Os belos dias de Aranjuez

Ficha técnica


País


Sinopse

Um escritor fecha-se numa casa no campo para escrever. Diante dele, surge a história de um homem e uma mulher, que conversam diante de um belo bosque, num dia do verão. Em suas conversas, passam temas da vida, do sexo, do amor, do medo.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

23/03/2017

Wim Wenders volta ao 3D, usado no documentário Pina (2011), desta vez para filmar um homem (Reda Kateb) e uma mulher (Sophie Semin) num cenário idílico, como fora do tempo.
 
Trata-se de um jardim verdejante, numa propriedade nos arredores de Paris – ao longe, enxerga-se imagens do bairro de La Défense. Mas nenhum ruído da grande capital francesa chega até este local, que é como fictício. Afinal, ali mesmo, dentro da uma casa, um escritor (Jens Harzer) escreve uma história. O homem e a mulher na mesa ali fora são seus personagens. De uma janela para outra, um e outros se espiam e vice-versa, criando camadas no enredo, que parte de uma peça de teatro, escrita originalmente em francês, pelo escritor austríaco Peter Handke, parceiro habitual de Wenders, para sua mulher, a atriz Sophie Semin.
 
Por conta desta origem teatral, a palavra ocupa um centro dramático no filme. O cerne de tudo é a longa conversa entre este homem e esta mulher, a natureza de cujo relacionamento não é clara, mas obedece a uma sequência temporal e um conjunto de regras que os dois conhecem.
 
Quebram o tom deste diálogo algumas músicas, escolhidas pelo escritor a partir de uma juke box Wurlitzer dentro da casa, que introduz também um elemento temporal, nostálgico, que remete ao papel da memória. Uma incursão ao vivo do pianista (Nick Cave) igualmente quebrará esta regra num certo momento.
 
Chama a atenção o contraste dos assuntos tratados pelos dois. Enquanto insiste que a mulher recorde suas experiências sexuais, o homem fala do ar e da luz do verão e de lembranças de viagem – como sua ida a Aranjuez, na Espanha, onde foi em busca de um castelo que, afinal, não era bem o que ele pensava.
 
Este descompasso, enfim, soa proposital, para sublinhar as diferenças entre homens e mulheres, insinuando uma disfarçada inquietação dele ao procurar obter confissões íntimas dela – que mais espontaneamente revela suas emoções, até uma certa desilusão e uma saudade de um certo romantismo, pode-se dizer, ao lembrar de suas aventuras.
 
Toda essa conversa, ainda mais ouvida em francês, lembra muito Éric Rohmer e seus filmes intensamente falados. Mas esse parentesco é quebrado por uma sugestão de pré-apocalipse, quando se introduz, neste cenário idílico, alguns ruídos ensurdecedores. Nesse momento, como em outros, insinua-se uma intenção de falar de um paraíso perdido, da ameaça iminente a qualquer idealização ou tentativa de isolamento, de proteção contra a realidade que nunca está longe o bastante.

Neusa Barbosa


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