Os Catadores e Eu

Ficha técnica

  • Nome: Os Catadores e Eu
  • Nome Original: Les Glaneurs et la Glaneuse
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: França
  • Ano de produção: 2000
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 82 min
  • Classificação: Livre
  • Direção: Agnès Varda
  • Elenco:

País


Sinopse

Na França, o ato de catar coisas - como os restos de frutas e legumes que sobram no solo das fazendas após as colheitas - é tão sério e arraigado que figura até da lei, que define um horário para que possa ser praticada sem embaraços. Mergulhando nesse gesto aparentemente banal, Agnès Varda compôs com sua câmera uma verdadeira investigação sociológica e humana da França.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

05/03/2003

Na França, o ato de catar coisas - como os restos de frutas e legumes que sobram no solo das fazendas após as colheitas - é tão sério e arraigado que figura até da lei, que define um horário para que possa ser praticada sem embaraços.

Mergulhando nesse gesto aparentemente banal, a veterana diretora belga Agnès Varda compôs uma verdadeira investigação sociológica e humana da França, onde ela vive, garimpando com sua câmera atenta verdadeiras pérolas - como a figura do anônimo vendedor de mapas na porta da estação de trens que só se alimenta de restos de feira e ocupa todas as suas noites alfabetizando, voluntária e gratuitamente, os imigrantes estrangeiros que são seus vizinhos num longínquo conjunto habitacional da periferia de Paris.

Cata-se de tudo na França e desde tempos antigos - como comprovam diversos quadros existentes nos inúmeros museus daquele país, entre eles, os do pintor Jean-François Millet (1814-1875). Batatas, maçãs, ostras, eletrodomésticos e móveis fazem parte desse vasto arsenal recolhido nos campos, nas praias, às margens das estradas e nas ruas das mais diversas cidades do país por um exército de pessoas tão distintas quanto a natureza dos objetos recolhidos.

Não há somente pobres e deserdados pelo desemprego nesse pelotão humano que segue as pistas sobre os locais e horários de desova dos tesouros caçados com uma aplicação verdadeiramente militar. Há jovens anarquistas que optaram por uma vida sem estudo nem trabalho e sobrevivem dos restos jogados fora por supermercados, espantosamente sortidos com artigos de primeira, como queijos e peixes nobres ainda em condições de consumo. Há artistas cujas obras nascem justamente dos pedaços do que algum dia foi uma janela, uma porta, um televisor, um relógio.

Ao identificar, entre o que os franceses jogam fora, batatas em bom estado mas rejeitadas porque sua forma e tamanho não servem ao empacotamento industrial, a diretora aponta para o chocante desperdício de uma sociedade de primeiro mundo que parece insensível ao fato de que, mesmo entre seus cidadãos, há muitos que passam necessidades. Mas teria um custo dar algum destino a esses itens de algum modo impróprios aos parâmetros, ainda que estéticos, da comercialização e com ele as empresas produtoras não querem arcar.

Talvez em nenhum outro segmento do filme a lógica implacável do capitalismo selvagem se mostre mais fria do que numa região vinícola da Borgonha, em que a colheita das uvas que produzem os famosos e caríssimos "grand crus" deve ser limitada, assim como a produção. Aí, a cata de restos é rigorosamente proibida. As uvas excedentes são deixadas para apodrecer na vinha ou no solo mesmo sem que ninguém possa destiná-las a qualquer outro uso.

Integrando todas essas visões, a diretora se auto-intitula também como "catadora", não só por levar para sua casa cadeiras encontradas na rua, como também por seu próprio trabalho de coletora de imagens. De um assunto aparentemente tão banal, Agnès Varda tirou um diamante em estado bruto. Com mérito, seu filme foi considerado o melhor documentário de 2000 pela European Film Academy.

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Neusa Barbosa


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