O Vestido

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Crítica Cineweb

10/05/2004

Inspirado em um famoso poema de Carlos Drummond de Andrade, Caso do Vestido, não é impossível notar que há uma idéia até interessante perdida em algum lugar no roteiro confuso e mal-resolvido do longa O Vestido, de Paulo Thiago. Partindo de uma idéia instigante, o filme envereda por caminhos tão mal-traçados que vai acabar na mesma prateleira de outras produções brasileiras recentes, como Dom e A Cartomante.

Misturando linguagem poética e coloquial, não há um diálogo que não soe falso. Roteiro de cinema é uma coisa e poesia é outra. Quando o poeta usa em sua obra o vocativo "Nossa mãe" e o repete em todo o poema, isso é um recurso de estilo, que nas mãos de Drummond é eficiente. No entanto, quando as meninas dizem a todo momento no filme "Nossa mãe" fica estranho e soa mal.

A "nossa mãe" é Ângela (Ana Beatriz Nogueira), uma mulher de família e professora, que mergulha em um pesadelo quando o marido (Leonardo Vieira) a abandona para ficar como uma aventureira. No filme e no poema ela é Bárbara (Gabriela Duarte), conhecida como "a dona que veio de longe". A recordação que a remete a tal desgraça é um vestido que ganhou de presente do marido, mas deu para a outra, que acreditava ser sua amiga. O marido, meio que enfeitiçado mais pelo vestido do que pela "dona que veio de longe", abandona o lar. Essa história é contada para as filhas, que vão descobrindo como o casamento dos pais terminou.

No entanto, na segunda metade do filme, Ângela esclarece às filhas como o pai caiu em desgraça quando, junto com sua nova mulher, foi para um garimpo. O recurso usado pelos roteiristas para que a mulher tenha acesso a esse relato é fazer com que o diário de Bárbara chegue até suas mãos. Essa idéia até que funciona, mas o grande problema é pensar qual mãe leria para as filhas pequenas o diário da amante do pai com direito a descrição de tórridas cenas de sexo?

Não só há problemas narrativos no roteiro como erros de português. Não que todas os brasileiros falem impecavelmente, mas se a personagem de Ana Beatriz é conhecida como a melhor professora da cidade, não é admissível que ela fale "Não haviam novas provas", por exemplo. Nem mesmo que Bárbara, supostamente uma moça culta da cidade, escreva no diário que "fazem três meses". Além disso há pérolas da semântica que corrompem qualquer lógica entre as frases que Bárbara escreve em seu diário. Talvez o melhor momento seja quando ela diz que "o ciúmes (sic) envenenou meu coração como um vírus".

No material para a imprensa, o diretor assume que pretendia fazer um melodrama e por isso mesmo pediu que seus atores fossem teatrais e exagerados, devendo recitar um diálogo poético ao invés de uma fala natural. Essa é uma das escolhas erradas feitas pelo diretor, pois nenhum de seus atores tem força dramática suficiente para declamar um texto e fazer-se convincente.

Uma das melhores atrizes do cinema brasileiro, Ana Beatriz, está mal escalada. Ela é matrona demais para a sua personagem. É difícil olhar para ela, uma mulher decidida, forte, e pensar que se humilharia tanto por um marido. Mas, em termos de elenco, Gabriela Duarte é quem está mais fora da personagem. Sua Bárbara é um amontoado de clichês televisivos de moça moderna da cidade que causa frissom nos homens da cidade pequena e ódio nas mulheres.

Outra dúvida que persiste no filme é saber como o tal vestido do título, feito sob medida para Ana Beatriz, sirva como uma luva no corpo de Gabriela Duarte, que é bem mais miúda. Mas esse é um dos menores problemas de todo o longa.

Possivelmente quando o cineasta Paulo Thiago fez O Vestido tivesse em mente a frase do tio comunista que aparece no filme: "De onde menos se espera é que não sai coisa nenhuma".

Alysson Oliveira


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