Olhar de Cinema 2019

O esplendor e a desconfiança do feminino em "A Portuguesa" e "Naomi Campbel"

Neusa Barbosa, de Curitiba

CuritibaEntre as Exibições Especiais desta edição, certamente uma das mais notáveis é a do filme A Portuguesa, da realizadora lusitana Rita Azevedo Gomes - uma das veteranas de estilo mais elegante do cinema de Portugal e que está em Curitiba como membro do júri internacional.
 
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O ponto de partida é uma poética adaptação, a cargo da escritora Agustina Bessa-Luís - falecida há dias - da novela homônima do austríaco Robert Musil (1880-1942). Com aquele estilo todo seu, Agustina, que foi uma parceira habitual do mestre Manoel de Oliveira, construiu diálogos intensos e belos para construir a narrativa em torno da “portuguesa” (Clara Riedenstein), como é simplesmente chamada a jovem esposa do lorde van Ketten (Marcelo Urgeghe).
 
Ambientado no período medieval, o filme é um primor de direção de arte, tendo na fotografia de Acácio de Almeida um aliado poderoso para a precisão da composição de ambientes. Toda esta moldura estética está a serviço de uma obra que consegue, no devido tempo, invocar a vida pulsante por trás de todas as convenções de época, trazendo à lua uma instigante discussão sobre os conflitos dos mundos feminino e masculino segundo os valores de então, mas trazendo este atrito para a contemporaneidade de maneira sutil.
 
A satanização do feminino divergente, comparado à bruxaria - a jovem portuguesa é tida como herética e feiticeira - é um dos temas que saltam desta elegante adaptação, que tem a vantagem de trazer ao Brasil parte da obra desta realizadora consagrada. Na próxima semana, será possível ao público paulistano conhecer mais de sua obra, a partir de uma anunciada retrospectiva de seus filmes no Centro Cultural São Paulo, entre 13 e 18 de junho.
 
No mais, este elenco de A Portuguesa é recheado de surpresas, como a participação do também cineasta francês Pierre León e da atriz alemã Ingrid Caven - habituê dos filmes de Rainer Werner Fassbinder e sua ex-mulher -, que canta em várias línguas e funciona como uma espécie de coro, anjo e contraponto atemporal que adiciona camadas à trama.
 

Realidade trans

Na sessão Foco, um destaque é a diretora chilena Camila José Donoso, também presente em Curitiba, e que ontem apresentou seu documentário Naomi Campbel (2013), em que desdobra parte da trajetória de Paula Yérmen Dinamarca - uma transexual em busca de uma operação de mudança de sexo. Ao longo da carreira de Camila, aliás, Yérmen tornou-se uma presença constante em seus filmes. Aqui ela funciona também como co-diretora, numa cumplicidade da exposição de sua própria intimidade que só assim seria possível.

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Apesar da diferença de época deste filme e da história de A Portuguesa, a feminilidade distinta de Yérmen é ígualmente vista com desconfiança por alguns de seus vizinhos, no bairro popular onde mora, ainda mais porque ela é assumidamente chegada ao sincretismo religioso - tem um altarzinho em que mistura várias devoções em sua casa e trabalha num portal de tarô, dando consultas esotéricas por telefone.

Trabalho de gerações

Na mostra Outros Olhares, o documentário francês Cinzas e Brasas, da diretora Manon Ott, coloca em foco o desmonte de um ambiente operário, fixando-se em Les Mureaux, periferia parisiense, cujos moradores, em sua esmagadora maioria, são imigrantes africanos e seus descendentes.
 
Os pais vieram especialmente a partir das décadas de 1950 e 1960, para suprir as vagas, na época abundantes, das linhas de montagem da fábrica da Renault que fica ali. A eles, não foi oferecida a oportunidade de escolarização de que seus filhos, cidadãos franceses, puderam dispor. No entanto, a acelerada desindustrialização da economia encolheu a fábrica e as oportunidades de trabalho. Hoje, estas novas gerações contnuam discriminadas e fora do alcance das benesses, não tendo oportunidades fora de um mercado de trabalho cada dia mais precário. Ainda que não aprofunde devidamente o imenso material que sua anunciada pesquisa acadêmica encontrou, o filme de Manon Ott coloca o dedo numa ferida que é mundial.

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