Nossa música

Ficha técnica

  • Nome: Nossa música
  • Nome Original: Notre musique
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: França
  • Ano de produção: 2004
  • Gênero: Drama
  • Duração: 80 min
  • Classificação: Livre
  • Direção:
  • Elenco:

País


Sinopse

Neste novo e belo manifesto poético de Godard, os temas são a crônica incapacidade humana de construir a paz e a insaciável busca de elaborar novos sentidos para a vida humana.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

21/01/2005

Godard toca uma sinfonia que fala da condição humana e de sua crônica incapacidade de criar a paz neste filme sublime, marcado por um equilíbrio excepcional entre um fiapo de narrativa - fluida, como é seu estilo - e citações de toda ordem, encaixando-se como peças de um mosaico poético, triste, profundo, vital.

Rendendo homenagem à Divina Comédia, o cineasta monta o filme em três momentos, que ele denomina de "reinos": inferno, purgatório e paraíso. O primeiro é curto e introduz perfeitamente o núcleo de seu tema, ao mostrar sucessivas imagens de massacres de guerra, reais ou retiradas de filmes (como O Encouraçado Potenkim e Alexandre Nevsky, de Eisenstein), desvelando o horror sem meios-tons.

A estação seguinte, o purgatório, é a mais longa. Escolhe como cenário a Sarajevo em reconstrução, agora palco de uma conferência literária internacional. A cidade que ressurge das cinzas de uma das mais sangrentas guerras civis do século XX, reerguendo seus prédios em tons de intenso colorido, é vista como um lugar onde a reconciliação é ainda possível. Esta é, ao menos, a opinião da personagem Judith Lerner (Sarah Adler), uma jovem jornalista judia, inquieta pelo conflito perpétuo entre árabes e judeus no Oriente Médio. Na entrevista que ela faz com o escritor palestino Mahmoud Darwich, emerge a identificação desse povo com os troianos. Tróia, como lembra o escritor, não tinha poetas e assim perdeu-se o ponto de vista dos derrotados, que só foram lembrados através dos relatos dos vencedores gregos, como Eurípides. Os palestinos são os troianos de nossos dias.

Mais do que uma exibição vazia de erudição, o filme alinha momentos como esse, além de imagens de peles-vermelhas - recordando o massacre dos nativos da América do Norte - para construir um denso painel sobre a incapacidade humana de construir a paz - e, ironicamente, sua estupenda competência para articular relatos artísticos, literários ou musicais, sobre a dor básica da condição humana.

Não que o cético Godard deposite tanta fé assim no poder dos artistas. Os diálogos lembram também que os escritores nunca sabem muito bem do que falam. Homero seria apenas um poeta cego que, por tédio talvez, teria escrito os épicos relatos da guerra entre gregos e troianos que ele nunca vivenciou. Viver é uma coisa, escrever, outra, talvez necessariamente intercambiáveis, mas nunca simultâneas.

O terceiro momento, o paraíso, é destinado a Olga Brodsky (Nade Dieu), outra personagem atormentada pelo conflito entre palestinos e judeus, mas predisposta ao auto-sacrifício desde o princípio. Apenas para encontrar um paraíso ambientado numa ilha arborizada, guardada por fuzileiros americanos em que há sol mas este não ilumina Olga.

O próprio Godard aparece em Sarajevo, como convidado da conferência, falando de cinema a jovens. Se mostra sua sagacidade ao traçar eficientes parábolas cinematográficas, como ao dizer que, na criação do Estado judeu em 1948, os palestinos se tornaram material de ficção enquanto os judeus se tornaram o documentário, fica em silêncio quando jovens bósnios lhe perguntam se as câmeras digitais salvarão o cinema. Uma atitude muito coerente de quem, como ele, não acredita que se deva ter sempre prontas todas as respostas.

Neusa Barbosa


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