Repescagem traz alguns destaques da Mostra

Paul Vecchiali e o cinema dos afetos como forma de resistência política

Alysson Oliveira

 Num mundo tão cínico e cada vez mais reacionário como o do presente, fazer filmes sobre as relações amorosas sinceras se torna uma manifestação política. Assim é o cinema do francês Paul Vecchiali, ganhador do Prêmio Leon Cakoff, cuja obra ganhou uma retrospectiva na Mostra. O diretor está em São Paulo acompanhando o evento e participando de diversos debates com o público. “Eu sou um cineasta engajado, mas não militante”, disse em entrevista ao Cineweb. “Quando os problemas sociais se tornam gritantes e é preciso fazer algo, eu tomo partido”. 

 Foi assim, em 1988, quando realizou Uma vez mais, primeiro filme francês, segundo ele, a abordar a AIDS, na época em que essa ainda era um grande mistério. “O filme nasceu de uma grande revolta minha contra uma posição do governo francês, quando Charles Pasqua [ministro do Interior do governo de Jacques Chirac] fez uma declaração homofóbica”. 

Na época, o diretor conta, o longa não fez sucesso, nem com a comunidade gay. “Foi muito mal recebido, e só foi redescoberto em Cannes alguns anos atrás, e recebeu 20 minutos de aplausos”, conta orgulhoso. Para ele, o filme era uma tentativa de desdramatizar a questão, dizer que o HIV, tal qual comenta um personagem, é um vírus apenas, e nenhum estigma deveria recair sobre seus portadores. 

 Seus filmes nascem dos mais variados motivos, da revolta a um sonho. Rosa La Rose, Garota de Programa (foto ao lado), por sua vez, nasceu de um sonho. “Sonhei com tudo, até com os atores que fariam os personagens, menos a protagonista. Acordei e escrevi o roteiro em uma manhã. No outro dia um amigo mostrou-me a foto da atriz Marianne Basler. Era ela! Dois dias depois assinávamos o contrato”. As filmagens, no entanto, levaram um pouco de tempo para acontecer. “Cheguei a fazer um filme para a televisão [À titre posthume], também com Marianne, até conseguir os fundos.” 

Seus métodos de filmagem – assim como o que se vê na tela –, conta Vecchiali, são peculiares. “Eu peço para os atores aprenderem suas falas sem pensar em atuação. Passamos uns 2 meses nesse processo. Antes de filmar, fazemos leituras ainda sem pensar na atuação. E deixo o elenco livre para mudar o texto, se apropriar dos diálogos. Só depois vamos ensaiar e pensar como os personagens serão representados. Mas, no set, deixo os atores e atrizes livres para fazer como quiserem. Isso traz um frescor para a cena”. 

 Se as interpretações, às vezes pouco naturalistas, causam certo estranhamento no cinema de Vecchiali, as músicas não deixam por menos. “Eu amo músicas clássicas e canções contemporâneas. E, para os filmes, tenho uma parceria com o letrista Roland Vincent em várias obras. Pensamos na trilha antes mesmo do roteiro”. Um dos frutos da dupla é a comédia erótica A Chantagem (foto ao lado), em que as canções aparecem em momentos inesperados, como numa orgia. “Para criar as canções, Vincent e eu não falamos em roteiro, mas pensamos em uma ambientação, e como a música pode ajudar”. 

Os gêneros cinematográficos também são outra apropriação a fim de causar estranhamento na obra de Vecchiali. O diretor subverte as expectativas e gramática cinematográfica para criar algo novo. O próprio Uma vez mais é uma tragédia em forma de comédia musical. O Estrangulador começa como um suspense para se transformar numa fantasia. Seu mais novo trabalho, Os 7 Desertores, que faz sua estreia mundial na Mostra, é parte manifesto antibélico, parte filme fantástico. “Eu gosto de contrariar as possibilidades. Quero transformar o que parece uma fórmula pronta, não gosto de coisas homogêneas”. E avisa que ainda pretende fazer um western e uma comédia inteiramente musical. 

Com 87 anos de idade, completados em abril, Vecchiali tem um hiato de 6 anos em sua carreira, que começou em 1961 e conta com mais de 50 filmes, entre longas e curtas, como diretor – a Mostra apresenta 13 deles. “Fiquei sem filmar entre 1998 e 2002”, até que houve uma retrospectiva na Cinemateca Francesa, e a atriz Danielle Darrieux, que morreu na semana passada, o intimou: “Nem pense em parar!”, relembra ele com carinho. Ela protagonizou seu No alto das escadas, como uma viúva de um colaborador, que volta à sua cidade décadas depois para se vingar daqueles que denunciaram seu marido. 

