Arca Russa

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Crítica Cineweb

19/02/2003

Mais famoso pela façanha técnica de ser um filme de uma hora e meia feito num único plano-seqüência (sem cortes), este trabalho de Alexander Sokúrov é um verdadeiro tratado cinematográfico sobre a história, a arte e a sensibilidade russas. Não é cinema para apressados nem espectadores dispostos à digestão fácil das imagens. A curta duração não deve iludir ninguém.É impressionante a quantidade de informações e reflexões que o diretor consegue inserir em tão pouco tempo, a ponto de qualquer tentativa de classificação de seu gênero não passar de uma mera aproximação.

Não é nada mais, nada menos do que um passeio um tanto onírico de dois personagens - um deles, um narrador que nunca se vê, de quem se ouve apenas a voz, que é de Sokúrov - pelo espaço físico dos magníficos salões do Hermitage, o imenso museu de São Petersburgo que por séculos foi a residência dos czares depostos pela Revolução de 1917.

As salas desse Hermitage - que nunca antes tiveram permissão de serem filmadas desta maneira - funcionam como verdadeiras cápsulas de tempo. E o narrador e seu companheiro, o marquês (Sergey Dreiden), deslizam por elas mergulhando em cenas cruciais da história russa ao longo dos últimos quatro séculos, como um baile do czar Nicolau II às vésperas da Revolução. Ao mesmo tempo, desfrutam do espetáculo incomparável dos quadros e esculturas do museu mesmo. Assim, o marquês do século XIX e o narrador invisível do século XXI dialogam o tempo todo com os acontecimentos dos últimos quatro séculos e que parecem estar todos acontecendo simultaneamente ali, em cada sala, ao mesmo tempo em que discutem suas próprias diferenças de opinião estética ou política.

O caráter fantástico desta viagem dos dois personagens por um tempo e espaço quase mágicos são a principal razão para se ficar fascinado por esta Arca Russa, um título que remete a uma óbvia referência à Arca de Noé que, em última instância, é o próprio Hermitage - que, depois de atravessar 300 anos de turbilhões históricos, é hoje um abrigo da alta arte, onde Sokúrov enxerga o único refúgio confiável da civilização. Nitidamente, o diretor não é um entusiasta da política. Os dois personagens que vagam pelo filme podem muito bem ser vistos como dois lados do próprio cineasta. E nenhum diálogo mais eloqüente para traduzir seu desencanto com a política do que aquele em que o marquês interroga seu interlocutor sobre o sentido de "república", que o aristocrata do século XIX desconhece. Seu comentário final: que um país grande como a Rússia não pode ser governado pelo sistema republicano, ao mesmo tempo em que não esconde seu fascínio pela realeza, corporificada no filme através de figuras como Catarina, a Grande (Maria Kuznetsova), Pedro, o Grande (Maxim Sergeyev), Nicolau I (Yuliy Zhurin) e Nicolau II (Vladimir Baranov).

Curiosamente, é deixada de fora deste passeio histórico a legião dos líderes comunistas - que Sokúrov prefere dissecar em filmes como Taurus, uma devastadora visão da decadência de Vladimir Lênin (Leonid Mozgovoy), o pai da Revolução Russa, e da irresistível ascensão de Stálin (Sergei Razhuk).p> Sokúrov, que visitou São Paulo em outubro de 2002, prestigiando pessoalmente uma retrospectiva inédita de seus trabalhos no Brasil, prefere a idéia de "evolução" à de "revolução". Num certo sentido, é um saudosista, uma atitude que se traduz até na procura de fazer um filme contínuo, em oposição a toda a teoria da montagem que foi a base da grande escola de cinema russa, tendo à frente o engajado Sergei Eisenstein. Por outro lado, sua intenção neste filme sem cortes não reflete uma pretensão de virtuosismo em si mesma. Ao dispensar a montagem, o diretor considera apenas que fez uma composição com cor e luz na tela, como um quadro. Nenhuma surpresa já que, como não se cansa de destacar em suas entrevistas, Sokúrov considera outras artes, como a literatura e a pintura, bem superiores ao cinema, por contraditório que possa parecer para um cineasta do seu porte, empenho e paixão.

Modestamente, Sokúrov acha que fez um filme acadêmico aqui, com cujo resultado não ficou inteiramente satisfeito. A ambição do artista era ainda maior. Sokúrov tinha em mente colocar em cena nada menos de 4.000 personagens. No final, reduziu-os, ainda assim, a espantosos 1.000. No planejamento da filmagem, que ocorreu num único dia (23/12/2001), ele e sua equipe consumiram 8 meses, mais 6 meses de exaustivos ensaios com os 850 atores, dezenas de extras, 22 assistentes de direção e três orquestras. Nada podia falhar diante da câmera digital de alta definição de 35 kg, que foi carregada olimpicamente pelo operador alemão Tilman Büttner - autor dos planos de corrida de Corra Lola Corra pela hora e meia do filme, num percurso de 1,5 km, em 35 salas do palácio-museu. Apesar do esplêndido produto desse esforço, Sokúrov não gostou, por exemplo, que o som do filme tivesse de ser feito depois. Tornou-se impossível gravar a banda sonora na hora da filmagem, porque todas as ordens do diretor seriam registradas junto com as falas.

Apesar dessa queixa perfeccionista do cineasta, ficou preservada integralmente sua intenção original, aquela mesma que embasa sua continuidade. Ao fazer um filme sem montagem, Sokúrov queria realizá-lo "de um fôlego" - como alguém que mergulha numa água profunda e turva e sabe que tem um tempo limitado para voltar à tona. Esse gosto do risco e a ambição artística devem ser o que mantém o cineasta em sua profissão, impedindo-o de abandonar essa arte que ele considera menor mas não o é, especialmente em suas mãos.

Cineweb-21/2/2003

Neusa Barbosa


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