Marighella

Ficha técnica


País


Sinopse

Os últimos anos da vida de Carlos Marighella, ex-deputado comunista que aderiu à luta armada, criando e liderando a Ação Libertadora Nacional para lutar contra a ditadura militar de 1964.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/11/2021

Desde suas primeiras imagens, Marighella, o filme que marca a estreia do ator Wagner Moura na direção, diz ao que veio - humanizar seus personagens, o que, de modo algum, significa canonizá-los. Fosse esta a intenção, certamente não se optaria por apresentar Carlos Marighella (Seu Jorge) numa ação armada, em 1968, em que o grupo criado por ele, a Ação Libertadora Nacional (ALN), invade um trem para roubar um carregamento de armas. 
 
Livremente inspirado na biografia assinada pelo jornalista Mário Magalhães - Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo -, o roteiro, assinado por Moura e Felipe Braga, fixa-se nos últimos anos da vida do poeta, escritor, ativista, ex-deputado comunista e finalmente guerrilheiro baiano, filho de uma mulher negra e de um italiano, que se tornou, na ditadura militar, o inimigo número 1 do regime e o símbolo do que deveria ser não só combatido, como exterminado a qualquer preço. Leia-se, a poder de tortura, execução e execração pública eterna.
 
É nesta última fronteira que o filme se propõe a lutar, alternando momentos de luta ativa do protagonista com cenas de sua intimidade familiar - particularmente seu relacionamento com o único filho, Carlinhos (Matheus Araújo). A opção não torna nem mais nem menos questionável o que se possa pensar da adesão de Marighella às armas, rompendo com o diferente posicionamento do Partido Comunista ao qual pertencera e arriscando-se, junto a companheiros muito mais jovens - com exceção do veterano Branco (Luiz Carlos Vasconcelos) -, em ações armadas, como assaltos a bancos e sequestros de diplomatas. Impossível pensar nestas atitudes extremas fora do contexto de época, os anos 1960, onde o sonho revolucionário abalava países e inspirava a independência das nações ainda coloniais. 
 
Humanizar estes personagens, no caso, equivale a colocar-se em seu lugar, tentando refletir como eles viam o contexto em que viviam, revoltados contra o que consideravam a inação da oposição ao regime militar, instaurado por um golpe contra um presidente legitimamente eleito, João Goulart. Sua reação foi a de resistir, pegando em armas, por mais que isto significasse colocar-se em risco de prisão, morte e tortura. Isto incluía ex-políticos, como o próprio Marighella, estudantes, como Bella (Bella Camero), operários, como Danilo (Adanilo), homens simples e pais de família, como Jorge (Jorge Paz). Vários deles, personagens calcados em pessoas reais, mas com nomes trocados ou uma fusão de vários indivíduos, para maior liberdade artística. É o caso do jornalista Jorge Salles (Herson Capri), comunista que, num determinado momento, ousa divulgar um manifesto dos militantes, e também dos freis dominicanos, como frei Henrique (Henrique Vieira), que têm uma participação dramática no episódio que levou à emboscada que matou Marighella, em 1969. 
 
É muito claro que a opção por esta vida é extrema e cheia de contradições e conflitos. Significa romper laços, adotar nomes falsos, esconder-se, viver em perigo, não ter parada nem sono tranquilo. Marighella tem que afastar-se da segunda mulher, Clara (Adriana Esteves), e viver longe do filho. Bela tem que separar-se da mãe (Carla Ribas) e largar a faculdade. Jorge tem que mover constantemente a mulher e os filhos pequenos, que muitas vezes passam necessidades financeiras. Em todas as suas ações políticas, há o permanente risco de matar ou morrer.
 
Um aspecto acertado é retratar com as devidas tintas realistas o outro lado, o da repressão, simbolizado pelo delegado Lúcio (Bruno Gagliasso) - apesar do nome trocado, notoriamente inspirado no delegado Sergio Paranhos Fleury. Neste mundo que não conhece limites e mantém relações espúrias com militares e agentes norte-americanos, que inclusive contribuem com dinheiro para a máquina repressiva, delineia-se o tipo de sociedade autoritária que não só desrespeita a democracia como fomenta o fascismo. 
 
Ainda que mostre, eventualmente, cenas de tortura, o filme não abusa do recurso, nem o espetaculariza para fazer chocar. Recorre a isso, como tudo o mais, com uma contenção empenhada, que não deixa de mostrar que os realizadores têm um lado, mas recusam o maniqueísmo e a banalidade. 
 
Um ponto fora desta curva é a cena pós-créditos, em que parte do elenco é vista cantando, em altos brados, o Hino Nacional. Descolada da narrativa, a sequência se mostra mais como um desabafo ou uma tentativa de reapropriar-se de um dos símbolos da nacionalidade que a extrema-direita tem tomado para si e que de forma alguma lhe pertence. 
 
 
 
Leia a entrevista coletiva com Wagner Moura e equipe do filme

Neusa Barbosa


Trailer


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