investiga a ascensão da extrema-direita na França e, por tabela, na Europa a partir da jornada de uma enfermeira repleta de boas intenções, mas destituída de picardia e convenientemente cega para algumas coisas. Ela é interpretada por Émilie Dequenne, que em 1999 estreou no cinema no papel-título de Rosetta, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. O filme saiu de Cannes naquele ano com o prêmio de atriz para ela e a primeira Palma de Ouro para a dupla.
Émilie é Pauline Duhez, mãe solteira de um casal de filhos que beira a adolescência, filha de um ex-metalúrgico e eterno comunista (Patrick Descamps), que acaba cooptada por um médico (André Dussollier) membro de um novo partido, chamado Partido da Renovação Nacional. “Não sou nem de esquerda, nem direita. Sou pelos franceses e pela França”, diz ele quando tenta convencê-la a se candidatar à prefeitura da pequena cidade semirrural onde moram.
Não é preciso acompanhar política francesa de perto – basta a brasileira – para saber o que isso quer dizer e onde vai dar. Não custa muito, e Pauline está loira e sorridente ao lado de Agnès Dorgelle (Catherine Jacob), líder do partido (e assustadoramente parecida com Marianne Le Pen), para desgosto de seu pai.
Há um outro problema sério envolvendo a vida da enfermeira – e deste, ela nem está ciente. Pauline reencontra um antigo amor, Stéphane (Guillaume Gouix), treinador de futebol infantil que, nas horas vagas, espanca mendigos e imigrantes. Quando o partido descobre a relação dela com o sujeito, que beira o neonazista, sua candidatura pode desabar.
Belvaux, que assina o roteiro com Jérôme Leroy, faz um filme corajoso e extremamente atual – talvez por isso mesmo não seja lá muito sutil, mas pouco importa. Essa é nossa terra toca em questões prementes, como a subida da extrema direita, o neonazismo e a imigração na Europa. O diretor cria uma tensão que nunca se dissolve e segura a resolução dos conflitos até a última cena. (Alysson Oliveira)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 30/10/17 - 17:40
 
O motorista de táxi
O drama sul-coreano, de Jang Hun, traz à frente do elenco um dos mais conhecidos atores do país, Song Kang-ho, visto em Mr. Vingança e O Expresso do Amanhã. Neste filme, baseado em fatos reais, recriados num tom de alto melodrama, ele é Kim, um motorista de táxi viúvo, que cria sozinho uma filha de 11 anos e experimenta sérias dificuldades financeiras em 1980.
É um momento de grande instabilidade no país, depois da morte de um ditador, num regime de exceção que já dura 18 anos. Por conta disso, protestos estudantis se multiplicam, pedindo mais democracia. O centro nervoso destes protestos é a cidade de Gwangju, no interior, que foi isolada do resto do país por tropas que vigiam suas estradas de acesso, enquanto reprimem violentamente a população.
Chega à Coreia do Sul um jornalista alemão, Peter (Thomas Kretschmann), decidido a romper o bloqueio e verificar in loco os acontecimentos em Gwangju. De olho na bolada que o repórter vai pagar pela viagem, o motorista Kim entra na jogada, sem saber exatamente os riscos da jornada.
Reconstituindo com contundência a violenta repressão ao movimento de Gwangju, o filme dá seu recado libertário ao mesmo tempo que se permite infiltrar um certo humor, eventualmente rocambolesco, nas interações entre Kim e Peter – que só trocam algumas palavras no inglês precário do taxista – e diversos personagens que eles encontram pelo caminho e serão decisivos para que sua empreitada chegue ao fim. (Neusa Barbosa)
  
RESERVA CULTURAL - SALA 2               30/10/17 - 21:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 31/10/17 - 14:00
 
