O Lenhador

Ficha técnica


País


Sinopse

Drama que expõe a tentativa de um ex-pedófilo saindo da prisão (Kevin Bacon) de reintegrar-se à vida normal. Além de procurar encarar seu problema de frente, tem de conviver com a rejeição da família e não pode contar o que fez aos colegas do trabalho.


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Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

24/02/2005

No mínimo, este é um filme corajoso. Não é todo dia que uma diretora estreante – Nicole Kassell - resolve abordar um tema tão antipático – a pedofilia - , de um ângulo que não passa pela condenação pura e simples. Compreensivelmente, despertará uma polêmica saudável.

Se há um mérito neste roteiro (de Nicole e Steven Fechter, autor da peça original) é a honestidade. Nunca se atenua o crime de Walter (Kevin Bacon), homem que cumpriu pena de 12 anos de prisão por abuso sexual contra duas menores. Acompanha-se o momento de reintegração à vida, cumprindo liberdade condicional. A câmera se coloca dentro de sua pele, partilhando sua angústia diante desse mundo novo e ameaçador. As frágeis relações humanas que ele consegue pouco a pouco articular no seu emprego numa serraria correm o risco de transformar-se em rejeição e ódio se algum dos colegas descobrir o que ele fez. E há gente tentando descobrir.

Numa interpretação na chave exata de contenção, Kevin Bacon transmite perfeitamente a dualidade do personagem. Morando exatamente em frente a uma escola primária, ele ainda sente um bocado a pulsão que o levou ao crime. Está procurando entendê-la e até superá-la, com a ajuda de um terapeuta e de sua namorada, uma colega de trabalho (Kyra Sedwick, mulher de Bacon na vida real). Mas não há piedade para Walter da parte do policial que supervisiona sua condicional (Mos Def), com quem o espectador ao menos uma vez é tentado a solidarizar-se – quando ele conta a Walter o que costuma ver no seu aterrorizante dia-a-dia.

Nesta conversa, o policial intolerante se humaniza, da mesma maneira como antes acontecera ao protagonista. Esta dimensão humana complexa que reveste todos os personagens solidifica a textura do filme, que dá muito o que pensar. A sugestão talvez mais inquietante deste bom drama é o quanto as crianças modernas estão sendo levadas, cada vez mais cedo, a desconfiar dos adultos, mesmo dos que lhes são próximos. A cena dilacerante entre uma menina de 11 anos (Hannah Pilkes) e Walter evoca a trágica impossibilidade desta criança de desfrutar sem medo da intimidade com o próprio pai. A inocência perdida revelada no choro da menina e seu inesperado alívio na conversa com o ex-pedófilo (ali fazendo um severo teste de autocontrole) é um dos momentos mais fortes do filme – que tem, aliás, o mérito de tratar o assunto da pedofilia com rara franqueza, escancarando o seu aspecto mais polêmico: o fato de que existe em famílias ditas respeitáveis, onde não raro é assunto varrido para debaixo do tapete.

Neusa Barbosa


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