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Crítica Cineweb

26/02/2004

Com sua reconhecida atração pela mitologia dos anjos caídos, o diretor Neil Jordan mergulhou nesta refilmagem de uma produção francesa de 1955 (Bob le Flambeur, de Jean-Pierre Melville). Construiu a história de um jogador e ladrão decadente e viciado em heroína, escalando como intérprete um Nick Nolte que é a mais exata expressão física que um personagem assim destroçado poderia encontrar. Mas, apesar de todas estas vantagens iniciais, nada funciona aqui, o que é um choque, em se tratando de um diretor com tantos recursos como Jordan.

Bob (Nolte) é um americano com a identidade partida. Filho de uma francesa (ou assim ele diz, não se sabe ao certo), vive em Nice, jogado numa vida sem motivações. Afundado em seu vazio e no vício da heroína, é convidado para voltar à ativa como ladrão. Desta vez, num golpe bem grande - roubar os preciosos quadros de um cassino em Monte Carlo. Não é empreitada simples. Bob precisa não só driblar sua própria fragilidade nesta altura da vida, bem como recalibrar seus instintos e enganar seus perseguidores - um dos mais atentos, o policial Roger (Tchéky Karyo), que mais parece seu anjo da guarda no empenho em evitar que Bob reincida no crime.

Com a conta bancária esgotada, Bob tem poucas opções. Mergulha numa angustiante desintoxicação, tomando a providência de algemar-se à própria cama antes de começar - um processo em que é possível enxergar nitidamente a total entrega ao papel de Nolte, com uma história pessoal de idas e vindas na dependência de drogas. Para que a trama funcione, ele precisa da relativa solidariedade de seus poucos íntimos, os jovens Paulo (Said Taghaqui) e Anne (Nutsa Kukhianidze). Como o golpe do cassino exige sofisticação, ele chama parceiros especializados, como o expert em segurança eletrônica Vladimer (Emir Kusturica, fazendo graça como apaixonado pelos solos de guitarra de Jimmi Hendrix). Ralph Fiennes faz uma ponta como receptador de quadros roubados.

Para que a história funcionasse nos termos propostos por Jordan, ela teria que atingir um equilíbrio entre gravidade e ironia que jamais alcança. Resta um filme em ziguezague, desorientado e sem alma. Nada parecido com os melhores trabalhos do diretor, como Mona Lisa (1986), Traídos pelo Desejo (1992), Nó na Garganta (1997) e Fim de Caso (1999).

Neusa Barbosa


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