Félicité
Há um coração que pulsa do início ao fim no filme senegalês Félicité, e esse coração, dono de um vozeirão, atende pelo nome de Véro Tshanda Beya Mputu, cantora e atriz congolesa estreante que interpreta a personagem-título. Logo na primeira cena fica claro: o filme é dela. Cantando num pequeno barzinho em Kinshasa, a capital da República Democrática do Congo, sua performance enche a tela, em algo que parece mais um documentário sobre a música do país.
Mas logo vem à tona a realidade difícil da personagem, com problemas financeiros e morando numa região miserável. Do mesmo modo que Véro se joga na música, a personagem Félicité se joga na vida para conseguir dinheiro para cuidar do filho adolescente, Samo (Gaetan Claudia), que sofreu um acidente grave de moto e está hospitalizado. A jornada dessa mãe adquire tons universais sem que se percam de vista as dificuldades de uma mulher no Congo do presente.
O pai do garoto, com quem mal tem contato, acaba esnobando-a: “Você não queria ser uma mulher forte?!”. E, em busca de ajuda, ela chega a recorrer a um mafioso local, num encontro que não é dos melhores. Félicité acha consolo apenas em um vizinho e mecânico que é apaixonado por ela, Tabu (Papi Mpaki).
Escrito e dirigido pelo franco-senegalês Alaim Gomis, e ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim deste ano, Félicité coloca sua protagonista na mesma tradição de grandes matriarcas do cinema, como, por exemplo, a personagem de Anna Magnani, em Mama Roma, de Pier Paolo Pasolini. Transitando entre o drama do filho doente e a paixão da personagem pela música (o que inclui algumas apresentações), o longa compõe um estudo vívido de uma personagem forte.
Não há soluções fáceis – e, em alguns casos, nem soluções há – na vida de Félicité, assim como na de diversos seus conhecidos. O filme não romantiza as dificuldades, não faz delas uma oportunidade para personagens se tornarem pessoas melhores. Eles precisam enfrentar e seguir em frente, independentemente do resultado do embate.
A câmera, assinada pela francesa Céline Bozon, também é capaz de transitar entre o pessoal, com closes do rosto expressivo de Véro, e discretos planos mais abertos que dão conta da condição socioeconômica da cidade. E, dessa forma, é capaz de captar um colorido vibrante de um lugar em meio ao caos, cores e sons. (Alysson Oliveira)
 
 ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 30/10/17 - 19:15
                                                                                                                          
A oeste do rio Jordão
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O cineasta israelense Amos Gitai volta a um tema que lhe é caro e percorre toda a sua obra – a (im) possibilidade de uma paz permanente entre judeus e palestinos no Oriente Médio.
Assim, intercala trechos de uma entrevista realizada em 1994 com o então primeiro- ministro Ytzhak Rabin (1922-1995) – que havia assinado, em 1993, um tratado de paz com o líder palestino Yasser Arafat (1929-2004)–, além de conversas francas com diversas entidades, autoridades, jornalistas e pessoas comuns dos dois lados, em busca de uma radiografia do impasse atual – depois do assassinato de Rabin, por um fanático judeu, e da política do governo israelense atual de aumentar os assentamentos nos territórios ocupados, entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia.
Algumas das entrevistas mais interessantes vêm de entidades comprometidas com a denúncia da violência do Exército israelense, como a organização Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio), formada por ex-soldados desse próprio exército; a ONG B’tselem, que treina mulheres comuns, muitas donas-de-casa palestinas, para que filmem essas agressões (o que tem um papel decisivo em reduzi-las); a Parents’ Circle (Círculo de Pais), uma organização de pais dos dois lados que perderam seus filhos para esta guerra interminável. Mas, sem dúvida, os depoimentos mais contundentes vêm de cidadãos comuns israelenses, que Gitai vai ouvir e também questiona, atravessando o vergonhoso muro que hoje separa os dois povos e que faz com que a maioria das crianças palestinas hoje jamais tenha visto um israelense que não seja um soldado. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 30/10/17 - 15:50
 
Aqualoucos
O documentário, segundo longa do diretor Victor Ribeiro, resgata a crônica de uma série de esportistas aventureiros – pode-se até considerar bem malucos – que, entre as décadas de 1950 e 1980, formaram trupes que pulavam em piscinas de São Paulo de grandes alturas.
Suas performances foram se sofisticando ao longo dos anos, recorrendo ao uso de escadas, tochas, andaimes e até ao salto de um helicóptero, aumentando o risco das exibições, que combinavam comédia, números de circo e todo tipo de estrepolias que estes atletas do risco conseguiam imaginar.
Dessas maluquices, muitos colecionaram fraturas, queimaduras, luxações e muitas histórias que, finalmente, eles contam neste filme, uma memória afetuosa da cidade de São Paulo que conta com diversas imagens de arquivo, ao lado dos depoimentos dos sobreviventes desta trupe cômico-esportiva. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6   30/10/17 - 17:10
 
