Olhar de Cinema 2019

Reta final em Curitiba tem filmes e premiações

Neusa Barbosa, de Curitiba

A 8a. edição do Olhar de Cinema está se encerrando hoje à noite, com a divulgação das premiações de todas as suas mostras, a partir das 21h, no Espaço Itaú Crystal 3.

Mas noite de encerramento também tem filmes e há pelo menos duas boas atrações concorrendo com a cerimônia de premiação - o filme de encerramento, Breve História do Planeta Verde, uma coprodução Argentina/Alemanha/Brasil/Espanha, dirigida pelo argentino Santiago Loza - também às 21h, no Itaú Crystal 1 e 2 - uma narrativa que aborda identidade trans com um toque surreal; e o clássico Reminiscências de uma Viagem à Lituânia, de Jonas Mekas, diretor lituano radicado nos EUA que morreu em janeiro último e, nesta produção de 1972, repensa sua própria revisita à sua Lituânia natal, depois de mais de 20 anos fora, unindo memória, observação e comentário com aquele estilo todo peculiar deste criativo realizador. Reminiscências..., igualmente, tem sessão às 21h, só que no Cineplex Novo Batel 5.

Na quinta (13), serão reexibidos os filmes premiados. Acompanhe a programação no site do festival: www.olhardecinema.com.br

Últimas atrações

Na terça (11) alguns destaques da programação foram o documentário chinês No Alto da Montanha, de Yang Zhang, da mostra Outros Olhares, e o concorrente espanhol Entre duas Águas, docudrama de Isaki Lacuesta, ambos com passagens por festivais internacionais.

Primeiro longa documental do diretor Zhang e exibido na programação do IDFA, o mais importante festival de documentários do mundo, em Amsterdã, No Alto da Montanha registra uma experiência inusual: a do pintor Shen, que vai de Xangai para a região camponesa de Shunglang, onde ele dirige uma academia de pintura, uma experiência comunitária que muda a vida de diversas mulheres idosas da região.

Com grande beleza visual, o filme explora a bucólica natureza local e um ritmo de vida todo próprio, em que o pintor compartilha suas cuidadosas lições com as camponesas idosas - que também se ocupam de atividades como agricultura e culinária; um jovem aluno, Ling Dong, que está vivendo dilemas para casar-se; e a própria família de Shen, que inclui sua mulher, Qiuqiu, a filha adolescente, Yingying, e o bebê do casal, que acaba de nascer.

A grande sacada do filme é montar este paralelo entre a domesticidade da belíssima casa/academia de Shen e a cidade ali perto, retratando cerimônias coletivas, como o Ano Novo, um funeral e a própria festa pelo nascimento do bebê do professor. A afinidade entre a pintura e a fotografia do filme é total, um parentesco enfatizado pela janela quadrada do filme.

Já o filme espanhol Entre Duas Águas, premiado nos festivais de San Sebastián e Mar del Plata, é um novo capítulo de um trabalho, realizado pelo diretor Lacuesta, com os mesmos personagens, dois irmãos, Isra e Cheíto, a quem ele filmara anos atrás, ainda adolescentes (em La Leyenda del Tiempo, 2006). Aqui, mais uma vez, trata-se de um docudrama, ou seja, os personagens interpretam fragmentos da própria história, mas também vivem na tela episódios da vida de outros que lhes são próximos, neste ambiente singular da ilha de San Fernando.

Adultos, os dois irmãos se reencontram depois que Isra saiu da cadeia, onde esteve por envolvimento com o tráfico de drogas, e Cheíto, padeiro de um navio da Marinha, voltou de mais uma de suas missões no exterior. O foco está em retratar estas trajetórias de homens simples, que perderam o pai muito cedo e tiveram de enfrentar um mundo hostil sem estudo nem muitos recursos.

Há uma urgência naturalista nestes diálogos e situações, escritos em parceria com os próprios personagens e alguns de seus parentes/amigos, um trabalho coletivo que trai, por vezes,uma certa repetição e falta de ritmo. De todo modo, os impasses existenciais destes irmãos são comuns a várias geografias - problemas familiares, desemprego, a atração da criminalidade, a resistência a permanecer longe dos filhos e da família por um trabalho nem tão compensador. Se há um tema em Entre Duas Águas é a falta de utopias de nosso tempo.



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