Fitzcarraldo

Fitzcarraldo

Ficha técnica


País


Sinopse

Brian Sweeney Fitzgerald é um irlandês apaixonado por ópera, que sonha em construir um teatro no meio da floresta Amazônica. O filme rendeu a Werner Herzog o prêmio de direção em Cannes.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

09/05/2016

Em uma de suas Teses Sobre o Conceito da História, o filósofo alemão Walter Benjamin afirma que “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”. Nos mais de 150 minutos de Fitzcarraldo, o cineasta alemão Werner Herzog parece ilustrar essa ideia a cada cena. O filme é baseado numa figura real, o irlandês  Carlos Fermín Fitzcarrald, no filme chamado de Brian Sweeney Fitzgerald, e interpretado de forma visceral pelo alemão Klaus Kinski.
 
Na Amazônia peruana, Fitzgerald, conhecido como Fitzcarraldo, quer construir um Teatro de Ópera, na virada do século XIX para o XX, em Iquitos. Considerado um louco, ele é motivo de chacota dos figurões da borracha na região – um deles é interpretado por José Lewgoy – que o estimulam em seguir seu sonho, apenas para o ver perder dinheiro e ir à falência. O protagonista megalomaníaco embarca nessa jornada louca.
 
O monumento de cultura que Fitzcarraldo quer construir ilustra a barbárie de um processo civilizatório que, como trator, passa por cima de tudo. O que o protagonista parece não perceber, no entanto, é como ele é uma peça tão pequena – talvez um pouco maior que os nativos que o cercam – nesse jogo. O fato de todos falarem alemão é só uma das evidências de que o filme adota o ponto de vista do personagem, e, assim, adere às suas insanidades, naturalizando-as a ponto de parecer quase normais.
 
As mais de três décadas que separam a primeira exibição de Fitzcarraldo, no Festival de Cannes, de 1982, de onde saiu com o Prêmio de Direção para Herzog, colocam em perspectiva toda polêmica envolvendo sua produção que durou 4 anos. Hoje, o longa é um clássico que sobrevive muito bem ao tempo em seu retrato da máquina que leva civilização à força, num cenário no qual a moral se torna dúbia.
 
A empreitada de construir um teatro – mais luxuoso que o de Manaus – e trazer uma companhia de cantores, liderada por Enrique Caruso, é o que move o personagem. Seu interesse não está no dinheiro, está nos lucros de seus negócios (que nunca se materializam), para realizar sua ambição. Sua mulher, Molly (Claudia Cardinale), ingênua e apaixonadamente se contamina pelo sonho dele. Ela seria a voz da razão em meio aos delírios, mas, essa não existe.
 
Fitzcarraldo consegue comprar, com o dinheiro de sua mulher (que foi a dona do maior bordel em Iquitos), um pedaço de terra a um bom preço. Mas só foi barato porque é inacessível. Isso não é, porém, um empecilho para ele, que se aventura a levar uma embarcação gigantesca rio acima, arrasta-la pelo topo de uma montanha, e, depois sair do outro lado do rio, que dá acesso às suas terras.
 
É um projeto tão, ou mais, louco que a construção do suposto teatro, que rendem cenas extraordinárias de beleza e simbologia, como a embarcação atolada na lama amazônica. É, finalmente, a materialização de todo o fracasso do processo, são também as ideias completamente fora do lugar, ou seja, a questão central do filme: a impossibilidade de importação de um modo de vida europeu para os trópicos – enfim, a imposição de um processo de colonização. Ou ainda, como diria Mr Kurtz (personagem de Coração das Trevas, de Joseph Conrad,e sua adaptação Apocalypse Now, por Francis Ford Coppola, e outra evidência da maldade da colonização): “O horror, o horror”.

Alysson Oliveira


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