Depois dessa retrospectiva, Vecchiali realizou À vot’bon coeur, no qual protagonizou como um cineasta chamado Paul Vecchiali que matava as 35 pessoas que recusaram a financiar um filme seu. “Era uma comédia. Ninguém ficou ofendido, nem com medo de mim, até porque o personagem morria ao final, da mesma maneira como Jean-Paul Belmondo em Acossado”, diverte-se. Seu personagem homônimo morria, mas Vecchiali, o verdadeiro, não pensa sequer em abandonar o cinema. 

UMA VEZ MAIS e o curta TRÊS PALAVRAS DE PASSAGEM

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 29/10/17 - 22:10 - Sessão: 1072 

OS 7 DESERTORES

 ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA SALA 1 - 29/10/17 - 18:10 

RÉQUIEM PARA UMA MULHER

CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP -29/10/17 - 19:00

PLAYARTE MARABÁ - SALA 3 - 31/10/17 - 18:15 

NO ALTO DAS ESCADAS

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 - 30/10/17 - 13:30 

LE CAFÉ DES JULES

PLAYARTE MARABÁ - SALA 3 - 31/10/17 - 20:45 

NOITES BRANCAS NO PÍER

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 - 31/10/17 - 21:40 

É O AMOR

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4- 01/11/17 - 15:40 

O IGNORANTE

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4 - 01/11/17 - 15:15

OUTROS DESTAQUES DE DOMINGO 

 Primogênito
Assista ao trailer
Há uma tensão crescente no desenrolar de Primogênito, um drama sobre masculinidade que ganha ares de trhriller, escrito e dirigido pelo cineasta letão Aik Karapetian. Desconcertante e trágica, a produção leva seu personagem ao limite, utilizando-se de um par de metáforas para chegar ao seu desfecho um pouco enigmático.
Karapetian joga luz em Francis (Kaspars Znotins), cuja personalidade metódica e pacata contrasta com a de sua mulher Katrina (Maija Doveika), extrovertida. Quando são vítimas de um motoqueiro - ela é assediada e ele surrado -, Francis se vê impotente em ajudar sua esposa. Para piorar, o detetive que cuidará do caso é um ex-pretendente de Katrina, com quem parece, aos olhos do protagonista, exageradamente íntimo.
Confrontado em sua masculinidade, sai em busca do criminoso para "resolver o assunto". Mas só consegue dar dinheiro ao rapaz para que peça desculpas a sua mulher. Humilhado, acaba se envolvendo em um acidente, que ligará o motoqueiro, uma chantagem fatal e o nascimento de seu primeiro filho.
Pressionado por todos os lados e com o casamento em frangalhos, Francis devaneia com uma criatura feroz que precisa se tornar, ao mesmo tempo que projeta infidelidades de sua esposa e duvida da paternidade da criança ainda por nascer. O diretor encadeia o conflito a partir da paranoia e impotência de seu protagonista, cujo caráter está a ponto de se quebrar. (Rodrigo Zavala)
 
CINEARTE 1 - 29/10 - 15:50
 
 Cadeiras Brancas
Mat (Matthew Joils) e Emily (Emily Hurley) são dois jovens de Christchurch, Nova Zelândia, que divagam sobre seu isolamento social e perda de perspectivas, nesta produção do cineasta iraniano Reza Dormishian (de Eu Não Estou Com Raiva e Lanturi). Usando um encadeamento linear de fotos com vozes em off, em vez de uma filmagem padrão, o diretor e roteirista faz um filme experimental bastante sensível a partir de ficção, mas não muito longe do real.  
A vida de seus personagens entraram em pausa, traumatizados pelos terremotos de 2011 em Canterbury, que deixaram 186 mortos na Chistchurch e metade da cidade em ruínas. Cinco anos depois, Mat, que perdeu os pais, e Emily, que perdeu a mãe (e o pai, obrigado a migrar para França), acabam se conhecendo no memorial às vítimas, as 186 cadeiras brancas, nas quais sentam-se para sentirem-se próximos aos seus familiares perdidos.
Mesmo com um início de relacionamento, ambos são incapazes de se comunicar com o outro. O espectador sabe apenas o que pensam, graças às falas em off. E nesse sentido, Dormishian amplia sua mensagem sobre conexão humana e, desta, com a natureza. Nesse sentido, chega até mesmo a incluir críticas a atentados terroristas, atacando o Estado Islâmico, ao mostrar o final trágico do pai de Emily em Paris.
Produto de uma bolsa de estudos da Universidade de Canterbury, que recebeu pelo prêmio Vincent Ward para diretores visionários, durante o Festival Internacional de Cinema de Xangai, quando projetou Eu Não Estou com Raiva, a produção faz sua estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. (Rodrigo Zavala)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5  29/10 - 19:50
RESERVA CULTURAL - SALA 2 30/10 - 15:40
CIRCUITO SPCINE OLIDO 31/10 - 17:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -  01/11 - 13:30
 
