Cidade dos Sonhos

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Crítica Cineweb

10/02/2003

Cidade dos Sonhos reúne todos os elementos de um legítimo David Lynch - clima de estranheza, reversão de identidades, belas mulheres, pelo menos uma criatura monstruosa, objetos misteriosos. O fato de ter tido sua origem num piloto de série de TV recusado por sua produtora, a rede americana ABC - detalhe de bastidor que muitos espectadores poderão ignorar - acaba por contribuir para o clima de ambigüidade que é sempre o gatilho dos trabalhos do diretor, especialmente Veludo Azul (86), Coração Selvagem (90) e A Estrada Perdida (97).

Quem viaja com Lynch sabe que nunca tem a companhia de certezas. Assim, tudo o que se depreender desta história de duas mulheres (Naomi Watts e Laura Elena Harring) em Los Angeles será aquilo que cada um concluir. Não é cinema de entretenimento, é cinema de estímulo à imaginação. Por isso é que vale tanto a pena mergulhar nos filmes do cineasta americano, que com este trabalho ganhou o prêmio de direção no Festival de Cannes/2001 (troféu dividido com outro americano, Joel Coen, por O Homem Que Não Estava Lá) e também a indicação ao Oscar de melhor diretor em 2002.

Até descrever uma história genuinamente lynchiana não é simples. No máximo, pode-se fornecer algumas pistas. A primeira cena acompanha uma bela morena (Laura Elena Harring) num carro. O automóvel pára numa estrada deserta, à noite, e a moça está prestes a ser morta por seus dois acompanhantes. Nesse exato instante, surgem dois outros carros cheios de estudantes, disputando um racha. O desastre é espetacular e muda o rumo das coisas. A morena escapa, ferida na cabeça e desmemoriada. Não sabe nem mesmo seu nome quando se refugia no belo apartamento de uma loura (Naomi Watts), sintomaticamente localizado no Sunset Boulevard - título original do magnífico filme de Billy Wilder, no Brasil rebatizado como Crepúsculo dos Deuses.

A referência cinematográfica deste endereço não é a única. Um dos grandes prazeres a descobrir nesta história é a certeira pontaria deste elegante dinossauro do estilo contra uma Hollywood auto-referente e medíocre que, não raro, rejeita os melhores frutos de sua produção. Valendo-se de tudo o que sabe sobre a meca do cinema, Lynch alinha em seu roteiro um diretor (Justin Theroux) encurralado por mafiosos que lhe dizem qual atriz escalar em seu próximo filme e uma ingênua aspirante a atriz canadense (Naomi Watts) que usa os contatos de sua tia americana para fazer um teste no que promete ser um novelão, criando para o meio artístico um retrato satírico ao extremo.

Pontuando a trajetória das duas protagonistas com aquele clima de sonho tão caro a Lynch, surgem a todo momento objetos misteriosos, verdadeiros fetiches: um anão no subsolo da Ryan Entertainment, uma produtora de filmes, que observa por uma câmera as reuniões de outra sala; uma caixa azul a que corresponde uma chave da mesma cor, cuja função em algum momento deve ser desvendada; um teatro antigo, de cortinas sintomática e bergmaniamente vermelhas, chamado de Clube Silêncio, onde um apresentador esforça-se por provar à platéia que ali não há orquestra, toda a música é gravada, embora nunca pare de tocar - um ácido comentário a propósito do cerco da mercantilização sobre a arte autêntica.

Verdadeiro bicho raro do cinema mundial, Lynch parece apontar a câmera contra o próprio inconsciente - é como se ele filmasse seus melhores sonhos e piores pesadelos ou fizesse deles uma fusão. Assim, o cineasta premia seus espectadores atentos com imagens inquietantes e belas, capazes de freqüentar sua memória por anos. O sentido delas muitas vezes até escapa - mas quem disse que tudo que habita o coração humano é para ser entendido?

Cineweb-19/4/2002

Neusa Barbosa


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