Sanguinaires, a Ilha do Fim do Milênio

Ficha técnica


País


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Crítica Cineweb

17/04/2003

Em seu último filme, A Agenda (2001), o diretor francês Laurent Cantet mostrou o drama de um homem que, sem coragem de contar à família sobre sua demissão, vaga durante todo dia fingindo estar no emprego. O visível interesse na dificuldade humana de encarar os limites também é ponto central do média-metragem Sanguinaires, a Ilha do Fim do Milênio (1997). Aqui, o cineasta lançou mão das multidões aglomeradas para comemorar a virada do milênio e concentrar o olhar sobre um grupo de amigos, isolados numa fria ilha perto de Ajaccio, França.

O filme faz parte da série 2000 Visto Por..., uma encomenda da rede de televisão Arte e da produtora Haut et Court a dez cineastas de vários países. Do projeto, fez parte o brasileiro O Último Dia, de Walter Salles e Daniela Thomas, além do canadense A Última Noite, de Don McKellar, do americano O Livro Da Vida, de Hal Hartley, e do taiwanês O Buraco, de Ming-liang Tsai.

Um grupo de amigos discute uma maneira de fugir da contagem regressiva na virada de 1999 para 2000. Liderados por François (Frédéric Pierrot), decidem juntar as três famílias em uma pequena ilha, habitada apenas pelo jovem guardião do farol, Stephane (Djallil Lespert). O grupo estabelece algumas regras para ficar fora do mundo, mas a tentação de saber sobre as comemorações é grande, principalmente entre os filhos adolescentes, injuriados pelo tédio do local. No entanto, aos poucos, todos vão se acostumando ao isolamento e descobrindo maneiras de se divertir na ilha, com exceção de François, que a cada momento parece deprimir-se mais.

É interessante observar a deterioração psicológica de François, que exterioriza sua angústia ao impor aos outros o que considera a maneira correta de pensar e agir diante da situação. Mesmo tendo sido idéia sua, o homem se martiriza com a possibilidade de não ter escolhido a melhor opção e se perde nessas elocubrações, que o afastam da realidade e o impossibilitam de entregar-se à experiência como fizeram os demais.

A personalidade de François é, no filme, proxima da de Bruno (Vincent Simonelli), um dos adolescentes que estão na ilha. O garoto estabeleceu para si que, antes do novo milênio, teria sua primeira transa, projeto inviabilizado no ermo local. O curioso é que Bruno só se revolta com sua condição de isolado quando se dá conta de que o amigo conseguiu a façanha com a única garota de sua idade na ilha. Frente à frustração de seus planos, ele se deprime e adota uma postura semelhante à de François. Ambos são egoístas, competitivos e intransigentes, sendo diferenciados apenas pelo grau de influência sobre os amigos. É emblemático o final para essa comparação, no qual os dois personagens provocam o mesmo tipo de distúrbio no grupo.

É bem enfática e ilustrativa a maneira como, na tentativa de amenizar os ânimos, cada um se envolve no drama alheio e, instantaneamente, vai sendo consumido pelo humor do outro. Se as relações entre as pessoas são realçadas, o mais importante é mesmo a incapacidade humana de desistir de um sonho quando ele se mostra inatingível.

Quando François decide entregar-se de vez à solidão, o farol torna-se seu ponto de referência enquanto que o grupo observa os fogos de artifício e as luzes de Ajaccio. Pequenos detalhes como esse são fundamentais à narrativa desse ótimo drama humano sobre ritos de passagem e as diferentes maneiras como as pessoas lidam com suas frustrações.

Cineweb-18/4/2003

Luara Oliveira


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