O Quarto Verde

Ficha técnica


País


Sinopse

Julien Davenne é um viúvo que guarda todos os objetos de sua mulher num quarto verde. Quando o cômodo pega fogo, ele decide restaurar uma capela para reverenciar a alma de sua amada. Ele acaba obcecado com a idéia de criar um culto a seus mortos.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

13/09/2005

Não há dúvida de que O Quarto Verde foi o filme mais pessoal do cineasta François Truffaut. Certa vez, o diretor declarou que “este filme é uma carta manuscrita. Quando escrevemos à mão, a carta pode não sair perfeita, a letra fica algo tremida, mas somos nós mesmos, nossa caligrafia”. Tamanha era a sua fixação pelo filme que ele acabou assumindo o papel principal quando o ator Charles Denner não o pôde fazer, por estar comprometido com outro filme. O que Truffaut queria, na verdade, era que não houvesse nada, nem ninguém entre ele e Julien Davenne, um homem obcecado pela idéia da morte, ou melhor, pelos seus mortos.

Com roteiro baseado na novela The Altar of the Dead [O Altar dos Mortos], do escritor inglês Henry James, o diretor deixa bem claro desde o começo qual é seu o tema: a importância dos mortos na vida dos vivos. Na primeira vez que vemos Davenne, ele vai até um funeral confortar um amigo desesperado que perdera a mulher. O personagem de Truffaut se solidariza com o outro, diz que já passou por essa mesma situação e até se enfurece quando um padre tenta confortar o viúvo dizendo clichês sobre a morte, o pecado original e a ressurreição. Davenne diz que o que seu amigo quer é que a mulher se levante agora e não daqui a mil anos.

Julien sobreviveu à Primeira Guerra sem um arranhão. Por isso, acabou ficando obcecado com a morte de seus amigos e especialmente de sua mulher, Julie, a quem se devota criando um quarto verde onde guarda todos os objetos que sobraram dela. A fixação que o personagem tem com a morte não pára por aí: ele é ainda uma das poucas pessoas que tem como trabalho escrever obituários.

Tentando resgatar o maior número possível de objetos de sua amada, Davenne vai a uma casa de leilões, onde acaba conhecendo Cecile (Nathalie Baye), que também sofreu uma grande perda em seu passado recente. De certa forma, a moça entra no jogo do viúvo de cultuar os mortos, à medida que esse culto vai se expandindo não apenas à sua mulher morta, mas também a todos os seus mortos. Com sua lógica de fanático, Julien professa que “os mortos pertencem a nós, contanto que concordemos em pertencer a eles”. E depois de um acidente, quando o quarto verde pega fogo, o viúvo se devota à restauração de uma capela, onde pretende cultuar todos os seus mortos.

Com a construção reerguida, ele a transforma naquilo a que chama de "uma floresta de chamas", acendendo uma vela para cada um de seus mortos, além de colocar a fotografia de todos eles. É nesse ponto, acima de tudo, onde o personagem, o ator e o realizador se fundem definitivamente. As fotos são de amigos e ídolos do próprio cineasta. Estão lá Cocteau, Queneau, Oscar Wilde, o próprio Henry James (um de seus escritores preferidos), e mesmo amigos vivos, como Oskar Werner e Jeanne Moreau (que trabalharam em Jules e Jim, a obra-prima de Truffaut).

O Quarto Verde serve, além de tudo, para iluminar aquelas obras consideradas mais leves do cineasta, como as comédias Beijos Proibidos e A Noite Americana. O próprio Truffaut sempre teve uma certa obsessão pela morte. Com esse filme, colocou para fora todos os fantasmas, metafórica e literalmente. De certa forma, o longa é uma espécie de parente de A História de Adèle H., em que ele mostra uma jovem obcecada por um amor proibido.

As belas imagens de Nestor Almendros, um constante colaborador do cineasta, são na tela as cores da dor e da perda. A primeira capela iluminada pela floresta de chamas ao som da do Concert Flamand, de Maurice Jaubert, causa, ao mesmo tempo, estranheza, assombro e compaixão. Assim como uma imagem, a mesma utilizada no pôster do filme, na qual vemos o rosto de Julien-Truffaut distorcido por um vidro canelado de uma porta, que mais lembra aquela figura aterrorizada de Munch.

Truffaut parece não querer que seu público tenha compaixão por Davenne, ou, sequer, compreenda as motivações do personagem – elas são ilógicas. Mas o cineasta busca, e consegue com competência, incomodar sua platéia. O Quarto Verde, sua proposta, suas imagens, suas cores e sons, ficam retidos na retina e na memória das pessoas por muito tempo. Assim como aqueles que se foram e ainda são amados.

Alysson Oliveira


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