O Homem que Amava as Mulheres

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Crítica Cineweb

21/09/2001

Assim como seu personagem Bertrand Morane, François Truffaut era um sedutor, embora não encarasse a conquista como um jogo mas sim como verdadeira paixão por ela. No singular O Homem que Amava as Mulheres, o diretor escancara seu fascínio por esse tipo de homem que, como Antoine Doinel, ama as mulheres, e exterioriza uma sensibilidade tocante.

Na primeira cena do filme, há um homem sendo sepultado e apenas mulheres, de todos os tipos, em torno de seu túmulo. Ele foi Bertrand Morane (Charles Denner), um engenheiro do Instituto de Estudos de Mecânica dos Fluidos que tinha verdadeira obsessão pelo sexo oposto. De suas inúmeras experiências, extraiu teorias bastante interessantes. Uma das mais divertidas é a classificação das mulheres em dois grupos: "haste longa", aquelas altas e magras, e "maçãzinha", as menores e mais encorpadas. Hipnotizado por um par de pernas femininas, Bertrand encontrou uma metáfora curiosa para esses membros que, segundo ele, eram "compassos que percorriam o globo terrestre em todas as direções, dando-lhe equilíbrio e harmonia".

Ter uma espécie de Don Juan como protagonista foi idéia de Michel Fermaud, velho conhecido de Truffaut e, como ele, um conquistador. O diretor pediu ao amigo que reunisse o maior número de anedotas sobre suas conquistas para transformá-las, mais tarde e com a ajuda de Suzanne Schiffman (a parceira que Truffaut chamava de "cúmplice", morta em agosto, aos 71 anos), no que seria um de seus melhores roteiros. O título da obra foi, durante muito tempo, O Conquistador (Le Cavaleur). Só mais tarde é que adotou-se, sabiamente, O Homem que Amava as Mulheres.

De fato, Bertrand é um conquistador, mas de Don Juan ele só tem a interminável lista de conquistas. Aos poucos, o personagem se mostra sensível a todas as suas experiências amorosas que, em forma de flashback, vão sendo reveladas ao espectador. Seu amor pela conquista, na verdade, é uma necessidade de se auto-afirmar e um terrível medo da solidão, que o fazem levar para casa alguém que mal conhece apenas para lhe fazer companhia.

Como a quase totalidade das obras de Truffaut, essa fita parece se tratar de mais uma história autobiográfica, a julgar pela epígrafe, extraída do livro La Forteresse vide, L´autisme Infantile et la Naissance de Soi, de Bruno Bettelheim, que diz: "Revelou-se que Joey nunca tivera muito sucesso junto à mãe". É provável que, dessa conturbada relação com a mãe, já retratada em Os Incompreendidos, provenha o amor pelas mulheres acima de tudo. E, no filme, Truffaut alfineta o assunto com a frase: "Minha mãe costumava andar seminua na minha frente, não para me provocar, mas para ter a impressão de que eu não existia".

Lançado em 1977, o filme foi sucesso de bilheteria mas padeceu sobre protestos das feministas que o consideraram "misógino e até machista". Barulho injusto, já que o filme apesar de parecer um gigantesco glossário de tipos femininos, é mais uma das brilhantes discussões de Truffaut sobre a harmonização das relações humanas.

Luara Oliveira


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