Não Estou Lá

Ficha técnica


País


Sinopse

Filme inspirado na vida e canções de Bob Dylan, que na tela se divide em vários personagens, cada um deles representando um momento, um fragmento, uma idéia do artista.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/03/2008

Grandes artistas merecem uma cinebiografia à altura. Por isso mesmo, Não Estou Lá passa longe do marasmo e convencionalismo do gênero, que rendeu nos últimos anos filmes mornos como Piaf – Um Hino ao Amor, Johnny e June e Ray. Afinal, estamos falando de Bob Dylan – e o filme consegue ser tão inventivo, complexo e camaleônico quanto o músico, reinventando-se a cada cena.

Ao longo dos anos, rótulos foram sendo colocados em Bob Dylan e sua obra. O mais conhecido é “a voz de uma geração”, que aliás ele detesta. Exatamente para fugir deste tipo de classificação, Dylan sempre se reinventou. De trovador a cantor gospel, de ídolo folk a pai de família, são várias as faces do artista. O diretor Todd Haynes soube transformar isso em cinema.

Na tela, são seis atores se revezando como Dylan – entre eles, um garoto negro e uma mulher. O que vemos são as muitas faces do músico, inspiradas em suas canções, em seu comportamento, em suas fontes de inspiração, todas elas traduzidas com muita criatividade pelo diretor. Arthur (Ben Wishaw, de O Perfume) pega seu nome emprestado do famoso poeta francês, Rimbaud. Interrogado por pessoas que nunca vemos, ele destila a sua ironia e subversão.

O pequeno Woody (Marcus Carl Franklin) – como Woody Guthrie, um dos ídolos de Dylan – é um garoto de talento excepcional para música que vive viajando em vagões de trem pelo interior dos Estados Unidos. Jack (Christian Bale, o atual Batman) conhece sucesso no cenário boêmio do Village com suas canções de protesto para mais tarde se tornar um cristão renascido, compondo no gênero gospel.

Jude (Cate Blanchett, premiada em Veneza por esse trabalho, que também lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante) tenta lidar com o sucesso, os flashes e jornalistas intrometidos. Por outro lado, Robbie (Heath Ledger, no último filme que viu finalizado) é o pai de família que vive uma relação tensa com sua mulher, a pintora Claire (Charlotte Gainsbourg, de Novo Mundo). E, finalmente, Billy the Kid (Richard Gere, de Chicago), ex-fora da lei que vive recluso, totalmente afastado do mundo.

É raro ver um artista buscando inspiração no trabalho de outro e ainda assim emergindo com sua própria obra que, por sinal, é ótima, como Haynes fez aqui. Com Longe do Paraíso ele chegou bem perto, inspirando-se nos melodramas de Douglas Sirk. Desta vez, no entanto, ele faz um filme que tem algo a dizer tanto a fãs ardorosos de Dylan – que serão capazes de detectar notas de rodapé aqui e ali – quanto àqueles que nem conhecem a obra do músico.

Todos os segmentos são muito bem realizados e as idéias, por mais truncadas que pareçam, formam um sentido como um todo. Para que uma faceta do Dylan exista, uma outra não precisa deixar de existir. Assim, as identidades e os segmentos vão se sobrepondo, criando novas camadas. Por isso, é muito significativo quando Billy, um homem maduro, encara o pequeno Woody. É o círculo se fechando.

Para tudo isso, não é apenas a música de Dylan que serve como inspiração e pano-de-fundo. Em seu filme cubista, Haynes também usa o cinema como referência. O segmento de Billy, que conta um funeral dos mais belos do cinema e um circo estranho, tem um quê de Fellini. Um diálogo de Masculino/Feminino, de Godard, é reproduzido praticamente intacto quando Jack e sua mulher vão ao cinema. O segmento de Jude também é fotografado num preto e branco à la Nouvelle Vague. Momentos do documentário Don’t Look Back (1967), de D. A. Pennebaker, sobre uma turnê do músico, são refilmados praticamente quadro a quadro. A fotografia é assinada por Ed Lachman (Virgens Suicidas, Longe do Paraíso) e cria uma identidade visual para cada segmento.

A música de Bob Dylan serve como um guia, mas não como chave, porque Haynes não está interessando em desvendar o mistério que é o artista, mas encontrar paralelos entra a vida pessoal e a criação artística. Assim, a trilha não é uma mera compilação dos ‘melhores hits de Bob Dylan’, mas reflete até o estado de espírito dos personagens. Nessa reflexão, são importantes versos de canções como “Positively 4th Street” (“Você tem muita cara de pau/ pra dizer que é meu amigo/ Quando eu estava por baixo/ você ficou aí rindo) ou “Idiot Wind” (Alguém aprontou comigo/ estão plantando histórias na imprensa/ Seja lá quem for, gostaria de parassem, mas quando vão fazer isso só posso tentar adivinhar).

A canção que empresta o título ao filme gera uma leitura ainda mais complexa. ‘Não Estou Lá’ poderia ser o próprio Bob Dylan e suas várias facetas, algo indecifrável – não está lá, nem aqui, mas em todos lugares, em lugar nenhum.

Em uma de suas peregrinações, o pequeno Woody conhece uma mulher que lhe dá um conselho valioso: “Cante sobre a sua era”, sugere ao garoto, que sempre carrega um violão. Anos mais tarde, Alice Fabian (Julianne Moore), ex-namorada de Jack e também cantora diz que ele ‘dava voz às idéias que eu gostaria de expressar’. Se a criança é o pai do homem, o garoto negro e sem destino aprendeu bem a lição. Versou sobre o seu tempo e as transformações, ou como disse em sua “The Times They Are A-Changin'”: “Venham pais e mães/ cruzem a terra/ e não critiquem/ o que não podem entender/ Seus filhos e filhas/ estão além do seu comando/ Sua velha estrada/ envelhece rapidamente/ Por favor, saiam da nova/ se vocês não puderem ajudar/ porque os tempos estão mudando.”

Alysson Oliveira


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança