Uma Relação Pornográfica

Ficha técnica

  • Nome: Uma Relação Pornográfica
  • Nome Original: Une Liaison Pornographique
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Luxemburgo
  • Ano de produção: 1999
  • Gênero: Drama
  • Duração: 81 min
  • Classificação: 14 anos
  • Direção: Frédéric Fonteyne
  • Elenco: Sergi López, Nathalie Baye

País


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

03/02/2003

O nome do filme é provocativo e isto faz parte de sua intenção. A partir daí, tudo na história constrói surpresas, embora o ponto de partida não seja nada original. Está aí o segredo: o que torna tão especial esta história é a forma como se coloca de modo novo diante de uma situação que o cinema e a literatura já exploraram à exaustão - mérito maior em se tratando de um marinheiro de segunda viagem como o cineasta belga Frédéric Fonteyne, de 32 anos. Com uma câmera ao mesmo tempo segura e delicada, ele consegue particularizar cada encontro de um casal (Nathalie Baye e Sergi López) sempre no mesmo cenário, um hotel de centro de uma grande cidade, e dar-lhe uma textura e uma densidade que evoluem a cada quadro.

Dois adultos de idade indefinida, eles iniciam seu relacionamento a partir de um contato numa seção de anúncios pessoais. Marcam o primeiro encontro num café e não revelam seus nomes nem detalhe algum de sua vida, na procura de criar uma relação sem memória, vivida unicamente num quarto de hotel. A omissão do passado e até do presente visa um relacionamento no ano zero, limitado ao prazer físico. Eles se vêem uma vez por semana e se despedem na rua, sem olhar para o lado em que o outro vai, procurando esquivar-se do risco do envolvimento romântico e do desgaste da convivência do dia-a-dia. Mas esta é apenas mais uma fantasia. Não há como manter a intimidade infinitamente à margem. De uma hora para outra, sem aviso, ambos se surpreendem esperando mais daquela situação, apesar do medo de que tudo que já contaminou outras relações antes venha a envenenar esta também.

Um dia, é ele quem sugere que os dois dividam um jantar antes de recolher-se ao hotel. Num outro, ela sugere que façam amor de um modo tradicional, o que acontece pela primeira vez desde que se conheceram. Numa outra noite, é o incidente em que ambos socorrem outro hóspede do hotel, levando-o ao hospital, que proporciona uma vivência extraordinária que ambos compartilham. De repente, emoções mais complexas dão substância a esta ligação que parecia mais leve do que o ar.

Com toda justiça premiada com o troféu de melhor atriz no Festival de Veneza/99 por este trabalho, a veterana intérprete francesa Nathalie Baye, de 49 anos, parece feita sob medida para o papel, uma variação sofisticada de outros personagens semelhantes, como o que viveu na comédia dramática Instituto de Beleza Vênus, exibido há pouco nas telas brasileiras. Atriz de talento temperado nas mãos de mestres franceses como François Truffaut (A Noite Americana), Jean-Luc Godard (Detetive) e Bertrand Tavernier (Une Semaine de Vacances), Nathalie personifica como poucas a situação-limite de uma mulher na fronteira da idade madura, saturada de experiências amorosas frustradas mas, ainda assim, disposta à conquista e ao romance. Poucas atrizes como ela entrariam no papel com tanta paixão sem esbarrar na menor nuance de vulgaridade. Nathalie conjuga o erotismo com elegância de um modo tão particular quanto o filme. A história lhe pertence de tal forma que fica difícil imaginar que poderia existir sem ela.

O discreto sotaque estrangeiro do espanhol Sergi López (visto no elenco de Entre as Pernas) sugere inadequações amorosas de outra ordem. Mas a sutileza do filme consiste apenas neste insinuar. Nada se revela sobre a vida particular dos dois protagonistas, deixando livre à imaginação tecer a sua biografia possível - um artifício que permite que cada espectador, à sua maneira, entre na pele de um e de outro, identificando-se com seus dilemas. De todo modo, é muito claro o foco narrativo nesta história. Não importa quem são este homem e esta mulher, interessa explorar essa fantasia de se é possível manter o sexo restrito dentro de seus próprios limites, sem nunca deixar surgir uma brecha que leve ao afeto. Um tema que pode parecer esgotado em teoria mas que o vivo interesse com que se acompanha cada detalhe deixa claro, justamente, que é tão eterno quanto suas inquietações.

Neusa Barbosa


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