 Outrage Coda
Assista ao trailer
O grande cineasta japonês Takeshi Kitano encerra a trilogia (Outrage, de 2010, e Beyond Outrage, de 2012, inéditos no Brasil) de Otomo , seu anti-herói e yakuza da velha-guarda, que personifica nas telas, com Outrage Coda. Uma saga que reflete o trabalho deste diretor e entertainer, sobre a guerra de gangues, com muita violência, agilidade e humor.
A história começa na Ilha de Jeju (Coréia do Sul), onde vive agora Otomo, chefiando cassinos e uma rede de prostituição para o chefão Chang (Tokio Kaneda). Quando o yakuza Hanada (Pierre Taki), da família Hanabishi, arranja confusão por lá e ainda manda matar um homem de Otomo. Como uma bola de neve, graças também às reviravoltas do roteiro de Kitano, o que era um problema isolado ganha proporções de guerra entre gangues em Tóquio. E Otomo estará lá para resolver.
Mestre em cenas de ação bastante violentas, Kitano, no entanto, consegue, com muito sucesso, um visual estilizado, com humor e, ao mesmo tempo, impacto dramático. Além disso, povoa a narrativa com as mais diferentes personalidades e tipos, transformados em personagens que complementam esse equilíbrio.
Como terceiro filme, e para quem conhece o trabalho do cineasta, pode parecer que não há um efeito surpresa na produção. Mas no que pode faltar em originalidade, sem dúvida, sobra em engenhosidade e na capacidade de manter uma qualidade inquestionável.  (Rodrigo Zavala)
 
CINE CAIXA BELAS ARTES SALA 3 29/10 - 22:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 31/10  - 13:30
 
 Pela janela
Caroline Leone estreia na direção com esse longa que ganhou o prêmio da Crítica na Seção Bright Future (que destaca jovens cineastas promissores) do Festival de Rotterdan, em fevereiro passado, e traz como protagonista Rosália (Magali Biff), uma mulher de mais de 60 anos que precisa repensar sua vida depois de perder o emprego numa fábrica de eletrônicos.
O longa é um road movie, e como tal, o destino pouco importa, a jornada (que se confundirá com a de sua protagonista) é mais forte do que o destino. Rosália cai numa depressão depois de dar metade de sua vida à fábrica de onde foi dispensada sem qualquer cerimonia. Sem rumo e sem ter o que fazer, seu irmão (Cacá Amaral), motorista de uma família rica, irá de carro para a Argentina, onde entregará o veículo para a filha do patrão e voltará de ônibus. Com receio de deixar a irmã solitária, acaba por convencê-la a acompanhá-lo na viagem.
Rosália vê o mundo pela janela do carro. A viagem é longa, mas com alguma beleza, que talvez possa espantar a sua melancolia. Muita árvore, muito asfalto, algumas paradas em hotéis pequenos para passar a noite. Ela e o irmão, Zé, conversam de vez em quando, e a primeira grande parada é nas Cataratas do Iguaçu – uma verdadeira força da natureza, que pode despertar a força adormecida na protagonista.
Caroline, que também assina o roteiro, cria um longa de tramas interiores, impulsionado pelos quilômetros que avançam na estrada. Passam a fronteira e Rosália nem percebe: “É tudo igual!”. É tudo igual, até que deixa de ser. Assim como na vida dela. O filme é contido, em seu tom em suas interpretações, o que gera uma potência quase descomunal.
A diretora sabe extrair a beleza da dureza da vida, que se mostra repleta de possibilidades. Com pouco mais de 35 anos, Caroline é capaz de investigar com precisão a vida interior de uma dupla de personagens com quase o dobro de sua idade. Mas nada disso não funcionaria não fossem as inspiradas interpretações de Magali e Amaral. É na simplicidade aparente de seus personagens que eles encontram um volume ensurdecedor de quem precisa gritar para não explodir – mesmo que esse grito jamais seja verbalizado. (Alysson Oliveira)
 
