O oficial e o espião

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Sinopse

No final do século XIX, o capitão francês Aldred Dreyfus é condenado por alta traição e enviado à Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Seu professor, coronel Picquard, que nunca tivera dúvidas de sua culpa, tem acesso a documentos secretos e começa a reunir indícios de que houve uma conspiração baseada no antissemitismo.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

06/03/2020

Um diretor polêmico por sua vida pessoal, Roman Polanski sempre foi atraído também por temas controversos, o que ele faz novamente em O Oficial e o Espião, que retoma o processo do oficial Alfred Dreyfus, no final do século 19. 
Embora não se trate de um roteiro original e sim da adaptação de um livro de Robert Harris - que assina o roteiro ao lado de Polanski -, o diretor está mais do que à vontade diante de uma história profundamente impregnada de antissemitismo, visto que suas trágicas experiências pessoais, durante a II Guerra, ele já imprimira em o premiado O Pianista (2002). 
 
O aspecto mais interessante na abordagem de Polanski é tornar o coronel Georges Picquard (Jean Dujardin), e não o capitão Dreyfus (Louis Garrell), o protagonista do drama, opção que permite expor com mais substância o contexto e os bastidores da condenação e da prisão injustas do último. 
 
Acompanha-se a mudança gradativa de posição de Picquard, um ex-professor de Dreyfus na academia militar, que admite sem rodeios seu antissemitismo, preconceito, aliás, comum já naquela época. Picquard segue como observador o julgamento de Dreyfus, quando este é acusado de espionagem e alta traição, em 1894, perde sua patente e é enviado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Naquele momento, o coronel não tem dúvidas de que o capitão é culpado.
 
Pouco depois, Picquard é promovido ao comando do serviço secreto, uma função que lhe permite ter acesso a documentos que despertam suas dúvidas sobre a culpabilidade de Dreyfus. Esta mudança de opinião, por sua vez, torna-o alvo de pressões de oficiais superiores, todos empenhados em abafar o caso. 
 
Um aliado do coronel será o escritor e jornalista Émile Zola (André Monnier), cujo famoso artigo, “Eu Acuso”, publicado em 1898, tornou-o em sua época objeto de um processo de difamação - em que ele foi condenado a um ano de prisão, da qual escapou, refugiando-se na Inglaterra.
 
Valendo-se da reconstituição de eventos autênticos, não raro recorrendo aos textos dos jornais e tribunais da época sobre o caso, o filme retrata com sobriedade a conspiração dentro do governo e do exército franceses para culpar Dreyfus, um oficial correto e de ficha impecável, numa trama que levou anos para ser esclarecida - também porque admitir os erros crassos cometidos no processo era vergonhoso para o Estado francês.
 
É uma grata surpresa ver como Jean Dujardin, um ator que muitas vezes desperdiça o seu talento em comédias dispensáveis, interpreta com convicção seu personagem, que sofre uma mudança profunda ao longo da trama. A única personagem feminina de peso na história é Pauline Monnier (Emmanuelle Segnier), mulher casada que foi amante de Picquard e com ele exposta a uma série de atribulações naqueles dias ainda mais machistas do que os nossos. 
 
A premiação do filme com um Leão de Prata e do prêmio Fipresci no Festival de Veneza 2019, e também três César - melhor direção, figurino e adaptação - reacendeu, na França, a enorme rejeição pelo veterano diretor, de 86 anos, em tempos de intolerância total contra abusos sexuais (como se recorda, Polanski foi condenado pelo estupro de uma menor nos anos 1970, nos EUA, escapando do país). Nada do que Polanski faça pode mais passar longe destes protestos.

Neusa Barbosa


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