Um conto chinês

Ficha técnica


País


Sinopse

Roberto é veterano da Guerra das Malvinas, vive sozinho e cheio de manias, até o dia em que Jun, um chinês que não fala espanhol, cruza o seu caminho. Mesmo sem falarem a mesma língua, suas vidas mudam depois desse encontro.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

31/08/2011

O único momento em que Um Conto Chinês abre mão do realismo é bem no começo – quando o bucólico encontro entre dois namorados chineses, num barco, num lago plácido, é rudemente interrompido pela queda de uma vaca... do céu.
 
Depois da natural estranheza do incidente, a câmera gira 360 graus e a ação se transfere para uma Buenos Aires bem concreta, onde vivem os dois protagonistas desta história, o dono de casa de ferragens argentino, Roberto (Ricardo Darín), e o jovem imigrante chinês Jun (Ignacio Huang).
 
Na meia-idade, Roberto é um homem solitário por opção. Passa os dias aprisionado numa rotina implacável, que ele mesmo criou, dormindo e acordando nos mesmos horários. Obcecado pelas minúcias, conta os pregos de cada embalagem que recebe da fábrica, reclamando ferozmente da constante falta de alguns. Mora no fundo da loja, que herdou dos pais, e mantém distância de quaisquer eventuais amigos e, principalmente, de uma mulher que se apaixonou por ele, Mari (Muriel Santa Ana), depois de um brevíssimo mas ardoroso encontro entre os dois.
 
Desta rotina imutável, fazem parte as visitas dominicais ao aeroporto da cidade, diante do qual Roberto para seu carro e fica observando as chegadas e partidas de aviões, mastigando seu lanche. Num desses dias, ele presencia uma cena insólita: um chinês sendo jogado de um táxi e lançado no meio da rua.
 
Mesmo que não seja a pessoa mais solidária do mundo no dia a dia, Roberto tem coração. E recolhe da rua o chinês, que se chama Jun, e não é outro senão o sobrevivente do episódio da vaca – que nada tem de mágico.
 
Apesar de os dois não falarem uma palavra da língua um do outro, conseguem, à força de mímica e alguma imaginação, se entender um pouco. Roberto descobre que Jun tem um endereço tatuado no braço, que é de um tio a quem ele veio procurar. Quando descobrem que o tio se mudou, os dois homens dão início a uma convivência a princípio forçada e que desencadeia um curioso processo de transformação do argentino ranheta.
 
Poucos atores poderiam ser melhores do que o veterano Darín para extrair o máximo do perfil minimalista de seu retraído Roberto – cujas manias e mau-humor, traduzido por sonoros palavrões, terminam sendo pretextos para muitas sequências hilariantes.
 
De sua parte, Ignacio Huang dá conta de seu papel numa toada quase de cinema mudo, já que não pode contar com muito mais do que a expressividade facial e corporal para comunicar-se com seu contrariado protetor.
 
Diretor de sete filmes, mas desconhecido no Brasil, Sebastián Borensztein – também autor do roteiro – desincumbe-se com eficiência de uma história simples, mas à qual não faltam comentários sutis à política de seu país. Inclusive de um passado recente, como a guerra das Malvinas.
 
A palavra mágica no tom do filme é a sutileza. A trama percorre vários rumos, evita muitas obviedades, tira bom partido do terceiro elemento, a doce Mari, que entra na vida destes dois homens para desequilibrar de vez a equação da aridez afetiva de Roberto. Visto por mais de um milhão de espectadores na Argentina, Um Conto Chinês é uma delícia de assistir.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 05/09/2011 - 17h52 - Por abel Neusa, que inveja do cinema argentino com poucos recursos transformam estórias de gente comum em verdadeiras obras primas, o cinema brasileiro têm que aprender com eles ser autoral não quer dizer ser hermético fazer pro umbigo, ou pros criticos em festivais, pra mim conto chinês e medianeiras são os melhores filmes do ano.
  • 08/11/2011 - 17h23 - Por Neusa Barbosa oi Abel:

    há muitos filmes argentinos legais, sim. Estes dois que vc cita, inclusive, gosto muito.

    Mas gosto muito de filmes brasileiros que, a meu ver, acertaram neste equilíbrio entre serem autorais e falarem com um grande público, caso de "O Palhaço", do Selton Mello.

    bj

    Neusa
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