Olhar de Cinema 2019

Documentários em Curitiba estimulam a empatia por personagens miúdos

Neusa Barbosa, de Curitiba

Curitiba A palavra-chave da programação deste domingo (9) no Olhar de Cinema foi empatia. Despertar este sentimento de compreensão e solidariedade, sem abrir mão de uma análise crítica, foi a tônica de pelo menos três atrações de ontem na competição: o documentário brasileiro Chão (foto), de Camila Freitas, o documentário mexicano-americano Família da Madrugada, de Luke Lorentzen, e o curta de ficção mineiro Sete Anos em Maio, de Affonso Uchôa.
 

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Mais um filme dirigido por uma mulher, numa programação, este ano, que destacou o trabalho de muitas outras - marca distintiva da seleção 2019 em Curitiba -, Chão acompanha o cotidiano de um grupo de sem-terra em Goiás em suas movimentações de ocupação, disputa legal e trabalho para conquistar novos territórios para assentados. Tomando claramente o partido destes despossuídos, Camila Freitas elege alguns personagens, como a “Vó” e “PC”, para ilustrar um processo de tomada de consciência e mobilização que se ergue diante de uma sociedade social desigual e altamente injusta, como a brasileira.

Claramente, a diretora quer que seus espectadores enxerguem o ponto de vista destes sem-terra, que se observa sempre de longe e a partir de um filtro enviesado de coberturas de imprensa superficiais, quando não comprometidas - ou seja, com lado. Chão também tem lado ao oferecer a palavra a estas pessoas. Quem assiste que as ouça e tire suas próprias conclusões.

Lotada e com diversos personagens do filme, a sessão de ontem, no Itaú Crystal 3, foi movimentada por palmas, palavras de ordem e gritos de “Lula Livre”. O filme será exibido novamente amanhã (11), às 15h15, no mesmo Itaú Crystal 3.

Ambulância desvairada

Exibido no Festival de Sundance e premiado nos de Guadalajara e Calgary, o documentário Família na Madrugada, de Luke Lorentzen, retrata uma dramática situação mexicana: a das ambulâncias privadas, que suprem uma impressionante falta destes veículos para atendimento na Cidade do México (onde, segundo números citados pelo filme, existem apenas 45 ambulâncias públicas para 9 milhões de pessoas).

ASSISTA AO TRAILER DE FAMÍLIA NA MADRUGADA

Lorentzen acompanha de perto o trabalho cotidiano de uma destas ambulâncias particulares, negócio que mantém a família Ochoa - um clã formado por quatro homens, sempre acompanhados pelo menino da família, Josué, um passageiro inusitado a bordo destas jornadas aceleradas e de alto risco.

O trabalho dos Ochoa, mesmo essencial, é precário - eles não têm horário de trabalho, contrato nem qualquer garantia. Também tem comprometimentos éticos, afinal, eles manipulam a extrema necessidade dos “clientes”, vítimas de acidentes, para extrair deles seu pagamento - além de convencê-los a ir para um hospital privado do qual ganham uma comissão.

Equilibrando-se nesta corda bamba, o diretor do documentário consegue ser honesto com seus personagens, seus dilemas e suas falhas, sem satanizá-los, expondo a verdadeira questão, que é seu contexto social e político. Assim, o filme cresce muito e foi uma das boas surpresas da programação. Uma nova sessão está marcada para hoje, às 17h, no Cineplex Novo Batel 5.
 
Violência policial

Dentro da mostra competitiva de curtas, o destaque foi Sete Anos em Maio, de Affonso Uchoa - o diretor premiado em Brasília pelo longa Arábia, em que dividiu a direção com João Dumans (aqui seu parceiro na montagem).

Mesmo sendo um curta, o filme de Uchoa, mais uma vez filmado na região de Contagem (MG), percorre um arco surpreendentemente denso ao focalizar personagens miúdos, abatidos pela pobreza e pela violência policial. A força do filme está nos relatos dos próprios personagens, revivendo acontecimentos absolutamente insuportáveis - também uma vertiginosa queda no mundo da dependência química - e termina de um modo simbolicamente poético, que eleva em muito o patamar do filme.


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