O Moinho e a Cruz

Ficha técnica


País


Sinopse

Um pintor registra as cenas do cotidiano de Flandres, no século XVI, comparando o que vê com a Paixão de Cristo. O povo de seu país está submetido à sanguinária ocupação espanhola, cujos soldados se parecem com os legionários romanos da Palestina.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

05/07/2012

O moinho e a cruz, do diretor polonês Lech Majewski (também autor do roteiro, em parceria com Michael Francis Gibson), é um filme sensorial. Quase sem diálogos, ele nos conduz por uma visita de hora de meia a Flandres, durante a sangrenta ocupação dessa região da Bélgica pela Espanha, no século XVI. A viagem se dá através da tela “A procissão para o Calvário”, pintada em 1564 por Pieter Bruegel, o Velho, cinco anos antes de sua morte.

A pintura estática, que ocupa toda a tela do cinema, começa a ganhar vida quando algumas das cerca de 500 figuras que a compõem, entre pessoas e animais, passa a se mover diante do pintor, numa paisagem bucólica dominada por um moinho instalado no pico de uma montanha. O pintor é o próprio Bruegel, interpretado por Rutger Hauer, que imortaliza no quadro que está criando as cenas do cotidiano: camponeses em seus afazeres, crianças brincando com seus cães, mulheres no trabalho doméstico. 

Essas figuras são alguns dos personagens da tela que, aos poucos, começam a viver suas histórias, antes de ficarem novamente imobilizadas. É tocante acompanhar o despertar da família do próprio Bruegel, pouco depois de o pintor pegar suas folhas de desenho e partir para seu posto de observação e de trabalho no campo. A casa, rústica como as de todas as pessoas pobres, ganha vida quando seus seis filhos acordam e começam a brincar na cama em que dormiam amontoados, como uma ninhada de filhotes. Sua mulher amamenta o menor.

Próximo dali, outras pessoas também se levantam e começam o dia de trabalho: dois lenhadores procuram uma árvore (o propósito macabro do corte saberemos mais adiante), um jovem casal retira um bezerro, alojado a poucos passos de sua cama, e o leva numa pequena carroça para o campo, onde o pintor trabalha. Eles também serão personagens involuntários e sua história ganhará ares de tragédia em poucos minutos.

Todas as pessoas retratadas parecem viver uma vida bucólica e feliz, mas, na realidade, estão entorpecidas pela brutalidade a que são submetidas diariamente. Soldados espanhóis cruzam o campo montados a cavalo, perseguindo um homem, e torturam até a morte outro que, amedrontado passou também a fugir. Nunca se saberá o que eles fizeram de errado.

Aos poucos começa a se materializar na tela – e na realidade daquelas pessoas – cenas saídas de páginas bíblicas. A Flandres do século XVI é na realidade a Palestina dominada pelo Império Romano. Vemos Cristo sendo flagelado, vemos sua mãe, Maria (Charlotte Rampling numa ponta rápida, mas muito marcante), sem saber como agir e impotente para evitar a tragédia. O destino de Cristo se abate sobre a Flandres ocupada, ou será que essa ocupação possui os mesmos contornos bíblicos, com os espanhóis como algozes?

Bruegel é testemunha, retrata o que vê e denuncia os sofrimentos de seu povo por meio de uma parábola. Suas reflexões são compartidas com seu amigo e colecionador Nicholas Jonghelinck (Michael York). Sabem que vivem em tempos sombrios, mas, como Maria, são impotentes para mudar a realidade. Não muito longe dali, na cidade, um nobre olha enojado por sua janela a barbárie nas ruas, mas também lamenta não poder fazer nada.

Do alto do moinho, cujas pás giram com a força do vento, e movem as engrenagens que moem o trigo, um velho de barbas brancas contempla a procissão humana logo abaixo, mas seu rosto não mostra sinais de contrariedade nem de compaixão. É a idéia que o artista tem de Deus, um observador contemplativo, que oferece o alimento com seu moinho, mas não interfere no destino de suas criaturas. E o pintor, como Deus, apenas registra o que vê.

Luiz Vita


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