Tosca

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Crítica Cineweb

15/01/2003

Filmar uma ópera das mais clássicas do repertório erudito sem trair as suas raízes e ao mesmo tempo utilizar os recursos mais modernos do cinema foi o desafio do francês Benoît Jacquot ao dirigir Tosca, a célebre ópera de Giacomo Puccini (1858-1924). Com certeza, o espetáculo é mais atraente para platéias já conquistadas, que admirem a ópera. Mesmo quem não conhece a história de Floria Tosca, a apaixonada protagonista, porém, pode acompanhar sua tragédia romântica com todas as nuances da emoção, sem perder a clareza.

No primeiro ato, o ciúme governa a cena. A célebre cantora Tosca (a soprano romena Angela Gheorghiu) está obcecada pela suspeita de que seu amante, o pintor Mario Cavaradossi (o tenor franco-italiano Roberto Alagna), a está traindo com uma bela marquesa, cujas feições utilizou como modelo para pintar numa igreja uma imagem de Santa Maria Madalena. A morena de olhos pretos Tosca bem sabe que não são dela os cabelos louros e os olhos azuis da pintura - e faz cena.

Bem depressa, o foco passará da intriga amorosa à política. Idealista, Mario oculta em sua casa um preso político fugitivo da prisão de Castel Sant´Angelo, Angelotti (Maurizio Muraro). As evidências desta ajuda clandestina aparecem e o pintor é preso pelo temível chefe de polícia, o barão Scarpia (o barítono italiano Ruggero Raimondi). Este submete-o à tortura, procurando arrancar dele a confissão e apontar o esconderijo do fugitivo - sem sucesso. No esforço de salvá-lo, Tosca tenta subornar Scarpia, que não deseja outra coisa senão seduzir a bela cantora. No acordo para poupar a vida do amante, Tosca sela, sem querer, a tragédia final que amarra os três destinos: o de Mario, o de Scarpia e o seu próprio.

Este primor de carpintaria dramática é construído na tela em três níveis. A parte colorida do filme apresenta a narrativa, com os cantores vestidos em ricos figurinos, em cenários idem, reconstituindo com perfeição os locais verídicos da ação: a igreja Sant´Andrea del Valle, o Palácio Farnese e o Castel Sant´Angelo, todos em Roma. Estes locais também aparecem na tela, filmados num granulado digital, que distorce as cores de uma forma surrealista, aproximando-os da textura de um sonho. Um terceiro eixo narrativo, em preto-e-branco, retrata os cantores, a orquestra e o coro (estes dois, ingleses, da Royal Opera House, de Covent Garden) em roupas comuns, durante as gravações da música propriamente dita, nos estúdios Abbey Road, de Londres.

Ao costurar, pela montagem, estes três eixos narrativos, o diretor consegue a um só tempo desmistificar a excessiva reverência que em geral cerca a ópera, dado que costuma afugentar platéias avessas a esse tipo de entretenimento. Assim fazendo, inscreve a essência mesma da história na vida real. Tosca, Mario e Scarpia transpiram uma profunda e sincera humanidade na interpretação de emoções tão viscerais quanto as que os movem dentro da trama. E é desta matéria que é feita a melhor literatura, o melhor teatro e o melhor cinema. Quando todos se encontram, como aqui, é uma celebração da arte e da vida.

Nunca será demais elogiar a esplêndida escolha dos intérpretes - cantores de primeira linha na cena internacional, como o casal na vida real Gheorghiu-Alagna -, bem como o sofisticado uso da câmera aqui - resultado de uma preciosa parceria do montador Luc Barnier e do diretor de fotografia Romain Winding. É um luxo só ver a câmera retroceder, mostrando a ação sendo revertida no tempo, da mesma maneira que fez Jean Cocteau em seu Orfeu (49) - uma homenagem assumida, aliás, pelo diretor Jacquot. Há cenas de uma beleza ímpar, como um grupo de meninos vestidos de vermelho brincando na igreja, além da visão de carneirinhos sob uma luz estourada, na parte digital das externas - detalhes que reforçam a riqueza das possibilidades que é possível atingir, quando se confronta a mesmice e a falta de ousadia na procura de novas formas de olhar.

Cineweb-20/12/2002

Neusa Barbosa


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