O Poderoso Chefão de Mário Puzo - Desfecho: A morte de Michael Corleone

O Poderoso Chefão de Mário Puzo - Desfecho: A morte de Michael Corleone

Ficha técnica


País


Sinopse

Versão remontada e com novo começo e final do epílogo da trilogia "O Poderoso Chefão", que retrata o declínio do chefão Michael Corleone. Afastando-se dos negócios mafiosos, Michael aproxima-se do Vaticano, consolidando num acordo sua entrada em negócios corporativos legais. Mas a ambição de novos candidatos a chefões e de seus antigos associados o arrasta de novo para o submundo.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/12/2020

A exemplo do que fez com Apocalypse Now, o diretor Francis Ford Coppola revisita uma de suas obras mais famosas, O Poderoso Chefão: Parte III (1990), para dar-lhe o que pode se considerar como a versão definitiva do diretor. Com um novo início e um novo final, e cenas ligeiramente mudadas de lugar nesta remontagem, o epílogo da trilogia de mafiosos mais apreciada de todos os tempos ganha um novo nome: O Poderoso Chefão de Mario Puzo - Desfecho: A morte de Michael Corleone.
 
Embora a duração desta versão de 2020 seja apenas ligeiramente mais curta do que a de 30 anos atrás (menos 4 minutos), sente-se uma maior agilidade no encadeamento dos fatos que levam à queda do clã Corleone, talvez menos claro e fluente no filme original - que, na época de seu lançamento, não foi tão bem-sucedido quantos os dois primeiros capítulos da trilogia, que no total ganhou 9 Oscars (nenhum para o terceiro filme) e arrecadou cerca de US$ 1 bilhão mundialmente, em valores atualizados.
 
Só os muito cinéfilos, talvez, se dediquem a esmiuçar cena a cena o que exatamente mudou de lugar na nova montagem. É muito mais gratificante embarcar de novo nesta etapa final da saga, que acompanha o esforço de Michael Corleone (Al Pacino) de manter-se fora do mundo mafioso, promovendo uma obscura aliança com o arcebispo Gilday (Donal Donnelly) para consolidar sua posição no mundo dos negócios legais, emprestando altíssima soma ao banco do Vaticano em troca do controle de uma incorporadora em que o Vaticano tem interesses.
 
A identificação desta cúpula da Igreja Católica como uma espécie de máfia, ligada a manobras financeiras escusas, é um dos aspectos mais interessantes do filme, que chega também à sucessão de Paulo VI por João Paulo I (Raf Vallone) - sugerindo que o brevíssimo papa foi envenenado pelo chá que tomou antes de dormir.
 
Mas o centro do drama está mesmo na inutilidade da luta de Michael Corleone por manter-se longe do crime. Por mais que ele tente, é arrastado de volta a disputas envolvendo seus antigos associados mafiosos, que veem com cobiça seus novos negócios com o Vaticano, além da ambição dos candidatos a novos chefões, como Joey Zasa (Joe Mantegna). Situações que acirram as ambições de seu sobrinho, Vincent Mancini (Andy Garcia), filho ilegítimo de Sonny (James Caan), até aqui alijado da linha de frente da famiglia e cheio do sangue nos olhos, como seu pai e seu avô, o bom e velho don Vito (Marlon Brando). 
 
A maturidade é também a hora de os fantasmas assaltarem como nunca a mente sombria de Michael - como a culpa pela morte do irmão Fredo (John Cazale), o inconformismo pela perda da mulher, Kay (Diane Keaton), que ele nunca deixou de amar, o distanciamento dos filhos, Anthony (Franc D’Ambrosio) e Mary (Sofia Coppola), que ele agora procura compensar. Mas até mesmo seu poder de chefão, com todo o dinheiro que tem e o arsenal de violência que é capaz de invocar, não o tornam onipotente, muito menos feliz.
 
De modo geral, as interpretações são um ponto alto do filme, a primeira delas, de Al Pacino, arrancando inúmeras nuances de seu chefão em declínio, até físico, hesitando, no entanto, em dar sustentação às ambições do sobrinho. Mas Diane Keaton, como a ex-mulher que reaparece para lembrá-lo de seu fracasso pessoal, seu amor perdido, não está menos envolvente. Atriz delicada, Diane é capaz de extrair tons luminosos de um simples olhar dolorido e magoado para Michael. Não se deixe de lado também a esplêndida Talia Shire, verdadeira Lady Macbeth do clã Corleone, brilhando como madrinha das pretensões do sobrinho Vincent, insuflando os instintos primais de Michael e encarregando-se, ela mesma, de uma singular vingança contra o chefão Altobello (Eli Wallach), traído por sua gula. 
 
Falando em Sofia Coppola, assistir a esta nova versão é também uma oportunidade de voltar a avaliar sua performance de 30 anos atrás, quando ela tinha apenas 19 anos e praticamente nenhuma experiência dramática, entrando de última hora como substituta de Winona Ryder, que ficou doente, e sendo alvo das críticas mais demolidoras. Sofia não era, é certo, uma grande atriz - tornou-se depois uma diretora elogiada, com muitos méritos. Mas sua fragilidade interpretativa, por mais que seja evidente, está longe de ser um desastre que comprometa a integridade deste grande, grande filme, que ressoa, ainda hoje, como um sólido drama sobre as ilusões de poder e grandeza.
 
Muitas sequências permanecem vibrantes como marcas do melhor exercício da tensão narrativa - como o ataque aos chefões no cassino de Atlantic City, em que Coppola exercita, mais uma vez, sua fixação por helicópteros; e a primordial sequência na ópera de Palermo, alternada com outros dois desdobramentos externos, um sincopado carrossel de acontecimentos trágicos de ritmo alucinante, que demonstra, por si só, o poder do cinema. Por isso, é muito melhor rever esta nova versão ao menos uma vez na tela grande, o que permite aproveitar o melhor de uma trilha sonora magistral, assinada por Carmine Coppola, pai do diretor. 
 
Agora, aos 81 anos, Coppola, como Michael Corleone, contempla seu próprio legado, de muitos altos e alguns baixos. É curioso lembrar que o diretor nunca pensou em fazer sequências do filme inicial, de 1972, sendo convencido pelo estúdio Paramount ao segundo capítulo, que foi tão bem-sucedido quanto o primeiro, em 1974. O terceiro filme ele só aceitou mesmo dirigir por pura necessidade financeira, depois de ter tido dois grandes fracassos comerciais com O Fundo do Coração (1981) e Cotton Club (1984). O saldo final desta carreira, no entanto, é de um dos maiores diretores de todos os tempos.

Neusa Barbosa


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