Olhar de Cinema 2019

Histórias de família, de ruas e clássicos marcam a programação em Curitiba

Neusa Barbosa, de Curitiba

CuritibaO  segundo dia da competição no Olhar de Cinema passou pela alta voltagem emocional de Casa, um documentário profundamente pessoal da diretora baiana Letícia Simões, revisitando suas relações familiares com a mãe e a avó.

Diretora de filmes intimistas, calcados na literatura - como O Chalé é uma Vida Batida de Vento e Chuva (2018) -, Letícia envereda com coragem neste entremeado de lembranças, rancores e afetos que perpassa suas ligações com a mãe, Heliana, que sofre de depressão e bipolaridade, e a avó, Carmelita. É um filme de momentos, explosões, conciliações, que percorre em ondas, como um fluxo de vida, mantendo sua vitalidade ao seguir estas conversas, não raro doídas, algumas exasperantes, tecendo o fio desta família toda feminina - os homens nunca são vistos, exceto em fotos, e constantemente mencionados nos relatos e cartas, material privilegiado para a construção desta narrativa.

O filme tem nova sessão hoje (8), às 14h15, no Cineplex Novo Batel  4.

Deserto existencial

Na mostra Olhares Clássicos, o grande destaque do dia foi A Longa Caminhada (1971), longa de estreia solo do diretor britânico Nicolas Roeg, que morreu em 2018. Também um experimentado diretor de fotografia, Roeg impõe um ritmo seguro a imagens poderosas de uma desértica vastidão interiorana da Austrália para situar este ambiente como cenário de uma jornada de sobrevivência e autodescoberta para três personagens: dois irmãos brancos ingleses (Jenny Agutter e o pequeno Luc Roeg, filho do diretor) e um adolescente nativo (David Gulpilil, em sua estreia no cinema, que depois faria Crocodilo Dundee e Geração Roubada).

A própria impossibilidade de comunicação verbal entre os dois ingleses - que perderam o pai em circunstâncias trágicas - e o aborígene permite à história fazer uma afirmação sobre o colonialismo, além de construir-se em torno de situações visuais, interações com a natureza e muitos olhares construindo os climas que se sucedem em sua convivência, permeada de tensões sexuais entre a garota inglesa e o adolescente australiano.

É impressionante a potência do filme de Roeg para refletir sobre a violência do processo dito civilizatório, a destruição da natureza em nome do progresso e a renúncia a uma primitiva vida idílica em favor de uma construção de vida social que implica em profundas repressões.

Muito instigante, o filme tem nova exibição hoje (8), às 18h45, no Cineplex Novo Batel 4.

Vozes da Índia

ASSISTA AO TRAILER DE LEVANDO DOCES AO CAVALO

Na mostra Novos Olhares, um sopro de vida intenso circulou pelo filme indiano sob o curioso nome Levando Doces ao Cavalo, da diretora Anamika Haksar - que veio apresentar pessoalmente sua obra na noite de ontem.
Diretora teatral e dramaturga, Anamika fez sua estreia cinematográfica com este filme extremamente polifônico, em que ela mistura atores veteranos e amadores, reconstituindo o universo de moradores empobrecidos da vela Délhi. São batedores de carteiras, camelôs, catadores de lixo, militantes políticos e guias turísticos improvisados que percorrem as ruas atulhadas e tortas desta cidade imensa, marcada tanto por uma extrema carência material e sujeira quanto por um colorido todo próprio e um humor e solidariedade peculiares.
 
Em sua fala antecedendo o filme, a diretora destacou que sonhava apresentá-lo na América Latina e manifestou-se marcada tanto pela literatura quanto pela política brasileiras. Não é tão simples decifrar estas interrelações que ela declara, mas é possível enxergar um indiscutível parentesco desta obra com os favela movies brasileiros, como Cidade de Deus - cuja influência pelo mundo nunca deve ser subestimada.
 
A diretora indiana, no entanto, enveredou por uma experimentação visual muito própria, intercalando suas imagens realistas com efeitos especiais, sobreposições de imagens e o uso de animação, delimitando também um território de fantasia e espiritualidade a mesclar-se com os expedientes não raro duros e cruéis do exasperante cotidiano destes personagens desassistidos - os únicos representantes do Estado vistos em cena são policiais que ali estão para reprimi-los, ainda quando não há motivo para isto.
 
O filme é exibido novamente na próxima terça (11), às 14h15, no cine Itaú Cristal 1.

Revendo Ruiz

Dentro da retrospectiva parcial dedicada ao chileno Raul Ruiz, uma atração foi A Vocação Suspensa (1977). Inspira-se livremente no romance do francês Pierre Klossovski, retratando os dilemas de um abade para produzir um relatório sobre situações controversas dentro de um convento. O relato, no entanto, é dividido em dois filmes dentro do filme, um em preto-e-branco, outro colorido, explorando redes de intrigas e poder dentro da Igreja que remetem a movimentos políticos.

Como sempre nos filmes de Ruiz, invoca-se a criação de um universo paralelo, em que a fantasia e o absurdo se infiltram sem rodeios, com um sentido de humor anárquico que não raro lembra Luis Buñuel - que, não por acaso, dedicou alguns de seus maiores petardos cinematográficos também à Igreja Católica. Ao final desta jornada, o espectador sente-se, não raro, com a inquietante sensação de que trafegou por um país desconhecido e não domina o todo o sentido das paisagens que descortinou.


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