Nomadland

Ficha técnica


País


Sinopse

Fern é uma sexagenária que perdeu tudo o que tinha na recessão e parte numa grande viagem para o oeste dos EUA numa van, buscando empregos temporários para ganhar a vida. Suas ligações, agora, são com pessoas nômades e maduras, como ela, encarando um tempo de trabalho precário mas em que uma nova solidariedade está descobrindo seus rumos.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

20/09/2020

É difícil definir Nomadland. É mais fácil dizer um pouco de tudo que é: um filme de estrada, um docudrama nem uma jornada de autodescoberta e amadurecimento ao entrelaçar os percursos de Fern (Frances McDormand), sua protagonista, com o de inúmeras outras pessoas que, ao contrário dela, não são atrizes nem atores, estão vivendo suas próprias trajetórias nômades. E isso numa idade em que a tradição rezava que se pensaria em sossego, aposentadoria, estabilidade.
 
Por uma razão - a imensa recessão 2007/2009, que privou de suas casas milhões de norte-americanos - e uma série de outras - divórcios, mortes, falências -, essas pessoas perderam seus empregos, suas casas, as vidas que tinham, as economias. E isso as obrigou a morar em seus próprios carros, tornando-se nômades motorizados.
 
Nada no filme escrito, produzido e dirigido pela chinesa radicada nos EUA Chloé Zhao, a partir do livro-reportagem da jornalista Jessica Bruder, e que foi o grande vencedor do Oscar 2021, percorre os rumos tradicionais de um drama com estes pressupostos, visitando todos eles com um novo sabor, um atalho todo seu. Isso é que torna Nomadland uma aventura por sua própria definição, em que tanto os personagens quanto os espectadores são passageiros que não conhecem de antemão suas próximas paradas e emoções.
 
De muitas formas, trata-se de um filme de fluxos, de camadas que se desdobram a partir das experiências de Fern, uma viúva sexagenária que viu desaparecer sua cidade, Empire, Nevada, com o fechamento da fábrica de gesso local. Deixando para trás seus poucos móveis guardados num depósito, ela parte numa van, que batiza de “Vanguarda”, compartilhando o destino destas pessoas maduras que não dispóem de um patrimônio de reserva e precisam ganhar a vida - ou seja, o mercado do trabalho temporário, em depósitos da Amazon, parques nacionais, fazendas espalhadas pelo grande território dos EUA.
 
Com tanta dispersão, talvez não se intua a princípio o quanto essa tribo de trabalhadores desgarrados pode constituir uma comunidade itinerante, em que as pessoas se encontram regularmente em alguns locais, em determinadas épocas do ano, descobrindo novas formas de amizades conectadas a estes novos tempos de desagregação trabalhista, familiar, securitária. 
 
Tratando de um contexto carregado da bagagem das dores e tristezas de cada um, é singular como Zhao extrai sutilmente a ambivalência das situações, humanizando cada trecho com seu correspondente em empatia e afeto, embora não se furte a revelar as dificuldades desta vida na estrada. O sono dos estradeiros é leve porque, a qualquer momento, uma pancada na porta pode avisar que naquele estacionamento não é permitido passar a noite ou indicar algum perigo à vista. 
 
Quando se está só, mais do que nunca é importante cultivar os instintos e nem todos são apenas de autodefesa. Filmando ao longo de cinco meses pelas paisagens de sete estados norte-americanos, a diretora incorpora paisagens de beleza discreta, entre trechos de desertos, florestas, formações rochosas e parques nacionais - como o de Badlands, em que Fern vive uma cena paradigmática de sua recém-testada liberdade de movimento, do medo de perder-se e da possibilidade de contar com o apoio de um desconhecido (David Strathairn).
 
Ao lado de McDormand - que, mais do que uma interpretação, realizou uma visceral simbiose com sua personagem -, um dos raros atores do elenco, Strathairn, assim como Melissa Smith (intérprete da irmã de Fern), funcionam como contraponto nesta ambiguidade entre o sentimento de identidade no eterno movimento na estrada e o pertencimento a um núcleo familiar, fornecendo à história um eixo de sensações perceptíveis pelo espectador.
 
Ao dar voz a pessoas que vivem realmente essa vida, como Linda May, Swankie e Bob Wells, interpretando uma versão de si mesmas, injeta-se uma legitimidade documental que é apenas mais um de seus múltiplos aspectos. Não é um filme comum, nem fácil de fazer, nem afeito a fórmulas, nem pretensioso de encontrar um novo sonho americano - cujo avesso a diretora, uma imigrante chinesa, conhece muito bem. Assim sendo, constitui-se muito mais numa antena estendida à contemporaneidade, que sintoniza o coração de um mundo atribulado que, muito antes da pandemia, já era inóspito a boa parte da humanidade e se pressentia que teria que mudar drasticamente de rumo. A hora é agora.

Neusa Barbosa


Trailer


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