Bikini Moon
Diretor premiado com o Leão de Ouro em Veneza 1994 com o drama Antes da Chuva, o macedônio Milcho Manchevski explora a ambiguidade dos dispositivos e recursos do próprio cinema neste filme que acompanha uma carismática sem-teto, que se autonomeia como Bikini (Condola Rashad). O título tem sua première mundial nesta Mostra.
Dona de um discurso envolvente, ela fascina um documentarista, Trevor (Will Janowitz) e sua namorada, Kate (Sarah Goldberg), que a convencem a tornar-se personagem de um filme. Não é simples ter alguma certeza sobre a moça, que diz ser uma ex-veterana do Iraque e ter uma filha pequena, que foi tirada dela. É evidente, no entanto, que ela tem traumas profundos de tudo o que viveu antes e, por isso, deve tomar medicação – o que nem sempre acontece.
Roteirizado pelo próprio Manchevski e por W. P. Rosenthal, o filme acompanha um caótico carrossel de emoções, envolvendo Bikini, o casal e outras pessoas que gravitam em torno deles – sejam membros da equipe do filme dentro do filme, sejam pessoas físicas ou instituições a quem se recorre para ajudar Bikini a ter uma moradia e procurar sua filha.
O coração deste filme inquieto, sem dúvida, é esta protagonista instável, que a história abraça e tenta compreender, sem abrir mão da sinceridade de mostrar suas contradições e inúmeras arestas. De todo modo, é um show da atriz Condola Rashad, que se expõe com uma coragem e sinceridade indiscutíveis. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 1 - 30/10/17 - 14:00
 
Construindo Pontes
O documentário que marca a estreia na direção da premiada diretora de fotografia Heloísa Passosretrata um encontro que, de muitas maneiras, se transforma num embate, entre Heloísa e seu pai, o engenheiro Álvaro Passos. A narrativa vale-se de materiais de arquivo e conversas entre estes dois personagens, permitindo identificar as profundas diferenças pessoais e políticas que, ao longo da vida, os apartaram.
Evidentemente, o próprio ato de realizar o filme é uma opção pelo afeto e a busca do entendimento, a procura do outro – ainda que isso não signifique render-se ao que este outro diz e pensa. Em mais de um momento, soam mais alto as asperezas de uma profunda divergência política entre os dois, referentes ao modo de encarar a ditadura civil-militar de 1964 (tempo em que Álvaro acreditava haver “um projeto de País”) e também a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.
É uma filha de 50 anos que encara este homem, um melífluo manipulador, cuja voz suave e aparente calma não encobrem o jogo de poder que na verdade se trava entre um pai e uma filha, entre duas gerações diferentes, entre um homem e uma mulher que toda a vida discordaram, mas estão profundamente empenhados no bom termo de um projeto, o próprio filme.
De muitas maneiras, portanto, esse conflito espelha o de um Brasil em que portadores de posições contrárias não conseguem dialogar. Por isso, Construindo Pontes ganha uma oportunidade, um momento, exemplares, na medida em que problematiza esta cisão, contribuindo para uma reflexão até do verdadeiro sentido do que é democracia. (Neusa Barbosa)
 
CINEARTE 2                              30/10/17 - 14:00
 
A Hollywood de Hitler
Neste documentário substancial, extremamente bem-pesquisado, o diretor Rüdiger Suchsland realiza uma radiografia do cinema alemão no período entre 1933 e 1945 – uma época em que a indústria local produziu mais de 1000 filmes, em sua grande maioria comédias e melodramas, e compondo seu próprio “star system”.
A influência de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, era direta em roteiros e castings, num cinema caracterizado pela celebração ao auto-sacrifício e ao culto à morte, com encenações grandiosas e grandiloquentes – e a ausência quase completa de filmes de fantasia ou horror.
O documentário apresenta diversos filmes e artistas pouco conhecidos, já que sua circulação era pouca fora da Alemanha nesse período, permitindo conhecer o funcionamento um dos aspectos da máquina de dominação de mentalidade e pensamento através da sétima arte. Nem por isso deixou de haver obras de qualidade ou mesmo diretores que conseguiram, até certo ponto, criar alguma diversidade dentro das poucas brechas permitidas. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   30/10/17 - 17:20
CINESESC                                01/11/17 - 15:00
 
Soldados do Araguaia
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O novo documentário assinado por Belisário Franca (Menino 23) denuncia tema forte e pouco divulgado – a situação de algumas dezenas de ex-soldados, jovens recrutados pelo exército nos anos 1970, para combater a guerrilha do Araguaia (1972-1975) e eles mesmos submetidos a treinamentos abusivos, torturas e intimidações.
Todos eram jovens moradores da região ao sul do Pará onde cerca de 70 guerrilheiros se instalaram. Foram recrutados à força, levados para a selva, porque o exército na época entendeu que seu conhecimento do território poderia ser-lhes útil. Mas, como eles revelam hoje, nada lhes foi dito sobre a verdadeira natureza de sua missão. Pessoas simples, na maioria na época sem escolaridade – apenas dois tinham o ginasial -, foram tratados com dureza e submetidos a tratamento cruel – alguns contam ter sido obrigados a beber sangue de animais e amarrados nus, cobertos de açúcar e deixados expostos às picadas de insetos, apesar de seus gritos de dor. Tudo para lhes induzir medo e obrigá-los a obedecer sem protestos.
Nenhum deles tinha ideia do que viria a seguir. Estes soldados sustentam ter sido obrigados a limpar locais de tortura aos guerrilheiros capturados – especialmente na chamada “Casa Azul”, residência dos oficiais, cujas paredes, segundo contam, não raro eram cobertas de sangue. Alguns contam ter sido encarregados de deslocar sacos contendo cabeças ou mãos cortadas destes prisioneiros. Eram encarregados de vigiá-los, não raro presenciando as torturas, sem nada poder fazer para impedi-las. Vários contam saber do chamado “voo para Brasília”, ou seja, quando os prisioneiros eram embarcados em helicópteros e dali lançados à cachoeira de Xambioá.
Anos depois destes episódios, eles ainda sofrem com traumas psicológicos e tiveram negados seus direitos no exército, por terem sido, na época, obrigados a assinar papeis de baixa cujo conteúdo não compreenderam – como uma tentativa de apagamento daquilo que se passou no Araguaia naqueles dias, até hoje à espera de esclarecimento. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   30/10/17 - 13:30
 
The Square
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2017, o drama do diretor sueco Ruben Östlund (Força Maior) é um primor de composição, ritmo e acuidade na exposição de alguns dos mais dramáticos temas contemporâneos.
Seu protagonista é Christian (Claes Bang), um poderoso curador de um grande museu cuja vida gravita num ambiente privilegiado. Christian tem poder e gosta de usá-lo neste universo controlado, governado por tendências abstratas e grandes patrocinadores. A partir de um incidente comum, este controle começa a rachar. O curador é assaltado, de maneira engenhosa, na rua. Rastreando a localização de seu celular num prédio, ele segue um plano mirabolante de um jovem subordinado, Michael (Christopher Laesse), para recuperar os itens roubados, inclusive sua carteira e abotoaduras.
Esta sua incursão fora do figurino do bom senso e do politicamente correto que o envolvem serve para que a história comece a expor as rachaduras de um mundo insensível e comprometido apenas com sua própria lógica excludente – e não serão por acaso os diversos encontros do curador com mendigos pelas ruas elegantes de Estocolmo.
O título – The Square (O quadrado) – refere-se a uma obra, cujo conceito guiará a nova exposição pretendida pelo museu, para a qual se planeja uma campanha midiática capaz de viralizar na internet. A confluência dos efeitos desta campanha com a atitude de Christian para recuperar seus objetos sustenta um roteiro hábil em extrair as contradições de alguns dos setores mais influentes do mundo moderno, como os colecionadores de arte e os ricos patrocinadores dos museus. Melhor ainda é que a história encontra, cada vez mais, o humano por trás destas grandes aparências e de rituais engomados.
No elenco, Elisabeth Moss como uma jornalista que entra na vida de Christian. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   30/10/17 - 19:20
CINESESC                                01/11/17 - 19:10
 
Hippies soviéticos
O documentário da Estônia Terje Toomistu resgata histórias de antigos hippies do outro lado da Cortina de Ferro. Crianças solidamente educadas para o comunismo, vários deles procuravam em fragmentos da cultura do Ocidente que penetravam o fechado bloco soviético – como alguns raros discos contrabandeados dos Beatles e Rolling Stones – inspiração para sua dissidência jovem.
Cultivando cabelos longos e um tipo possível de contra-cultura, chegavam a roubar fios de cabines telefônicas para poder trocar cordas de suas guitarras. Por sua atitude rebelde, muitos foram submetidos a prisão ou tratamentos forçados, por exemplo, com insulina, o que provocava choque cerebral e convulsões.
Décadas depois, os sobreviventes dessa onda compartilham memórias desses tempos. Alguns deles continuam rebeldes, agora protestando contra Vladimir Putin e o neo-fascismo. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6   30/10/17 - 18:45
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   01/11/17 - 17:30
 
