Apocalypse Now: Final Cut

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Sinopse

A terceira versão de "Apocalypse Now" (1979), de 3 horas, parte dos negativos originais, compondo a versão considerada definitiva pelo diretor Francis Ford Coppola sobre a saga do capitão Willard, em busca do renegado coronel Kurtz no Vietnã em guerra do final dos anos 1960.


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Crítica Cineweb

29/06/2020

Mesmo para um diretor premiado e consagrado como Francis Ford Coppola, a cujo currículo não faltam tesouros, há sempre um filme que ocupa um território mítico. No caso dele, indiscutivelmente é Apocalypse Now (1979). Não por outra coisa é que o veterano cineasta, de 81 anos, chega à terceira e, ele garante, definitiva versão de uma de suas obras-primas absolutas.
 
O filme original traz consigo toda uma história de filmagens que extrapola o seu enredo fascinante - inspirado livremente no Coração das Trevas, de Joseph Konrad. A realização, nas Filipinas, durou inacreditáveis 238 dias, de março de 1976 a maio de 1977, foi interrompida por tufão, infarto do protagonista Martin Sheen, estouro de orçamento (que dobrou os previstos US$ 13 milhões iniciais) e inúmeras remontagens pelo diretor, que hipotecou até a própria casa para atender ao aumento de despesas. Tudo valeu a pena depois porque, como sabemos, o filme é um clássico de guerra, não apenas da do Vietnã, que é seu objeto, e acumulou glórias a partir da Palma de Ouro em Cannes em 1979, oito indicações de Oscar (levando dois, fotografia e som), outros prêmios e até um sucesso de bilheteria que o próprio diretor não esperava.
 
A inquietação de Coppola com a versão ideal do filme, no entanto, nunca cessou. Ele se dedicou a uma segunda, conhecida como Apocalypse Now Redux (2001), à qual incorporou cenas cortadas daquela lançada nos cinemas 22 anos antes. Entre elas, a brincadeira entre o capitão Willard (Martin Sheen) e os soldados que o acompanhavam depois de terem roubado a prancha de surfe do tenente-coronel Kilgore (Robert Duvall, intérprete preciso do militar maluco que comanda o inesquecível bombardeio de helicópteros ao som da Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner); e o jantar entre Willard e os fazendeiros franceses que resistiam a abandonar a antiga Indochina que fora sua colônia.
 
Estas duas alentadas sequências, além da alongada visita das coelhinhas da revista Playboy, sobrevivem nesta terceira versão, intitulada Final Cut, que tem 19 minutos a mais do que a segunda, a Redux, e pela primeira vez, recorre ao negativo original para incorporar 49 minutos a mais do que a primeira versão - o que garante uma qualidade ainda maior ao som e à imagem deste clássico que marca, há décadas, as retinas de qualquer cinéfilo digno deste nome.
 
Outra constatação é a cadência impecável do ritmo do filme, agora contendo em três horas a saga de Willard, tanto atormentado quanto viciado na adrenalina do pesadelo da guerra do Vietnã. Ele viaja aos confins do país, devendo atravessar a fronteira com o Camboja para eliminar o coronel Kurtz (Marlon Brando), renegado depois de atuação dúbia e assassina nas Forças Especiais e que se transformou numa espécie de guru de uma comunidade que o venera como um semideus. 
 
Outro ponto notável é a qualidade da caracterização dos personagens secundários, caso dos soldados que acompanham Willard, como o “Chef” (Frederic Forrester), o surfista Lance (Sam Bottoms), o garoto “Clean” (Laurence Fishburne, com inacreditáveis 14 anos, mentindo a idade para entrar no filme) e o chefe Phillips (Albert Hall). Mais tarde, comparece o energético Dennis Hopper, como um fotógrafo perdido na loucura geral em torno de Kurtz. 
Aparecendo pouco tempo no filme mas impregnando a narrativa desde o começo com sua presença fantasma, Marlon Brando é aquela força da natureza que incendeia a tela numa aparição mítica desde sua primeira cena, na penumbra, ostentando a cabeça raspada que ele mesmo inventou, sem contar nada a Coppola antes de chegar ao set - acima do peso e pronto para o combate, como sempre, mas valendo cada dólar de seu milionário cachê e o primeiro posto nos créditos do elenco.
 
Não se deve deixar de mencionar a interpretação apaixonada de Martin Sheen, ocupando com seu corpo e olhar o espaço inteiro deste personagem cuja vida interior terá que tornar material, física, imantando as imagens com sua jornada de altíssimo risco e nenhuma probabilidade de sair ileso o bastante para poder voltar a algum tipo de rotina. A ida ao Vietnã significa simplesmente isso - a revogação de qualquer espécie de normalidade àqueles que, por sorte, sobreviverem ao seu inferno, crueldade e falta de sentido.

Por tudo isso e muito mais, a esta altura de sua história, Apocalypse Now ultrapassa de muito o status de um mero filme, ainda que um clássico. É uma experiência cinematográfica e existencial primorosa para quem se dispuser a mergulhar nela nesta nova versão, que tem o poder de iluminar as anteriores. Definitivo mesmo só o fato de que não se sai o mesmo de nada tão visceral.  

Neusa Barbosa


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