Moulin Rouge - Amor em Vermelho

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Crítica Cineweb

13/01/2003

Quem conhece o verdadeiro Moulin Rouge, o centenário e pequenino cabaré francês do bairro de Montmartre, com certeza não reconhecerá as imagens do enorme cenário central deste musical que pisca um olho para o romantismo, o outro para uma quase antropofágica devoração das referências culturais do século XX - a começar pela música.

O ano é 1900 mas o que se ouve dos protagonistas Christian (Ewan McGregor) e Satine (Nicole Kidman) - usando suas próprias vozes - são canções bem conhecidas de muitas décadas depois, como Like a Virgin e Material Girl, de Madonna, Your Song, de Elton John, All You Need is Love, dos Beatles, Diamonds Are a Girls' Best Friend, que é quase impossível dissociar da musa Marilyn Monroe, e até The Sound of Music, tema de A Noviça Rebelde. E, heresia das heresias, o cancã que até hoje faz a fama do histórico cabaré real fica de fora da variada trilha sonora, que pode com muita razão ser até chamada de samba do australiano doido.

O australiano em questão é Baz Luhrmann, diretor que, aos 39 anos, fez apenas três filmes, todos musicais, todos sucessos. Antes de Moulin Rouge vieram Vem Dançar Comigo (92), cult que lançou a carreira internacional do cineasta, e Romeu + Julieta de William Shakespeare (96), que deu uma nova roupagem ao drama imortal do bardo tendo a vantagem de escalar para o papel principal Leonardo di Caprio pouco antes de Titanic.

Pode-se apreciar ou não o estilo frenético de Luhrmann, que aposta sempre numa montagem rápida, como uma pintura de pinceladas curtas e grossas, e nenhum realismo. Não é por outro motivo, aliás, que o compositor Erik Satie (Matthew Whittet) e o pintor Toulouse Lautrec (John Leguizamo), habitués do cabaré real, aqui não passam de figurantes. Luhrmann é um diretor de sólida formação teatral, que já montou óperas (como La Bohème) e, aos dez anos de carreira, domina com maestria a linguagem cinematográfica. Usa com fartura os detalhes de cenários, figurinos, trechos de música, nenhum deles gratuito. A superficialidade é apenas aparência. Embora conhecendo o dom de iludir do cinema, sua capacidade de prestidigitação e encantamento, Luhrmann nunca esquece que há uma história para ser contada. Ele apenas escolhe narrá-la com toda a pompa, embora sem nenhuma reverência.

Por trás de cenários e figurinos magníficos - obra de sua mulher e parceira, a francesa Catherine Martin - o enredo é de uma simplicidade atordoante. Antes que alguém atire a primeira pedra, é preciso lembrar que esta é a regra número um dos musicais. Até na Broadway, quase sempre o público sabe o seu enredo de cor antes de entrar no espetáculo e isso não é obstáculo para que a trama funcione. Num tempo como o nosso, de excesso de imagens, o desafio é produzir significado. Ou seja, a parada é ganhar o coração da platéia.

Aí, os desafios não foram poucos e exigiram que os atores superassem seus próprios limites. E como negar que Nicole Kidman, habitualmente uma intérprete um tanto fria e distante, exala faíscas ao cantar, dançar e encarnar uma cortesã dividida entre o pragmatismo de uma relação com um duque rico (Richard Roxburgh) e a paixão pelo compositor pobre (Ewan McGregor)? E o escocês McGregor, que decolou na carreira em dramas alternativos, como Cova Rasa e Trainspotting, solta a voz com a competência de roqueiros da mais fina estirpe. Além do mais, o ator confirma uma vocação de herói romântico para ninguém botar defeito.

O que cabe julgar neste filme é se Luhrmann foi capaz de cumprir seu próprio desafio - reciclar o musical. Ou seja, atualizar um formato que já foi muito popular, especialmente nos anos 40 e 50, e produzir a mágica de que ele faça sentido para as platéias modernas, a mesma intenção de Lars von Trier em seu Dançando no Escuro.

Embora tendo afinidades assumidas com Triers, Luhrmann é menos radical nas propostas e mais teatral no método. Por isso, confia em elementos que são a própria essência do teatro, como a carnalidade dos atores. O elenco de Moulin Rouge está quase fisicamente perto do público, muito mais próximo do que Fred Astaire e Gene Kelly jamais estiveram. Para começar, porque os intérpretes do musical de Luhrmann são muito menos performáticos do que os magníficos reis do passado. E é de propósito.

Luhrmann busca atores que possam cantar e dançar, mas não bailarinos (já desde o primeiro filme, embora o protagonista de Vem Dançar Comigo, Paul Mercurio, fosse exceção). Este não-profissionalismo como cantores e bailarinos abre uma brecha para que o público espie sua humanidade, em outras palavras, sua falibilidade, o que funciona como mais um gatilho da emoção de quem assiste, porque seu esforço de superação fica mais visível, mais perto da pele, além de funcionar como marketing. O público acompanha de perto a jogada de risco de Nicole Kidman e Ewan McGregor para tornar-se Satine e Christian. E, quase sem exceção, torce por eles, mesmo sabendo o final desde as primeiras cenas. Uma prova de que a paixão pelo espetáculo é maior do que a febre pela novidade. E gostar de ouvir contar histórias, por mais que no fundo sejam sempre as mesmas, é uma das mais velhas pulsões da humanidade.

Neusa Barbosa


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