O jovem Karl Marx
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O celebrado diretor do documentário Eu não sou seu negro, o haitiano Raoul Peck, volta com um inspirado drama biográfico, sobre os anos de juventude de dois homens que mudaram o mundo: Karl Marx e Friedrich Engels. No roteiro, assinado por Peck e Pascal Bonitzer, Marx (August Diehl) é um jovem de menos de 30 anos, jornalista e polemista, que começa a interessar-se pelos mecanismos que regem a exploração do homem pelo homem. Mas é pobre, casado com uma mulher nobre que abandonou seu clã por amor, Jenny (Vicky Krieps), e tem que enfrentar os dilemas da sobrevivência, além da perseguição da polícia ao seu ativismo. Num encontro desses que estão destinados a mudar a história do mundo, conhece Engels (Stefan Konarske), herdeiro rebelde de tecelagens que estão, naquele momento, sendo o cenário das jornadas de trabalho análogas à escravidão que caracterizaram a Revolução Industrial, em meados dos anos 1840.
Dessa amizade inusitada entre dois homens de origens muito diferentes nasce uma parceria intelectual ativa, que os levará ao encontro de outros socialistas da época, como o francês Proudhon (Olivier Gourmet), um dos muitos aos quais eles abraçarão, para depois superar, em livros como A Sagrada Família e, depois, o incontornável O capital, obra máxima de Marx.
Um ponto positivo do filme é conseguir equilibrar as complexas discussões teóricas que incendiaram o século 19 com os aspectos pessoais de cada um destes personagens cruciais, o que só valoriza o esforço de cada um para superar os limites de sua época e contextos familiares. Outro aspecto singular é enfatizar a participação de Jenny, a mulher de Marx, como uma parceira intelectual que contribuiu para alargar seus horizontes e apoiá-lo em sua trajetória. Não, a sra. Marx não era uma mera “grande mulher atrás de um grande homem”.
E, para quem sentir que o filme está aquém do anterior de Peck, o contundente Eu não sou seu negro, basta pensar o quanto O jovem Karl Marx reflete o momento atual de crises econômicas e sociais. Só faltam os novos Marx e Engels. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   30/10/17 - 19:20
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1  31/10/17 - 21:00
 
Happy End
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O novo trabalho do austríaco Michael Haneke, Happy End, é uma espécie de primo bastardo de outros dois longas seus: Amor e Caché. Há referencias (sutis e explícitas) a ambos, e um humor demoníaco e estranho num filme que fala sobre o estado das coisas no presente.
Haneke é um diretor interessado em colocar acontecimentos espalhados pela tela toda, sem direcionar o olhar do espectador. Até hoje, mais de uma década depois, muita gente talvez ainda não tenha notado, por exemplo, a informação importante que havia no canto da tela no final de Caché. Por isso é de um cinismo típico do cineasta também começar Happy End com uma imagem vertical de celular – mimetizando, mas também satirizando aqui, algo comum do nosso presente.
Vemos coisas banais de uma personagem que se prepara para dormir, com transmissão pela internet. O que está em jogo nessa verticalização da imagem é a disputa de narrativas, é como se a tela vertical deixasse ainda mais elitista quem pode aparecer na frente da câmera. Haneke utiliza esse recurso em outro momento-chave do longa.
O filme, que estreou em Cannes, é protagonizado por uma família da alta burguesia francesa, e traz os temas favoritos do diretor, como culpa, disputas geracionais e o retorno do reprimido. Isabelle Huppert controla o clã de maneira firme – ora, sendo ela, não poderia ser de outra forma. Seu pai Georges (Jean-Louis Trintignant, fazendo um personagem com o mesmo nome daquele que fez em Amor) está perdendo a lucidez, e seu irmão, o médico Thomas (Mathieu Kassovitz), não é dos sujeitos mais fortes, e agora terá de dar abrigo à filha adolescente, Eve (Fantine Harduin), fruto de seu primeiro casamento. A mãe de Eve está hospitalizada após ter sido envenenada. Anne (Isabelle) também vive com problemas com o filho, Pierre (Franz Rogowski), que não tem pulso firme na vida, e é displicente com tudo.
O centro de consciência do filme parece pousar na jovem Eve, que com cara de desdém observa a tudo e a todos. É pelos os olhos dela que o filme acompanha a derrocada lenta e irreversível dos Laurent, em meio a uma Europa conflituosa com a questão dos refugiados e imigrantes.
Como em Caché, a manipulação da maneira como se filma e se vê imagens traz camadas de entendimento. Se lá havia uma questão com o passado colonial da Europa e suas consequências de dívidas, aqui Haneke, também autor do roteiro, está de olho na urgência do presente. O embate das narrativas, materializado na orientação das câmeras (vertical, do celular; horizontal, do cinema), é o que faz mover a trama. E da mesma maneira que não havia nada de “engraçado” em Funny Games, Happy End está longe de ter algo “feliz”. É o diretor, mais uma vez, colocando em prática seu cinismo cortante e revelador.  (Alysson Oliveira)
  
