Teocracia em Vertigem

Ficha técnica


País


Sinopse

O ano é 33 d.C, e Cristo acaba de ser condenado à morte, numa votação histórica. Uma documentarista resolve regatar a trajetória dele e, para isso, entrevista figuras bíblicas como Maria de Nazaré, Maria Madalena, Pôncio Pilatos e outros.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

07/12/2020

Em seu quinto especial de Natal, Teocracia em Vertigem, a trupe de humor Porta dos Fundos conta o nascimento, a morte e a ressurreição de Jesus como uma sátira à história recente do Brasil, tendo como modelo o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que acompanhou o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016.
 
Roteirizado por Fábio Porchat (a partir de uma ideia de Gabriel Esteves), que também interpreta Jesus, o especial é composto de uma série de depoimentos de personagens bíblicos e anônimos, que ajudam a recontar a história do protagonista. Entre uma entrevista e outra, uma voz feminina da “diretora” do filme (Clarice Falcão) faz comentários e situa a narrativa, como no documentário dirigido por Costa, que aliás faz uma participação aqui.
 
O humor é o típico do Porta, no tom e temas, o que não deve decepcionar a base de fãs, mas irá desagradar aos detratores, como era de se esperar, visto a celeuma sobre o vídeo do ano passado, A Primeira Tentação de Cristo, que culminou num atentado a bomba na sede do humorístico no Rio de Janeiro e um pedido de censura por lideranças evangélicas. O STF decidiu, no mês passado, depois de quase um ano da estreia na Netflix, que não havia nada que incitasse violência a evangélicos, e, portanto, a obra devia continuar no ar.
 
Dirigido por  Rodrigo Van Der Put, Teocracia em Vertigem assume riscos calculados e não vai além de nada que o Porta dos Fundos já não tenha feito em termos de humor envolvendo religião. Ainda assim, é imaginativo e engraçado, com boas sacadas – como um Cidadão de Bem (Pedro Benevides) contando porque era a favor da condenação de Jesus, ou Gregório Duvivier como um apresentador de televisão sensacionalista, cujo tom está bem próximo dos pastores evangélicos que ele interpretou em diversos esquetes nos últimos anos.
 
Atores e atrizes fixas dos episódios do humorístico interpretam papeis variados. Evelyn Castro é Maria; Antonio Tabet, por exemplo, faz uma versão de seu famoso policial corrupto e bronco, Peçanha, aqui chamado Peçanhus; Rafael Portugal interpreta José de Arimatéia; Tathi Lopes, Maria Madalena, cujo depoimento é constantemente interrompido por cidadãos de bem; a ótima Noemia Oliveira, uma noiva, em cujo casamento Jesus multiplicou comes e bebes; e Nath Cruz, creditada como uma “moradora local”,, tem algumas das melhores falas do filme. Somam-se a eles Marcos Palmeira, como um senador que vota pela condenação de Cristo, bradando: “pela minha família, pela família tradicional jerusaléia”; Paulo Tiefenthaler, como Pôncio Pilatos, tem algumas das melhores cenas do especial; enquanto Renato Góes interpreta um Barrabás sedutor, cujo charme desconcentra até a diretora do filme, o que talvez explique sua absolvição.
 
Há quase uma década com seus vídeos no Youtube, o Porta dos Fundos mostra que a máxima gil-vicentiana de que “rindo castigam-se os costumes” continua mais atual do que nunca. Teocracia em vertigem, em sua sátira quase sempre afiada, usando do passado para falar do presente, lembra-nos, dentro e fora da tela, que vivemos num Estado laico, por mais que alguns insistam no contrário. 

Alysson Oliveira


Trailer


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