Chicago

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Crítica Cineweb

05/03/2003

A montagem (de Martin Walsh) chega a ser atordoante. Números musicais sucedem-se com a velocidade do relâmpago. Mal se tem tempo de ver os pés dos dançarinos - se é que eles são mostrados. Afinal, o que esse filme quer revelar? Ou ele quer mais esconder?

Esse jogo de prestidigitação, onde o que se exibe não é o que parece e o que se oculta nem sempre é o que se pretende, sustenta Chicago, filme de estréia do coreógrafo Rob Marshall, que ousou transpor para a tela o celebrado musical dirigido por Bob Fosse, de 1975. Provando, mais uma vez, que a arte alimenta-se acima de tudo da reciclagem para chegar à originalidade, o musical de Fosse partia, por sua vez, de um romance de 1926, escrito pela ex-jornalista Maurine Watkins.

A espinha dorsal da história de Watkins permanece a mesma, tanto no musical, quanto no filme de Marshall. Ou seja, organiza-se em torno de Roxie Hart (Renée Zelwegger), dona-de-casa de Chicago, iludida pelo sonho de tornar-se dançarina, que cai na lábia de um vendedor de móveis (Dominic West) - um homem que diz ter contatos no show business apenas para ganhar seus favores sexuais. Descoberta a trapaça, Roxie mata o mentiroso no ato - e ainda consegue que o marido mais do que compreensivo, Amos Hart (John C. Reilly), assuma o crime num primeiro momento. Depois, fica com Amos só o papel de pagar a conta do advogado das estrelas, Billy Flynn (Richard Gere), um malandro que cobra US$ 5.000 por empreitada.

Flynn representa o supra-sumo dessa advocacia que tem mais de arte teatral do que muitos espetáculos que se vêem nos palcos. Ele joga para a torcida, tecendo para seus clientes uma imagem cuidadosamente construída com a indispensável colaboração da imprensa ligeira que escreve para um público ávido de sangue, representada no filme pela repórter Mary Sunshine (Christine Baranski). Mais do que ilustrativa dessa manipulação da mídia é a seqüência que mostra os repórteres como bonecos de madeira, puxados com cordões pelo ventríloquo Flynn.

Esse cinismo no retrato social prossegue na descrição da prisão, centro da ação do musical. Ali, as estrelas se sucedem com a mesma velocidade dos cabarés da Chicago da Era da Depressão. A recém-chegada Roxie é a novata em ascensão, substituindo a diva de dias atrás, Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones). Uma profissional dos palcos, aliás. Dona de um número de sucesso ao lado da irmã, Velma teve o desprazer de flagrar a mana numa coreografia mais íntima do que o previsto com seu próprio marido. Não teve dúvida: despachou os dois no ato e ainda foi para o teatro naquela noite, comandar o show, sendo presa lá mesmo. Um profissionalismo digno de uma estrela.

Preterida das manchetes por Roxie, Velma alimenta contra a novata um ódio mortal - que é correspondido pela loirinha, ainda mais que as duas disputam as atenções do mesmo advogado. Essa rivalidade alimenta vários rounds dentro e fora da prisão, cuja ordem é mantida pela descolada guardiã, 'Mama' Morton (a rapper Queen Latifah), uma diplomata de primeira que sabe transformar em dinheiro todos os favores que presta dentro de seu pequeno reino de celas e grades.

Este cenário da cadeia é meio claustrofóbico para o desenvolvimento de números musicais, mas a montagem está aí para resolver isso mesmo - ainda mais amparando-se na liberdade de que a maior parte do que acontece ali se passa na imaginação de Roxie. Uma vantagem idêntica à de outro musical inusitado, Dançando no Escuro, de Lars von Trier, que também encenou várias seqüências dentro de um tribunal e uma prisão.

Chicago é com mais freqüência associado a outro musical recente, Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, a quem se atribui a façanha de ter renovado o gosto pelo gênero nas platéias dos anos 90. A vantagem, em favor de Moulin Rouge, é que Luhrmann não teve a limitação de cenários de Marshall, apostando em cheio na mobilidade e inventividade de sua câmera em ruas e sobre telhados. Em compensação, as músicas de John Kander e Fred Ebb, do musical de Fosse, são jóias raras de que a trilha de Luhrmann, pontuada de standards pop, não sonhou sequer - e Marshall aproveitou tudo muito bem. As coreografias de Fosse, que ainda podem ser assistidas na Broadway, são outro filão de ouro que Marshall não vacila em reciclar, mesmo não as reproduzindo na íntegra.

Há uma devoração incessante das referências de Fosse, com uma voracidade que faria inveja aos antropofágicos modernistas brasileiros. De tudo isso, sobra um espetáculo que enche os olhos do público num ritmo verdadeiramente feérico e vertiginoso. O show não pode parar. Mas talvez seja necessário algum tempo para saber se, assentadas as ondas deste mar, se revelará de maneira mais cristalina se aqui se está diante do talento original de um novo diretor, ou não.

Cineweb-5/3/2003

Neusa Barbosa


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