CINEARTE 1 - 30/10/17 - 16:10
 
Cadeiras Brancas
Mat (Matthew Joils) e Emily (Emily Hurley) são dois jovens de Christchurch, Nova Zelândia, que divagam sobre seu isolamento social e perda de perspectivas, nesta produção do cineasta iraniano Reza Dormishian (de Eu Não Estou Com Raiva e Lanturi). Usando um encadeamento linear de fotos com vozes em off, em vez de uma filmagem padrão, o diretor e roteirista faz um filme experimental bastante sensível a partir de ficção, mas não muito longe do real. 
A vida de seus personagens entraram em pausa, traumatizados pelos terremotos de 2011 em Canterbury, que deixaram 186 mortos na Chistchurch e metade da cidade em ruínas. Cinco anos depois, Mat, que perdeu os pais, e Emily, que perdeu a mãe (e o pai, obrigado a migrar para França), acabam se conhecendo no memorial às vítimas, as 186 cadeiras brancas, nas quais sentam-se para sentirem-se próximos aos seus familiares perdidos.
Mesmo com um início de relacionamento, ambos são incapazes de se comunicar com o outro. O espectador sabe apenas o que pensam, graças às falas em off. E nesse sentido, Dormishian amplia sua mensagem sobre conexão humana e, desta, com a natureza. Nesse sentido, chega até mesmo a incluir críticas a atentados terroristas, atacando o Estado Islâmico, ao mostrar o final trágico do pai de Emily em Paris.
Produto de uma bolsa de estudos da Universidade de Canterbury, que recebeu pelo prêmio Vincent Ward para diretores visionários, durante o Festival Internacional de Cinema de Xangai, quando projetou Eu Não Estou com Raiva, a produção faz sua estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. (Rodrigo Zavala)
  
RESERVA CULTURAL - SALA 2 -  30/10 - 15:40
CIRCUITO SPCINE OLIDO 31/10 - 17:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -  01/11 - 13:30
 
A telenovela errante
 No começo dos anos de 1990, quando o Chile estava saindo de uma ditadura militar que durou 17 anos, Raoul Ruiz (chileno radicado na França) rodou um filme chamado A telenovela errante, mas apenas agora, seis anos após sua morte, sua viúva, a diretora e montadora Valeria Sarmiento, conseguiu concluir o trabalho. E mesmo com esse intervalo entre as filmagens e a finalização, o longa é atual e preciso em seu retrato do país e da América Latina.
As cenas foram filmadas em 16 mm durante 6 dias numa oficina de interpretação. O que se vê na tela transita entre o cômico – especialmente aquele que advém do absurdo de um país em transição. Dividido em sete “dias”, cada um representa cenas de um capítulo qualquer de uma telenovela. Por isso, não há uma unidade narrativa ou mesmo estética, mas os temas certamente representam cada um dos segmentos.
Há, como é de se esperar numa telenovela clássica latina, exageros e excentricidades o que traz um humor, às vezes, involuntário. A primeira parte é a melhor de todas, com um homem e uma mulher comentando seu caso extraconjugal. O que começa num registo realista vai adquirindo tintas cada vez mais absurdas.
Os diálogos são propositadamente exagerados, mas as atuações primam pelo realismo, criando um estranhamento brechtiano que combina com a questão política encerrada nas entrelinhas do filme. Ruiz (e Valéria, na montagem) é capaz de tomar para si a linguagem tão peculiar da telenovela e transformá-la em algo seu num filme, ao mesmo tempo, engraçado e politicamente certeiro na investigação das mazelas deixadas por um regime ditatorial. (Alysson Oliveira)
 
CINE CAIXA BELAS ARTES  SALA 3 -  30/10/17 - 22:10
RESERVA CULTURAL - SALA 2 - 01/11/17 - 15:50

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