Olhar de Cinema 2019

Competição em Curitiba começa com documentário sobre dependentes químicos"

Neusa Barbosa, de Curitiba

Curitiba - A competição no 8º. Olhar de Cinema começou nesta quinta (6) com o longa documental brasileiro Diga a Ela que me Viu Chorar, de Maíra Bühler (SP), que apresenta personagens atendidos por um projeto social, entre agosto de 2016 e janeiro de 2017, na cidade de São Paulo.
 
ASSISTA AO TRAILER DE DIGA A ELA QUE ME VIU CHORAR
 
São dependentes químicos de crack que, naquela época, foram beneficiados por uma abordagem mais humana de seu problema, a operação Braços Abertos, proporcionando moradia e atendimento social e médico.
 
O documentário tem o mérito de colocar em evidência essas pessoas, que normalmente são invisíveis ou, quando focalizadas, nunca têm sua humanidade reconhecida o suficiente. Aqui, não. São tratados como gente, ouvidos em suas queixas e com seus relacionamentos afetivos postos em primeiro plano. Também fica muito claro o quanto é complicado manter essas relações diante do turbilhão emocional de todos eles. O cotidiano deste hotel, também levando em conta a dificuldade das mediações impostas a assistentes sociais e outros atendentes, é simplesmente avassalador.
 
O filme tem sua força, sem dúvida, nesta exposição de uma situação que tornou-se ainda mais dramática quando sabemos, no final, que o projeto foi simplesmente descontinuado pela administração municipal. Durante 20 meses, 105 pessoas passaram por ali. Hoje, estão novamente nas ruas, como todas as sequelas físicas e emocionais. Isto, sim, é aterrador.
O filme tem sua segunda sessão hoje (7), às 14h15, no Cineplex Novo Batel 4.
 
Outros olhares
 
Nesta mostra, uma das boas atrações de ontem foi outro documentário, também dirigido por uma mulher: o mexicano Uma Corrente Selvagem, de Nuria Ibáñez Castañeda. Com extrema delicadeza, ela se aproxima do cotidiano de dois pescadores, homens simples e maduros, que vivem num local isolado e mantêm um relacionamento cheio de afeto e de silêncios. A natureza à sua volta e suas conversas noturnas e cúmplices são o que há de melhor neste filme que resume, como poucos, a universalidade das experiências humanas. Ele terá uma nova exibição dentro da programação na próxima segunda (11), às 14h30, no cine Itaú Cristal 2.
 
Ainda um outro documentário, No Salão Jolie, de Rosine Mbakam, nos coloca no centro da dramática experiência dos imigrantes ilegais africanos hoje na Europa. A protagonista é a cabeleireira camaronesa Sabine, que vive há 7 anos na Bélgica e ainda não conseguiu regularizar sua situação junto às autoridades, apesar de sucessivas tentativas.
 
Como a diretora deste filme, uma produção belga, optou por não sair do salão, não indo, por exemplo, à casa da cabeleireira, a experiência é um tanto claustrofóbica - o que pode ser proposital, imitando o sentimento da própria cabeleireira, cuja vida está empacada neste impasse. Ela é extremamente simpática, calorosa, ativa e mantém diversas interações, tanto com suas clientes, quanto com outros imigrantes africanos, que são seus fornecedores ou amigos. Há algo de brasileiro nesta informalidade e simpatia africana, como não podemos deixar de notar, assim como o sofrimento implícito destes deslocados da Terra, que não têm como viver em seus próprios países de origens, onde deixaram raízes e familiares, e são discriminados nestes países de adoção. O filme passa de novo no domingo (9), às 18h15, no Cineplex Novo Batel 4.
 
Finalmente, o título mais exigente da seleção foi a produção belgo-norueguesa Segunda Vez, de Dora García, prêmio do júri no FID Marseille, que retoma happenings do psicanalista argentino Oscar Masotta nos anos 1960 para criar experimentos formais. Não é um filme simples nem de assistir, nem de definir. Mas é preciso que os espectadores estejam preparados para perder o chão diante das situações a que são submetidos os personagens em cena, numa biblioteca, ao ar livre, num prédio, que têm ligações com a ideia de performance e com diversas outras linguagens. O filme passa novamente na programação na terça (11), 17h, no Itaú Cristal 1.

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