CINEARTE 1 - 29/10/17 - 17:40
CINESESC - 31/10/17 - 16:40
 
 A telenovela errante
 No começo dos anos de 1990, quando o Chile estava saindo de uma ditadura militar que durou 17 anos, Raoul Ruiz (chileno radicado na França) rodou um filme chamado A telenovela errante, mas apenas agora, seis anos após sua morte, sua viúva, a diretora e montadora Valeria Sarmiento, conseguiu concluir o trabalho. E mesmo com esse intervalo entre as filmagens e a finalização, o longa é atual e preciso em seu retrato do país e da América Latina.
As cenas foram filmadas em 16 mm durante 6 dias numa oficina de interpretação. O que se vê na tela transita entre o cômico – especialmente aquele que advém do absurdo de um país em transição. Dividido em sete “dias”, cada um representa cenas de um capítulo qualquer de uma telenovela. Por isso, não há uma unidade narrativa ou mesmo estética, mas os temas certamente representam cada um dos segmentos.
Há, como é de se esperar numa telenovela clássica latina, exageros e excentricidades o que traz um humor, às vezes, involuntário. A primeira parte é a melhor de todas, com um homem e uma mulher comentando seu caso extraconjugal. O que começa num registo realista vai adquirindo tintas cada vez mais absurdas.
Os diálogos são propositadamente exagerados, mas as atuações primam pelo realismo, criando um estranhamento brechtiano que combina com a questão política encerrada nas entrelinhas do filme. Ruiz (e Valéria, na montagem) é capaz de tomar para si a linguagem tão peculiar da telenovela e transformá-la em algo seu num filme, ao mesmo tempo, engraçado e politicamente certeiro na investigação das mazelas deixadas por um regime ditatorial. (Alysson Oliveira)
 
CINESESC  - 29/10/17 - 22:20
CINE CAIXA BELAS ARTES  SALA 3 -  30/10/17 - 22:10
RESERVA CULTURAL - SALA 2 - 01/11/17 - 15:50
 
 Django
Assista ao trailer
O violonista de jazz Django Reinhardt ganha uma biografia que tem tudo para agradar não apenas aos seus fãs, mas também aos que gostam de um filme histórico bem conduzido que contextualiza a trajetória do personagem com o momento histórico em que viveu. E no caso de Django, chega perto de mostrar a grande perda que a música contemporânea teria se os nazistas tivessem conseguido enviar o músico para um campo de extermínio por ser cigano.
O filme, dirigido por Étienne Comar, se desenrola na Paris ocupada pelas tropas nazistas, em 1943, onde Django (Reda Kateb) conseguia tocar em um clube de jazz local graças à proteção de um empresário, que possuía boas ligações com oficiais alemães. Os comandantes fechavam os olhos para o fato de Django ser cigano, desde que seguisse o protocolo e não tocasse “música de negros”, ou seja, blues e todo o tipo de ritmo suingado que, pelos cânones arianos, era música degenerada. E Django vivia sempre no fio da navalha, pois nem sempre cumpria o prometido. A música era mais forte do que ele e parecia tomar suas próprias decisões.
A situação se complica quando é intimado a tocar em uma solenidade na Alemanha.  Django não que colaborar com os alemães e há quem tema que sua ida à Alemanha possa ser uma armadilha. A poucos dias da viagem, sua amante, Louise (Cécile de France), o convence finalmente a fugir para a Suíça, com a ajuda da Resistência.
Mas a passagem para o outro lado não é tão fácil assim e, enquanto aguarda a oportunidade para fazer a travessia, precisa ajudar na subsistência da família. Como ele só sabe tocar violão, as oportunidades que tem para se apresentar e ganhar algum dinheiro, ficam cada vez mais arriscadas. (Luiz Vita)
 
PLAY ARTE MARABÁ SALA 3 - 29/10/17 - 21:00

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