A Intérprete

Ficha técnica


País


Sinopse

Silvia (Nicole Kidman) é uma africana que mora nos EUA e trabalha como intérprete na ONU. Acidentalmente, ela ouve um plano para matar um líder político e pede ajuda para o FBI. O agente Keller (Sean Penn) começa a duvidar da veracidade do que ela ouviu.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/04/2005

O subtema do thriller político A Intérprete mantém um curioso diálogo com o que o escritor britânico George Orwell (1984, A Revolução dos Bichos) explorou muito em sua obra: a linguagem como uma ferramenta de dominação – não apenas cultural, mas também econômica. O filme se passa em sua maior parte no prédio da ONU em Nova York, onde há chefes de estado de diversas nações e tradutores especialistas nas mais exóticas línguas (até mesmo na fictícia Khu). No entanto, quando é preciso tomar o depoimento de um faxineiro português, entra em cena uma intérprete francesa que pouco entende a outra língua.

Ingenuidade da ONU? Ingenuidade do filme? Não, nem um, nem outro. O fato é que no momento em que o filme se passa, Portugal, Brasil ou qualquer outro país de língua portuguesa não têm nenhuma importância política ou econômica para a ONU (ou seja, não é preciso agradá-los). Por isso, representantes destes países que se virem com traduções em inglês ou francês.

É mais provável que todo esse imbróglio nem seja intencional no filme. Porém, mais uma vez, isso tudo reflete a opinião globalizada de que quem não fala inglês não se comunica neste mundo. Algo bem parecido também é explorado em Filme Falado (que coincidentemente entra em cartaz em São Paulo no mesmo dia que este), do português Manuel de Oliveira, que coloca conversando num navio um americano, uma francesa, uma italiana e uma grega. Esta lamenta que, por um voto, o grego não se tornou a língua oficial dos EUA. Se isto tivesse acontecido, agora o mundo todo falaria grego.

Em A Intérprete, Nicole Kidman é Silvia, uma tradutora da ONU especializada em Khu. Ela nasceu na África, morou na Europa e consegue falar bem várias línguas. Uma noite, quando volta à cabine dos tradutores, por acaso ouve nos equipamentos um sussurro em Khu que ‘o Professor não sairá daqui vivo’. Com a assistência do agente Keller (Sean Penn), descobre-se que existe um plano para matar um líder africano enquanto ele faz um discurso na ONU.

Um terço do filme serve para Silvia convencer Keller de que o que ela ouviu procede. Muito da incerteza vem das sutilezas da linguagem. Ela diz que ouviu dizerem que queriam o Professor ‘gone’ – que pode ser tanto interpretado como ‘que ele fosse embora’, como ‘morto’. Mas ela tem certeza de que o querem morto. Outro terço do filme cabe à proteção de Silvia, pois, aparentemente, as mesmas pessoas que querem matar o líder vão matá-la. O último ato de A Intérprete cai num tenso jogo de gato e rato, no qual nem sempre os animais agem segundo a sua natureza.

As interpretações competentes e inspiradas da dupla central mantêm o nível de A Intérprete acima da média. Além disso, o diretor Sydney Pollack está bem mais à vontade nesse gênero (como em Três Dias do Condor) do que nas suas últimas incursões no romance, como o desastroso Sabrina e o chatíssimo Destinos Cruzados. Em A Intérprete, aliás, foi a primeira vez que uma equipe recebeu autorização para gravar no prédio da ONU. As filmagens foram feitas nos finais de semana.

Alysson Oliveira


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