Mistérios da Carne

Ficha técnica


País


Sinopse

Brian tem uma lacuna na sua infância. Não se lembra do que aconteceu por algumas horas quando era criança. A resposta pode estar em Neil, um jovem michê, de quem fora amigo. Traçando histórias paralelas, esse drama aborda temas aparentemente díspares, como UFOs e abuso sexual.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

07/12/2005

Desde suas primeiras imagens, em que círculos coloridos e fora de foco chovem lentamente ao fundo da tela – depois se descobrem ser cereais matinais –, Mistérios da Carne, do cineasta norte-americano Gregg Araki, se revela como um filme no qual as aparências enganam e explora um terreno perigoso.

Com roteiro do próprio diretor, baseado no livro de Scott Heim, Araki se aventura por um tema já abordado por outros diretores, mas com menos sofisticação e competência: a pedofilia. Longe do explícito e vazio de Larry Clark (Kids) ou da falta de esperanças de Todd Solondz (Felicidade), o cineasta ilumina alguns cantos obscuros do coração e da alma de seus personagens.

Ao contrário de Clark, Araki não busca chocar suas platéias mostrando cenas de sexo explícito e consumo de drogas. Ao contrário de Solondz, o diretor acredita na possibilidade da felicidade, da reconciliação, ou mesmo no ser humano. Dessa forma, seus personagens são muito mais próximos da vida real, com dores e alegrias que existem do outro lado da tela, e não apenas no faz-de-conta. O roteiro explora paralelamente a vida de dois jovens de quase vinte anos que têm uma experiência em comum no passado, embora não estejam cientes disso. Brian Lackey (Brady Corbet) tem uma lacuna em sua memória. Ele não consegue lembrar de um período de algumas horas em sua infância, quando sumiu e foi encontrado desmaiado, com o nariz sangrando.

Anos depois, acredita ter visto um disco voador e desde então pensa que fora abduzido por alienígenas. Essa experiência acaba por transformá-lo num rapaz tímido e retraído, com poucos amigos e obcecado por UFOs. Já o outro personagem é Neil McCormick (Joseph Gordon-Levitt) que quando pequeno teve um caso com o treinador do time de beisebol. Depois que cresceu, acabou se tornando um garoto de programa, conhecendo seus clientes, muitos deles pais de família, no playground da cidade.

A resposta para as questões de um pode ser guardada pelo outro. Mas Araki vai fazendo o retrato delicado e tocante dessas duas vidas até chegar na possibilidade de elucidar as dúvidas dos personagens. É interessante a forma como ele coloca a relação entre o pequeno Neil e o treinador. Existe uma cumplicidade entre os dois, que poderia ter sido explorada de forma sensacionalista por algum diretor com menos sensibilidade.

A montagem tem um papel importante, uma vez que existe uma cena de consumação de pedofilia sem que agressor e vítima sequer estejam no mesmo frame. Apenas a ilusão do cinema ‘engana’ a platéia com a aparência de que algo realmente está acontecendo. Algo parecido com o que Hitchcock faz usando uma faca e Janeth Leigh em Psicose.

Com Mistérios da Carne, Araki – que participou da Mostra duas vezes, com Splendor (99) e Geração Maldita (95) – ressoa o filme mais recente de Pedro Almodóvar, Má Educação, mas aqui abordando o tema por um outro prisma - aquele quando há o consentimento. O diretor, aliás, pode ser uma espécie de resposta norte-americana ao cineasta espanhol. Ambos, na sua juventude, fizeram filmes mais provocadores e vibrantes. Agora, mais maduros, entram por caminhos mais sérios, e nem por isso menos sofisticados.

Alysson Oliveira


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