Sob a Areia

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Crítica Cineweb

11/04/2003

Aos 59 anos de idade, a romancista inglesa Virginia Woolf atirou-se no rio Ouse, em East Sussex, e pôs fim a uma existência marcada por crises depressivas e acessos de loucura. Antes de morrer, a escritora deixou um bilhete, do qual é extraído e recitado um trecho em Sob a Areia, de François Ozon, que compartilha com a obra de Virginia o mesmo tom impressionista e a introspecção psicológica que imerge nos obscuros subterrâneos da alma humana.

Ozon parece nutrir considerável predileção por surtos psicóticos, amor possessivo, morte e, sobretudo, desvios comportamentais, como deixou claro em Sitcom - Nossa Linda Família (1998) e Amantes Criminais (2000). Em seu filme anterior, Gotas D'Água em Pedras Escaldantes, o diretor se apóia em excelentes diálogos para exibir as intrincadas relações humanas e os jogos de interesses que envolvem seus personagens.

Pouquíssima música ambienta o drama de Marie (Charlotte Rampling) que, durante anos, passa as férias de verão à beira-mar na companhia do marido, Jean (Bruno Cremer). Neste ano, um imprevisto altera definitivamente a ordem de sua vidas. Enquanto toma sol na praia, Marie adormece e ao despertar não encontra Jean que, supostamente, teria ido banhar-se no mar. Buscas frustradas são realizadas no local e ela, agora solitária, não consegue assimilar a perda e continua a viver como se ele ainda fizesse parte de seu cotidiano.

Como a morte de Jean não é atestada, toda a certeza do espectador diante desse fato vai sendo envolvida por uma névoa que também paira sobre Marie. Em seqüências futuras, os amigos da protagonista sugerem uma certa loucura mas, entre ela e Jean, tudo continua aparentemente como antes. A confusão mental de Marie é a confusão interpretativa do espectador que vai sendo desfeita aos poucos por meio de sutis insinuações de outros personagens da trama ou de eventuais acontecimentos.

Essa dificuldade de aceitação da morte de um ente querido é ainda maior quando não se enterra um corpo. A partir de então, a tênue linha que separa a sanidade da loucura, a mesma da qual era vítima Virginia Woolf, é questionada por Ozon. O excelente final de Sob A Areia nos remete a uma reflexão sobre a credulidade das pessoas que as tornam incapazes de enxergar algo que não querem ver.

Luara Oliveira


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