Olhar de Cinema 2019

Comédias marcam a competição no Olhar de Cinema

Neusa Barbosa, de Curitiba

CuritibaSegunda-feira foi o dia de a competição em Curitiba se arriscar pelo caminho da comédia, mesmo em se tratando de tema polêmico, como o interminável conflito palestino-israelense, focalizado em Tel Aviv em Chamas, de Sameh Zoabi - filme premiado nos festivais de Haifa, Sarasota e também na mostra Horizontes do Festival de Veneza (melhor ator para Kais Nashif).
 
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No centro da história está um tema muito familiar aos brasileiros, uma novela de TV de sucesso. No caso, uma novela palestina, mas que tem sucesso também entre telespectadores israelenses, que acompanham siderados os conflitos político-amorosos do emblemático ano de 1967, quando houve uma guerra na região, tudo isso filtrado pelo envolvimento entre uma sensual espiã palestina (Lubna Azabal, a protagonista do drama Incêndios) e um general israelense (Yusef Joe Sweid).

As delicadas sensibilidades políticas da região têm sua metáfora na novela, que a certa altura ganha um novo roteirista, Salam (Kais Nashif), que, por circunstâncias peculiares, acaba pressionado por um comandante israelense, Assi (Yaniv Biton), a tomar determinados rumos ao escrever os novos capítulos. Como Salam, que mora em Jerusalém, tem diariamente que passar pelo checkpoint comandado por Assi para dirigir-se a Ramalá, do outro lado do muro, ele não tem alternativa senão procurar encaminhar, secretamente, o texto da novela nos rumos, não raro tresloucados, que Assi determina, tendo ainda que segurar as pressões do outro lado, de seus chefes palestinos, entre eles, seu próprio tio, dono da emissora.

Sob o véu dessa comédia, perpassam todas as questões irresolvidas entre árabes e judeus, cujas semelhanças entre si saltam aos olhos. Não é fácil fazer comédia sobre temas tão carregados de tensões e ressentimentos e Zoabi se sai bem na arriscada tentativa e, por trás dos clichês que trazem os risos, faz pensar.

Autoficção argentina

Estreando como roteirista e diretora, a argentina Romina Paula coloca em primeiro plano sua crise pessoal em De Novo Outra Vez. Seus temas são a maternidade, um relacionamento amoroso pendente e suas relações com amigos e com a mãe, de origem alemã, com quem ela está novamente morando, temporariamente, em Buenos Aires.

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Em tom confessional, a diretora se coloca como personagem deste docudrama, que retrata a crise existencial de mulheres como ela, no limiar dos 30 anos. Há vários momentos cômicos nesta jornada de auto-indagações e incertezas, que não deixa se soar um pouco adolescente. Em um determinado momento, perde-se um pouco o ritmo de um diálogo um tanto autocentrado, que poderia disparar um pouco mais em outras direções.

Clássicos

Entre as muitas atrações da mostra Olhares Clássicos, uma descoberta foi a o drama experimental japonês O Funeral das Rosas (1969), estreia do realizador Toshio Matsumoto, que explora diversas linguagens para retratar, de forma pioneira, questões ligadas à identidade trans. Sua protagonista é Eddie (Peter), jovem artista de um cabaré, envolvida numa história familiar turbulenta.

Em vários momentos, o filme explora superposições de imagens e os bastidores da filmagem, rompendo a barreira entre realidade e encenação - sem deixar de fazer diversas referências à cultura ocidental, de Che Guevara a Édipo-rei. O diretor Matsumoto, aliás, fará parte de uma retrospectiva do cinema japonês no Instituto Moreira Salles de São Paulo e do Rio de Janeiro. Merece uma descoberta ou redescoberta.

Fora disso, foi muito instigante descobrir o trabalho da pioneira francesa Germaine Dulac (1882-1942), uma precursora do surrealismo que atuou na época da transição do cinema mudo para o sonoro. Em trabalhos como o média O Cigarro (1919), é possível observar um pouco do domínio de linguagem de Germaine, ao montar um melodrama encharcado de paixão e ciúme, em torno de um casal formado por um diretor de museu madurão e sua jovem e extrovertida esposa.

O mesmo domínio se observa em seus curtas, Danças Espanholas (um precursor dos videoclipes) e Aqueles que se Fazem, ambos de 1930, em que, como no média O Cigarro, se faz sentir o ponto de vista feminino. A 8a edição do Olhar de Cinema, aliás, está sendo intensamente feminina, com seu grande número de trabalhos assinados por realizadoras. 


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